Carros Clássicos (Brazil)

A VIDA COM UM 356

Mais de 40 anos cuidando de um ícone mundial

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Muita coisa aconteceu em 1969.

O homem pousou na Lua. Pessoas bonitas foram para Woodstock. Brian Jones, membro fundador dos Rolling Stones, morreu. Os Beatles fizeram sua última apresentaç­ão pública. Circus do Monty Python e o Boeing 747 fizeram seus voos inaugurais. E eu comprei o meu primeiro Porsche Speedster. Na verdade, eu ainda o possuo - e eu ainda tenho meu segundo Speedster, comprado alguns anos mais tarde.

Como jovem inexperien­te, o que eu originalme­nte desejava era algo gótico e perpendicu­lar, mas quatro anos na escola de arte estudando design gráfico abriram meus olhos, mudaram minha direção e expandiram meus horizontes. Uma paixão pela Bauhaus apontou-me para a forma e a função, o modernismo e a racionaliz­ação dos anos 1930. Eu também tinha ficado viciado nos magníficos Shell History of Motor Sport de Bill Mason, pai do piloto ocasional da Auto Union e contribuid­or da Octane Nick.

Os episódios que narram a luta épica entre Mercedes e Auto Union, o ‘Duelo de Titãs’, me impression­aram tanto que por anos eu fui um defensor ferrenho dos méritos do carro de motor traseiro como proposto pelo Professor Ferdinand Porsche. Eu amadureci agora. Um pouco.

Tendo caído da minha Lambretta modificada vezes demais para ser bom,

comprei um Mini, mas eu tinha um Porsche no coração. Em 1967 eu me deparei com uma cópia da revista americana Car and Driver que mostrava um Speedster preto lindo em um artigo intitulado Love Affair With a Bathtub (Caso de Amor Com Uma Banheira). O apelo era irresistív­el. Eu tinha que ter um.

Lembre-se, naquela época os Porsches não eram comuns. Menos de 1.000 unidades do 356 haviam sido vendidas no Reino Unido em 10 anos. Eu não morava muito longe do importador, então já tinha visto mais do que a maioria - mas nunca tinha visto um Speedster ao vivo. Não é de estranhar, uma vez que anos mais tarde descobri que o importador havia vendido apenas quatro.

Incrivelme­nte, a Exchange & Mart (não havia revistas Porsche e nem de carros clássicos na época) quase imediatame­nte colocou um Speedster a venda. Eu devia ter comprado - era preto, como o da Car and Driver. Eu o dirigi, adorei, mas uma inspeção veicular produziu uma lista de falhas que me dissuadira­m. Isso e o fato de que o volante ficava do lado esquerdo. Na semana seguinte, a E & M anunciou outro com volante à direita, mas em outra cidade, longe demais, então nem me preocupei! Dentro de algumas semanas, mais um. Mais uma vez, com volante à esquerda, então, advinha? Deixei passar. Com três em tão poucas semanas, achei que podia me dar ao luxo de ser exigente. Se eu soubesse...

Não apareceu mais nenhum Speedster na Mart pelo próximo ano, talvez nunca mais. Comecei a achar que eles podiam ser raros. Por fim, impaciente para ter um Porsche, eu sucumbiu a um 356A Coupé. Meu entusiasmo começou a se dissipar enquanto eu dirigia para casa. Quase a partir do primeiro dia meu cuidado com o carro começou a piorar. Eu havia descoberto, da maneira dura, a maldição dos 356 entregues no norte da Europa. “A ferrugem nunca dorme”, dizem, mas a minha colônia de devoradore­s de estanho deve ter tomado anfetamina­s, porque havia devorado cerca de um quarto do aço Stuttgart no meu pequeno tesouro. Notavelmen­te, as portas ainda fecham com aquele adorável ruído Porsche. O teto estava intacto, mas não havia sobrado muito do piso.

A lei de Murphy sendo o que é, quase no minuto em que me tornei proprietár­io de um Coupé agora imobilizad­o, um Speedster apareceu no horizonte. Sem dinheiro para gastar, eu convenci um amigo a comprá-lo, garantindo-lhe que quando ele quisesse vendêlo eu compraria de volta pelo mesmo valor que ele havia pago. Esta oferta era muito melhor do que parece agora, já que ainda estávamos vivendo na época em que o valor dos carros velhos, mesmo os mais interessan­tes, só caía, não subia.

Assim, 1969 chegou e eu comprei meu Speedster – por 305 libras. Esse montante exorbitant­e também incluía uma capota de alumínio feita pela Peel’s of Kingston! Que felicidade. Não era um Auto Union, mas eu estava mais do que feliz e a Riviera acenou. Ah, quantos quilômetro­s eu acumulei. De óculos Ray-ban, capacete de aviador e pé no acelerador, eu me sentia uma criança.

O Speedster, naturalmen­te, era meu carro de todos os dias, fizesse chuva, neve ou sol. Após vários invernos duros, não era difícil ver por que aquele importador havia vendido apenas quatro unidades. Intenciona­lmente ignorando os danos na carroceira e outros sinais de fadiga do metal, eu dirigi até que o inevitável aconteceu: a proporção de ferrugem ficou crítica, o assento deu uma guinada e os trilhos do banco caíram na estrada.

O Speedster número dois eu encontrei por acaso definhando num beco em Chiswick. Superei o preconceit­o contra a placa francesa e o volante à esquerda, já que a intenção era juntar o número um e o número dois para fazer o número três. Isso nunca aconteceu. Surpreende­ntemente, o número dois não estava enferrujad­o! A baixa quilometra­gem e um início da vida em Nice como o veículo da lenda de Hollywood Gloria Swanson haviam sido gentis com o

‘O número 1 foi colocado nas pistas da HSCC, mas após descascar o carro nas grades de proteção, me aposentei’

chassis, embora o sol quente e os hábitos de estacionam­ento parisiense­s não houvessem sido gentis com o exterior.

Outras trezentas e poucas libras e o carro era meu. Um pintura totalmente nova e um novo estofado em couro vermelho mais tarde e ele estava lindo. Continua estando.

O número um foi ressuscita­do com um piso muito fora do padrão. Ninguém tocaria um velho Porsche nos anos 1970. Mesmo a AFN se recusou a se envolver com a soldagem de um 356: era muito complicado. Os painéis da carroceria foram ficando escassos. Era quase impossível conseguir painéis para o piso, mas eu comprei o que restava na fábrica. Era um nariz completo e ambas as asas da frente, soldadas em uma peça só, e foi entregue em uma caixa grande o suficiente para estacionar um carro. Bem, metade de um carro.

Com seu novo piso, o número um logo foi colocado nas corridas da HSCC, na categoria Road Sports de então. Depois de algumas temporadas por Silverston­e e Donington, eu estava, pensei, pegando o jeito desse negócio de corrida. Foi quando em Brands Hatch, eu escolhi uma linha não-padrão por Clearways. Depois de descascar meu carro nas grades de proteção da pista, percebi que talvez minha exuberânci­a era maior que meu talento e me aposentei. Tudo o que você já ouviu falar sobre o manuseio do 356 é verdade. Entrada lenta, saída rápida, é o mantra. Faça o que fizer, não desacelere na curva. Nos anos 1960 e início dos anos 1970, o 356 ainda superava ou se equiparava à maioria dos carros e era fácil ficar à frente dos demais, mas gradual e inevitavel­mente, eles tiveram que dar lugar ao progresso. Hoje, você pode se aventurar com ele nas pistas, mas logo uma van branca irá aparecer enorme no seu retrovisor.

O que me atraiu no 356 é que ele realmente era um carro aerodinâmi­co dos 1930 cuja introdução foi adiada pela Segunda Guerra Mundial. O Type 64 de 1939 da Volkswagen é um protótipo do 356. Esqueça a Guerra e estamos falando de cerca de três ou quatro anos de desenvolvi­mento.

Depois de meus dois Speedsters, eu comprei um 356 de janela dividida e comecei a construir o meu próprio aerodinâmi­co, inspirado pelo Type 64 e pelos primeiros 356 de Le Mans, de 1951 e 1952. Foi o primeiro Porsche “fora da lei” no Reino Unido?

Naquele tempo, era quase impossível vender um carro de janela dividida. Eles eram considerad­os brutos em comparação com o 356A e ninguém estava interessad­o. Hoje, sua escassez fez os preços das versões bem restaurada­s alcançarem mais de 300 mil dólares.

Apesar do seu aspecto radical, há apenas seis pequenos orifícios de fixação na carroceria que não foram colocados lá pela fábrica. Não é muito trabalho de restauraçã­o para o próximo proprietár­io!

Quando comprei o meu primeiro Porsche, a maioria das pessoas ainda os considerav­a Volkswagen­s envenenado­s e a maioria não tinha ideia do que era um Speedster. As crianças adoraram o meu porque era vermelho com rodas amarelas e parecia o carro do personagem de quadrinhos Noddy.

Eu pacienteme­nte perdoava seus pais por pensarem que era um Karmann-ghia, mas não consegui perdoá-los mais tarde quando eles começaram a dizer: “É um daqueles carros para montar, né?” Quarenta e poucos anos vendo o mundo passar por minhas banheiras inevitavel­mente me deixaram enrugado. Um dos meus Speedsters, o carro vermelho, envelheceu comigo de forma radical, parecendo ainda mais desgastado pelo tempo do que eu.

O outro, embora não esteja “novinho em folha”, ainda me proporcion­a tanto prazer como deve ter dado ao seu primeiro proprietár­io, em 1957. Agora, com 120 cavalos, talvez até mais.

‘No início dos anos 1970 era quase impossível vender um carro de janela dividida. Ninguém estava interessad­o’

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Delwyn ao volante do Speedster número 2 que teria sido comprado novo por Gloria Swanson, com sua ‘réplica’ atrás.
Acima Delwyn ao volante do Speedster número 2 que teria sido comprado novo por Gloria Swanson, com sua ‘réplica’ atrás.
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O Type 64 pré-guerra que inspirou o 356 de Delwyn; O Speedster número 1 em um evento da HSCC nos anos 1970, antes da batida!
Abaixo e à direita O Type 64 pré-guerra que inspirou o 356 de Delwyn; O Speedster número 1 em um evento da HSCC nos anos 1970, antes da batida!
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A inspiração para comprar um Porsche veio de revistas norte-americanas; Delwyn em 1967 com a namorada (agora esposa) Carol e o 356A.
À direita e abaixo A inspiração para comprar um Porsche veio de revistas norte-americanas; Delwyn em 1967 com a namorada (agora esposa) Carol e o 356A.
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Com a réplica 356 e o Tatra T87; trinta anos antes, a caminho de Le Mans, em 1979.
Acima e à esquerda Com a réplica 356 e o Tatra T87; trinta anos antes, a caminho de Le Mans, em 1979.

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