Carros Clássicos (Brazil)

O 911 DE STEVE MCQUEEN

Conheça o carro da estrela de Hollywood

- Texto: Nigel Grimshaw Fotos: Matthew Howell

A estrada se revela, virando primeiro para a direita e depois para a esquerda. O 911 se move de maneira irregular à medida que atravessa uma pequena ponte. Ele sobe um leve aclive para depois descer e entrar em uma avenida arborizada atravessan­do uma ponte para um único carro e chega à cidade. Passa por um lindo restaurant­e com floreiras nas janelas. Uma longa tomada com o motorista e o Porsche entrando na praça da catedral. Ele faz uma parada e vê uma mulher bonita comprar flores.

Move-se de novo, para fora da cidade e de volta ao campo. O terreno é plano e a estrada tem um curva acentuada à direita, o local agora revelado por uma placa que diz ‘Le Mans’. O guardrail toma o lugar das árvores à beira da pista. O carro encosta e o motorista sai: casaco de camurça, relógio, pulseira. A câmera circunda o motorista. De forma lenta, mas certa, o reconhecem­os: o rosto de Steve Mcqueen enche a tela.

Mais de trinta anos depois, e a cena muda da La Sarthe do início dos anos 1970 para Los Angeles, Califórnia. Sentado ao volante do

‘Para tornar sua estadia na França mais agradável, Mcqueen comprou um 911S, que ele usaria tanto no filme quanto como transporte pessoal’

famoso carro que dominou os quatro primeiros minutos de Le Mans, eu vejo a avenida arborizada e aquela linda mulher comprando de flores, mas apenas no olho da minha mente. Através do vidro, enxergo hamburguer­ias em vez de catedrais, cartazes que dizem Long Beach, em vez de Le Mans. Confiro os retrovisor­es: não há uma Ferrari 512 ou um Porsche 917 à vista. Eu acelero o 911 “perdido” de Steve Mcqueen no tráfego de Los Angeles.

É domingo de manhã e há mais pessoas correndo na rua do que carros, mas a situação não é menos surreal. Este é o carro de Steve Mcqueen: o homem que apagou um Inferno na Torre; o homem que pulou cercas de arame farpado em Fugindo do Inferno; que atuou em Bullitt, Papillon e, é claro, Le Mans. Jesse Rodrigues, o terceiro proprietár­io do carro, está sentado ao meu lado. “Acelere um pouco mais, ele grita conforme nos dirigimos à Highway 110.

Na primavera de 1970, a Solar Production­s foi a Le Mans para começar a trabalhar no filme. Para tornar sua estadia na França ainda mais agradável, Mcqueen comprou um 911S, que ele usaria tanto no filme quanto como transporte pessoal. Ele estava tão feliz com seu Porsche que, no final das filmagens, decidiu mantê-lo, uma vez que o tinha enviado a Stuttgart para que diferentes relações de transmissã­o fossem montadas. O carro foi então enviado para Mcqueen na Califórnia.

O problema era que Steve já possuía um 911 1969 e havia gasto bastante dinheiro instalando um sistema de som de última geração. O 911 de Le Mans era supérfluo e foi anunciado para a venda no LA Times. Jesse ri quando narra a história.

“O cara de quem comprei o carro, o segundo proprietár­io, é um verdadeiro entusiasta do 911. Ele comprou um Targa S em 1969, mas, infelizmen­te, o carro foi roubado no início de 1971. Ele queria comprar outro S, então procurou no LA Times e encontrou um anúncio para um 911S. Ele ligou para o número e combinou de ir ver o carro. E advinha quem abriu a porta? Steve Mcqueen! A família de Mcqueen é dona do 911 com som estéreo até hoje.”

O 911 que Mcqueen usou em Le Mans ficou nas mãos de seu segundo proprietár­io pelos 34 anos seguintes, vinte dos quais ele foi usado como carro do dia a dia. Em 2005, Jesse participou de um almoço de escritório.

“É um encontro mensal”, lembra ele. “Assim como qualquer outro grupo de colegas, falamos de trabalho e hobbies. Naquele dia, eu mencionei que gosto de Porsches antigos e uma das senhoras disse que seu marido possuía um, mas não sabia dizer se era um 911, 912 ou 356. No almoço seguinte, ela mencionou isso de novo e eu disse que gostaria de vê-lo. Eu tenho quatro 356, então estava interessad­o. A coisa não foi em frente. Até que um dia eu a encontrei na Starbucks e ela disse que seu marido estava pensando em vender o carro. Em nenhum momento houver qualquer menção de Mcqueen ou Le Mans.”

Na verdade, Jesse não estava realmente interessad­o no carro. Ele tinha descoberto que era um 911, mas sua paixão era o 356. Os dois continuara­m a falar por algumas semanas até que, finalmente, uma reunião foi marcada. “Eu fui até a casa do proprietár­io”, lembra Jesse. “O carro estava estacionad­o praticamen­te na condição em que o vemos hoje. Foi ao ar livre, na entrada da garagem. Havia marcas empoeirada­s de pata de gato sobre o capô e o teto. Não sendo um fanático por 911 naquele momento, parecia um carro qualquer para mim. Nós conversamo­s por um tempo, e então eu saí.”

Poucas semanas depois, Jesse voltou para ver o carro, desta vez com sua esposa. “Mais uma vez, ficamos conversand­o na calçada, e foi quando o proprietár­io me disse que se tratava do 911 de Steve Mcqueen. Obviamente, eu sei quem foi Mcqueen, mas isso não tinha quase nenhuma importânci­a para mim. Eu tinha outros compromiss­os e não tinha certeza de que poderia pagar pelo carro de qualquer maneira, e nós ainda não havíamos falado sobre preço.”

Jesse e sua esposa foram para casa e nada aconteceu por mais uma semana. Durante esse tempo, Jesse falou com seu mentor automotivo, que possuiu Porsches desde 1960. Mais uma vez, a importânci­a do primeiro proprietár­io foi deixada de lado porque questões mais práticas entraram em foco. Naquele momento, o carro tinha 186 mil quilômetro­s rodados, e as preocupaçõ­es com a retífica do motor e a transmissã­o atrapalhar­am o negócio. No entanto, ao ouvir sobre a conexão com Mcqueen, outro dos contatos de Jesse insistiu para que ele comprasse o carro. Incentivad­o e desmotivad­o por seus conselheir­os em igual medida, Jesse decidiu abrir a mão e disse ao proprietár­io que queria comprar, mas a resposta foi uma surpresa.

“O proprietár­io achava que a única coisa certa a fazer era oferecer o carro para a família de Mcqueen, com o que eu concordei. Pensando agora, se na época eu soubesse o que sei hoje, eu teria ficado muito mais preocupado.” Jesse ri agora, mas no início de 2005, isso era um problema - e não o único. Uma terceira pessoa havia manifestad­o interesse, e o dono disse a Jesse que quem fechasse o negócio primeiro levava o carro. Ele não precisava de mais incentivo.

No caminho, Jesse repensou suas preocupaçõ­es sobre o motor e a transmissã­o - em relação ao preço pedido, reconstrui­r o motor ou caixa de câmbio seria um enorme problema. Ele tinha um mecânico que estava disposto a dar uma olhada no 911, mas não estaria disponível durante três dias. “Eu falei com o proprietár­io sobre minhas preocupaçõ­es”, lembra Jesse, “e que meu mecânico não conseguiri­a ver o carro de prontidão. Incrivelme­nte, o vendedor me entregou as chaves e disse: ‘Leve-o.’”

Depois de três longos dias, o mecânico foi capaz de dar seu aval e Jesse voltou à casa do proprietár­io. “Até então, todas as nossas conversas tinham sido realizadas na calçada, ao lado do carro. É melhor não fazer um negócio como este na casa de alguém. Quando finalmente entrei na casa, havia um cartaz de Steve Mcqueen na parede e ele fazendo o “V” de vitória. O proprietár­io olhou para mim e disse: ‘Sim, é um pôster do filme.’ Eu não sabia de qual filme até que ele me disse que era Le Mans. Você pode acreditar que eu nunca tinha visto o filme?”

Neste ponto, o agora ex-proprietár­io começou a mostrar documentos e mais documentos do carro. “Eu realmente não sabia o que eu tinha”, admite Jesse. Mcqueen havia mantido cada correspond­ência, cada detalhe de sua propriedad­e, cada etapa da viagem para os EUA, o registro. Nenhuma parte da vida do Porsche que poderia ser documentad­a havia escapado do arquivamen­to.

Pouco mudou no carro desde que ele deixou La Sarthe. Foi certamente repintado em algum momento, e Jesse restaurou as rodas, colocou pneus novos e um novo para-brisa, razão pela qual os adesivos que podem ser vistos no filme não estão presentes no vidro do carro hoje. Mas o arcondicio­nado, bancos de couro, vidros fumê, saia do silencioso, teto solar elétrico, calotas de alumínio, rádio AM/ FM Blaupunkt com antena manual e luzes de condução pedidos por Mcqueen estão todos presentes e corretos. “Eu já comprei o filme”, diz Jesse enquanto dirigimos pelas ruas tranquilas da manhã de domingo em Los Angeles no 911 de Mcqueen. “Algumas pessoas dizem que este é o mais icônico dos 911. Eles podem estar certos, mas é o carro de Steve, não meu, e é assim que deve permanecer. A pessoa que o possui agora não deve ter nenhuma importânci­a. O engraçado é que, recentemen­te, encontrei a pessoa que me vendeu o carro e ele me disse: ‘O que você pensaria se eu lhe desse de volta o dinheiro que você pagou pelo Porsche mais as despesas que você eventualme­nte tenha tido, e pegasse o carro de volta?’ Nós rimos sobre isso e eu disse: ‘Eu recuso a sua oferta, mas vou pensar sobre o assunto.’”

É claro que os dias de condução diária deste 911 ficaram para trás. Embora o carro tenha passado a vida toda em Los Angeles após sua partida da Europa, o tráfego caótico da Califórnia nos dia de hoje faz com que andar com o carro sete dias por semana seja muito arriscado. Mas todo domingo de manhã, antes do nascer do sol, Jesse tira o 911 da garagem e cai na estrada para uma volta de pouco mais da 30 km.

Eu olho para a direita conforme passamos por outra lanchonete, Jesse ainda ao meu lado. As ruas de Los Angeles permanecem tranquilas enquanto as janelas do restaurant­e refletem a imagem do Porsche de forma clara e verdadeira. Os olhos descansam por um momento sobre a superfície de vidro. Eu vejo o carro, eu ao volante, um restaurant­e francês com uma floreira. Aqui ali é uma catedral? E uma mulher bonita comprando flores? Por fim, vejo a placa na estrada: ele está apontando para leste e, na minha mente, leio: Le Mans, a 9 mil quilômetro­s.

‘Mcqueen havia mantido cada correspond­ência, cada detalhe de sua propriedad­e, cada etapa da viagem para os EUA, o registro’

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Mcqueen faz uma pausa durante a introdução de Le Mans; Mcqueen na direção; o filho Chade e dois Porsches estacionad­os: algum deles é o que pilotei?
A partir do topo Mcqueen faz uma pausa durante a introdução de Le Mans; Mcqueen na direção; o filho Chade e dois Porsches estacionad­os: algum deles é o que pilotei?
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Embora seja improvável Mcqueen tenha frequentad­o esse café em Los Angeles, parece o tipo de lugar que ele iria de carro para tomar café da manhã num domingo.
Abaixo Embora seja improvável Mcqueen tenha frequentad­o esse café em Los Angeles, parece o tipo de lugar que ele iria de carro para tomar café da manhã num domingo.

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