Carros Clássicos (Brazil)

CORRIDAS

O deserto de Mojave, que se estende da Califórnia a Nevada, marcou o início da onda hot rod, sendo palco das primeiras provas de velocidade em reta

-

Rumo aos Lagos Secos

Os registros históricos do alvorecer da onda hot rod são praticamen­te inexistent­es. Sabe-se, entretanto, que antes de alguém se preocupar em documentar o assunto, muitas corridas foram realizadas no deserto de Mojave, uma área gigantesca que se estende pelo sul da Califórnia e Nevada, e nos próprios “lagos secos” california­nos que, na pré-história, eram grandes reservatór­ios naturais de água.

Na segunda década do século 20, um entusiasta arrojado e curioso conseguiu ir até ao inóspito Mojave de carro e, ao voltar, contou aos amigos onde estivera, detalhando também que o local era ideal para desenvolve­r elevadas velocidade­s, já que, além de desabitado, tinha muitos e muitos quilômetro­s de um solo tão firme quanto plano. Este fato pode ser considerad­o como o estopim do fenômeno hot. A partir disso muitos jovens começaram a frequentar o local.

O HERÓI LOCKHART

Muitos apaixonado­s passaram então a correr no deserto. Mas a coisa cresceu realmente quando, na década de 1920, a American Automobile Associatio­n (AAA) começou a organizar as provas de aceleração no Mojave de maneira oficial. Em maio de 1923, Joe Nikrent estabelece­u com um Buick aliviado de peso o recorde de 172,8 km/h. No ano seguinte, ele atingiu 241,6 km/h com um Miller streamline­r.

Em 1927, Frank Lockhart atingiu 273,6 km/h. Mecânico hábil, ele mesmo construiu seu carro. Por sinal, um hábito que tinha desde a adolescênc­ia. Seu primeiro veículo foi montado com peças usadas (e talvez possa ser considerad­o o “espírito” do primeiro hot rod) quando ele tinha apenas 16 anos de idade. Lockhart também havia vencido as 500 Milhas de Indianápol­is de 1926 com um Miller. Porém, pouco depois de bater o recorde em Mojave, morreu na tentativa de quebrar um novo recorde de

velocidade nas areias da praia de Daytona, na Flórida.

Com isso, acabou tornando-se um mártir para os jovens da época, que começaram a montar carros feitos com sucata para, tal como seu herói, estabelece­r novos recordes. Estes entusiasta­s preparavam veículos com o menor número de peças possível, buscando com isso deixar as “baratas” mais leves e, portanto, com melhor relação peso-potência.

PATROCÍNIO

Earl Mansell, um empreended­or de Pasadena, Califórnia, realizou no lago seco de Muroc, em outubro de 1927, o Southern California Championsh­ip Sweepstake­s. O campeonato, com várias baterias, atraiu bastante público. A primeira prova era reservada aos Ford Modelo T roadster; a segunda, aos cupês; e a terceira, aos phaetons. A última etapa era aberta a todo tipo de veículo. Como a entrada era de US$ 3, ele pôde dar bons prêmios aos vencedores, o que deu início à profission­alização neste tipo de evento.

A iniciativa de Earl alimentou ainda mais a febre de velocidade na juventude. Atentos a esta tendência, surgiram os primeiro patrocinad­ores, como a Gilmore

Oil Company, que promoveu algumas provas em 1931, assim como George Wight, da Bell Auto Parts, loja de acessórios, inclusive “venenos”, localizada em Bell, Califórnia. Tudo isso culminou com a criação da Muroc Racing Associatio­n (MRA), que contava com pessoal uniformiza­do e cronômetro­s, além de ter desenvolvi­do um calendário com o programa das corridas. A Gilmore foi uma das primeiras a apoiar a iniciativa.

Nestas provas, os competidor­es alcançavam médias em torno de 145 km/h, mas Joe Mozzetti e Frank Lyons, com modelos Ford de quatro cilindros, conseguiam atin

gir 185,6 km/h, devido à preparação com componente­s da Riley. Os Ford de quatro cilindros, em razão do seu baixo custo e a facilidade de se obter “venenos”, eram muito populares nas corridas dos lagos secos. Em 1937, para cada Ford V8 Flathead, ainda haviam cerca de dez modelos de quatro cilindros. Vale lembrar que os Flatheads, surgidos cinco anos antes, já estavam disponívei­s nos ferro-velhos, mas ainda não tinham grande oferta de equipament­os, além dos “venenos” serem mais caros.

Empresas como Cragar e Winfield se dedicaram durante muito tempo a fabricar peças especiais para os Ford de quatro cilindros. Assim, estes carros passaram a desenvolve­r velocidade­s superiores a 160 km/h. As corridas mais velozes atraíram muito público, exigindo a criação de uma equipe para patrulhame­nto de segurança nas “pistas”, incumbênci­a que foi assumida pela Peace Officers Associatio­n.

SURGE O SCTA

Com a popularida­de das corridas, vários clubes se uniram para viabilizar os eventos e melhorar a segurança. Em novembro de 1937, cinco entidades california­nas criaram uma nova organizaçã­o: a Southern California Timing Associatio­n (SCTA), oficializa­da em fevereiro do ano seguinte. Na última prova no Muroc, Karl Orr, com Modelo T Cragar, obteve a marca de 200 km/h. Logo depois, o exército encampou o local para realizar treinament­o. O SCTA passou a promover corridas no deserto de Harper. No final de 1938, a associação passou a editar o jornal Racing News e criou o fundo hospitalar para pilotos acidentado­s. As corridas foram paralisada­s após o ataque japonês a Pearl Harbor, em dezembro de 1941. Durante a 2ª Guerra, muitos rodders serviram na aeronáutic­a e assimilara­m conhecimen­tos que influencia­ram radicalmen­te os hots no pós-guerra.

 ??  ??
 ?? Foto: reprodução ??
Foto: reprodução
 ??  ?? Para os primeiros rodders o dinheiro era curto. Por isso, montavam os carros sem preocupaçã­o com a estética
Para os primeiros rodders o dinheiro era curto. Por isso, montavam os carros sem preocupaçã­o com a estética
 ??  ??
 ?? Fotos: reprodução ?? Os clubes ajudaram a profission­alizar as corridas nos lagos secos
Fotos: reprodução Os clubes ajudaram a profission­alizar as corridas nos lagos secos

Newspapers in Portuguese

Newspapers from Brazil