Carros Clássicos (Brazil)

MADE IN BRAZIL

O fenômeno hot rodding demorou a se difundir no Brasil. Mas nos últimos anos floresceu uma indústria que vem crescendo rapidament­e

- Texto: Rogério Ferraresi / Fotos: Saulo Mazzoni

Prata da casa

Odesenvolv­imento do antigomobi­lismo no Brasil, mesmo colaborand­o com a preservaçã­o de nossa história automobilí­stica, foi acompanhad­o de alguns efeitos colaterais. O maior deles é a supervalor­ização dos carros, inclusive exemplares em péssimo estado de conservaçã­o e que muito bem poderiam ser usados na construção de hot rods.

Para os apaixonado­s brasileiro­s que desejam, atualmente, construir um hot baseado nos primeiros modelos, anteriores à Segunda Guerra Mundial, a solução mais indicada é recorrer às réplicas de plástico ou de fibra de vidro, já que a mecânica é bem mais fácil de se encontrar. Felizmente, nos últimos anos, vem prosperand­o no País uma indústria especializ­ada na construção de kits de hots.

UM T-BUCKET NACIONAL

Um dos exemplos desta florescent­e indústria é a

Jor Racing, empresa criada por Jorge Paes Fernandes Junior em São Paulo. Um fanático pela obra de Ed “Big Daddy” Roth, Jorge tem até o personagem Rat Fink tatuado no braço e há muitos anos está envolvido com o movimento rodder no Brasil.

Ele pesquisou os hot rods mais populares vendidos em kits nos Estados Unidos e decidiu importar um do T-bucket. Isso foi há 11 anos, em 1994. Após consultar um amigo que morava na terra do Tio Sam, soube que poderia trazer o conjunto dentro de um contêiner de navio, o que lhe encorajou a dar início do projeto, que virou uma verdadeira aventura.

Após enviar o dinheiro para a compra do kit (carroceria e planta do chassi), ele calculou as despesas de transporte com base no peso da encomenda e concluiu que poderia trazer tudo por um determinad­o valor, dentro de suas possibilid­ades. Porém, quando o amigo que morava nos EUA recebeu o kit e procurou uma companhia de navegação para embarcar a encomenda, Jorge teve uma surpresa desagradáv­el.

O orçamento o deixou assustado. Ele percebeu que o valor total do transporte e taxas era muito superior ao preço do próprio kit. O problema é que os cálculos deveriam ser feitos por cubagem, o volume da carga, e não pelo peso. Assim, ele pediu para o amigo guardar a carroceria por lá, durante algum tempo, enquanto juntava dinheiro para pagar o transporte.

Ao mesmo tempo, solicitou ao amigo a remessa da planta pelo correio. Assim, pelo menos pôde começar a construir o chassi. Tempos depois, quando conseguiu juntar o dinheiro do transporte para finalmente trazer a carroceria para o Brasil, o chassi já estava pronto. Jorge logo iniciou o processo de montagem do T-bucket.

A estrutura do chassi construído por Jorge tem suspensão dianteira com eixo rígido tubular, feixe de mola transversa­l e dois braços longitudin­ais, denominado­s hairpins. Na traseira, o hot também é equipado com eixo rígido, amortecedo­res embutidos em molas helicoidai­s, hairpins e barra Panhard com balancins.

De acordo com o construtor, todos os elementos foram reforçados para se adequarem ao piso das ruas e estradas brasileira­s. O eixo dianteiro, por exemplo, tem 52 mm de diâmetro contra 47 mm do kit original. O protótipo equipado com motor de seis cilindros e câmbio do Chevrolet Opala 250S, com 4.100 cm³, ficou pronto no fim de 2002, quando foi submetido a uma série de testes para afinar os componente­s.

Depois, o carro foi totalmente desmontado para a criação do molde da carroceria e gabarito do chassi, para entrar em produção seriada. Em parceria com Ricardo Teixeira, responsáve­l pela parte comercial e assessoria técnica, Jorge abriu a Jor Racing no fim de 2003, para lançar no mercado brasileiro o primeiro T-bucket “de série”.

O interesse gerado pelo lançamento animou os sócios a aumentar os investimen­tos. Atualmente, além de fabricar o kit do T-bucket, a Jor Racing também está desenvolve­ndo o kit em plástico ou fibra de vidro do

Ford 1931, nas versões roadster e cupê five-windows. Esta, igual ao carro do personagem John Milner no filme American Grafitti.

EM BUSCA DA VITÓRIA

Outro fabricante de réplicas de hots é a Americar, de Santo André (Grande SP). Tudo começou em 1995, quando Cleber Jean Araújo Lopes (o “Malvado”), junto com dois amigos, decidiu importar um kit do cupê Willys Paisman 1941. Este carro ficou famoso no filme “Em

Busca da Vitória” (Hot Rod), outro cult movie que abordava as corridas de dragsters da década de 1970.

Mas, assim como o T-bucket de Jorge, eles também tiveram problemas para importar o kit, uma réplica em plástico e fibra de vidro fabricada pela Creative Glass, nos EUA, que custou na época US$ 3 mil. Mas a maior dificuldad­e foi encontrar uma empresa importador­a que se dispusesse a trazer a encomenda. Com isso, os sócios gastaram mais US$ 11 mil para colocar o kit no Brasil.

Quando a encomenda chegou ao galpão da empresa em Santo André, eles tiveram uma péssima surpresa: faltava a tampa do porta malas. Os compradore­s reclamaram e o pessoal da Creative Glass encontrou a peça no estoque e despachara­m para o Brasil. O custo do transporte, porém, também ficou por conta de Cleber e seus sócios.

Na montagem do kit foram feitas algumas modificaçõ­es com relação ao original, como a diminuição das caixas de roda traseiras que, no modelo americano, prevê a utilização de enormes pneus Mickey Thompson. Além disso, o kit adquirido era o mais espartano de todos e não veio com o assoalho, que foi desenvolvi­do por Cleber e seus sócios com base num molde tirado de um Chevrolet 1933.

A estrutura metálica do kit replicado por Cleber e que até hoje é utilizada nas demais réplicas do Willys, que proliferar­am pelo Brasil, é composta por duas longarinas paralelas unidas por travessas. O sistema de freios, a disco na dianteira e tambor na traseira, além da suspensão, são os mesmos da linha Opala.

No primeiro veículo montado o motor era um Chevrolet 307 V8, também importado dos EUA. Mas o protótipo já tinha caixa de câmbio Clark de quatro marchas e diferencia­l de fabricação nacional. Depois de testar o protótipo, eles desmontara­m o carro e fizeram o molde da carroceria para fabricar as cópias. Mas a sociedade se desfez e Cleber montou a Americar sozinho.

Oferecendo vantagens como um ano de garantia, documentaç­ão legalizada, peças de reposição e assistênci­a técnica, o negócio prosperou e hoje conta com duas instalaçõe­s fabris, uma para laminação e outra para montagem. A empresa também passou a montar réplicas do Shelby Cobra 1965 e, mais recentemen­te, do Jaguar XK-120, 1950, e do Ford Thunderbir­d 1956.

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Fotos: reprodução
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 ??  ?? O T-bucket fabricado pela Jor Racing, empresa criada por Jorge Paes Fernandes, grande admirador de Ed Roth
O T-bucket fabricado pela Jor Racing, empresa criada por Jorge Paes Fernandes, grande admirador de Ed Roth
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O Willys Americar, feito pela empresa de Santo André, é inspirado em um kit americano No detalhe, o construtor Cleber.
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A Americar também produz réplicas do Ford Thunderbir­d e Jaguar XK-120.

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