Sem pre­con­cei­tos

O po­de­ro­so di­re­tor da TV Glo­bo Den­nis Car­va­lho fa­la aber­ta­men­te so­bre ho­mos­se­xu­a­li­da­de, fi­lhos e me­do da mor­te

Contigo Novelas - - VINTAGE -

AACRIATIVI­DADE QUE DEN­NIS CAR­VA­LHO im­pri­me à di­re­ção de An­dan­do nas Nu­vens e do Sai de Bai­xo vem da in­fân­cia vi­vi­da no bair­ro da Acli­ma­ção em São Pau­lo, com os pais e a ir­mã ca­çu­la, De­ni­se. Nos di­as chu­vo­sos, o ga­ro­to de 5 anos não ti­nha on­de jo­gar bo­la. A so­lu­ção: brin­car de TV em ca­sa, com um co­ber­tor na pa­re­de, pa­ra ser­vir de fun­do, e uma lata de fer­men­to Royal vi­ra­va uma câ­me­ra. Is­so é que é vo­ca­ção. Às vés­pe­ras de com­ple­tar 52 anos no pró­xi­mo dia 27, Den­nis ain­da pa­re­ce aque­le me­ni­no tra­ves­so. En­trou num es­tú­dio de te­le­vi­são pe­la pri­mei­ra vez aos 13 anos pa­ra fa­zer uma du­bla­gem. De­pois, es­tre­ou na no­ve­la Os Re­bel­des (1967) na ex­tin­ta TV Tu­pi. Cha­mou a aten­ção e, em 1975, foi con­vi­da­do pe­la Glo­bo pa­ra tra­ba­lhar no Rio. De lá pa­ra cá, se tor­nou um cu­rin­ga da TV, atu­an­do, di­ri­gin­do e re­ve­lan­do no­mes co­mo De­ni­se Sa­ra­ce­ni, Ri­car­do Wad­ding­ton, Mau­ro Men­don­ça Fi­lho e Ale­xan­dre Avan­ci­ni na di­re­ção, além de ato­res co­mo Ma­lu Ma­der e Mar­ce­lo Ser­ra­do.

Den­nis não se sen­te co­mo um ho­mem que já fez de tu­do e se can­sou. Pe­lo con­trá­rio. Du­ran­te es­ta en­tre­vis­ta con­ce­di­da a CON­TI­GO!, em seu es­cri­tó­rio no Pro­jac, ele fa­lou de seus se­te ca­sa­men­tos e dos qua­se in­con­tá­veis ro­man­ces com as mu­lhe­res mais bo­ni­tas que apa­re­ce­ram na te­le­vi­são. Tam­bém não se ne­gou a con­tar seu en­vol­vi­men­to com as dro­gas, a mor­te de um fi­lho e de uma de su­as ex-mu­lhe­res. Ca­sa­do há on­ze anos com a atriz De­bo­rah Evelyn, 35 anos, e pai de Lui­za, 6, Tai­ná, 18, e Le­o­nar­do, 20, Den­nis é um ho­mem fe­liz. Li­vre de pre­con­cei­tos, fa­lou de tu­do sem cul­pa e sem re­mor­sos. De­pois co­men­tou ao re­ver ce­nas de Ma­lu Mu­lher no pro­gra­ma Ví­deo Show. “Olha eu lá no Ma­lu Mu­lher! Que sau­da­de que dá! Ado­ro re­ver es­ses pro­gra­mas... Sem­pre tra­ba­lho com mui­to amor. O dia em que não for as­sim eu pa­ro! Es­se tra­ba­lho só dá pa­ra fa­zer com mui­to te­são! A ma­gia es­tá nis­so”, ga­ran­te ele emo­ci­o­na­do.

Quem é pi­or de di­ri­gir na te­le­vi­são?

Não pos­so dar no­mes, mas quem é pi­or de di­ri­gir é o ator que che­ga atra­sa­do e não sa­be o tex­to. Is­so é mais fre­quen­te do que se pen­sa e é o que mais me ir­ri­ta no dia a dia da te­le­vi­são. Os ato­res re­la­xam na me­ta­de da no­ve­la e dei­xam pa­ra de­co­rar o tex­to na ho­ra em que eu vou fa­zer a mar­ca­ção de ce­na. Eu fi­co mui­to bra­vo! [sé­rio] Tem al­guns que mal

es­tre­a­ram e já es­tão aco­mo­da­dos, sem a em­pol­ga­ção ini­ci­al. Fa­zem um tra­ba­lho na vi­da e acham que já sa­bem tu­do. Não é por aí.

Vo­cê pre­fe­re ser ator ou di­re­tor?

Gos­to de ser os dois. Mas ul­ti­ma­men­te an­do sen­tin­do mui­tas sau­da­de do la­do ator. É cla­ro que ve­nho me re­a­li­zan­do mais co­mo di­re­tor, mas que­ro atu­ar em te­a­tro no ano que vem. Vou fa­zer de tu­do pa­ra con­ci­li­ar com a Glo­bo. Vai ser uma pe­ça te­a­tral com a Re­na­ta Sor­rah e o Mar­cos Pal­mei­ra. Por is­so, às ve­zes, eu me es­ca­lo pa­ra umas par­ti­ci­pa­ções quan­do acho o pa­pel le­gal [ri­sos].

Vo­cê as­se­dia as atri­zes?

Olha, há 20 anos ha­via mes­mo es­sa coi­sa de o di­re­tor usar a pro­fis­são pa­ra ga­nhar mu­lher. Is­so mu­dou mui­to e nem pas­sa pe­la ca­be­ça des­sa no­va ge­ra­ção fa­zer es­se ti­po de coi­sa. Eu ja­mais in­ter­fe­ri­ria no meu tra­ba­lho por cau­sa dis­so.

Mas vo­cê tem um cur­rí­cu­lo in­ve­já­vel de ca­sa­men­tos e na­mo­ros com be­las atri­zes...

[Ri­sos] É cla­ro que pin­tar um ro­man­ce no tra­ba­lho é na­tu­ral em qual­quer pro­fis­são. Mas usar o car­go pa­ra is­so é ou­tra his­tó­ria.

Dá pa­ra ser fi­el o tem­po to­do?

Ló­gi­co! Na­mo­rei mui­to, mui­to, mui­to, mas não con­si­go ser bí­ga­mo. Se eu es­ti­ver com uma pes­soa e me apai­xo­nar por ou­tra, e is­so po­de acon­te­cer, eu me se­pa­ro e re­co­me­ço com es­sa ou­tra mu­lher. Não dá pa­ra fi­car com uma, gos­tan­do de ou­tra. Es­sa pos­tu­ra é tí­pi­ca da ge­ra­ção dos nos­sos avós!

Por fa­lar em ge­ra­ções di­fe­ren­tes, a sua vi­veu in­ten­sa­men­te os anos 70, não é?

É ver­da­de. A mi­nha ge­ra­ção fi­cou es­pre­mi­da en­tre o fi­nal da di­ta­du­ra e a aber­tu­ra. Éra­mos mui­to re­pri­mi­dos, aí pin­tou Hair [a pe­ça te­a­tral] e ex­plo­diu a ca­be­ça da gen­te. Ti­ve mui­tos ami­gos que mor­re­ram ou pi­ra­ram. Gen­te co­mo eu e o Fa­gun­des [An­to­nio, ator], que co­me­çou no Hair, vi­veu to­da a li­ber­da­de e lou­cu­ras dos anos 70. Usei mui­ta dro­ga du­ran­te 20 anos. Gra­ças a Deus, con­se­gui pa­rar de chei­rar co­caí­na em 1989. Fre­quen­to o N. A. [Nar­có­ti­cos Anô­ni­mos] até ho­je. Con­se­gui me li­vrar e is­so abriu um cam­po mui­to le­gal com meus fi­lhos. Eles não só sa­bem co­mo já fo­ram às reu­niões co­mi­go. Já le­vei mui­ta gen­te da­qui da Glo­bo pa­ra lá. A úni­ca so­lu­ção pa­ra sair do ví­cio é N. A. e in­ter­na­ção. Se não agis­se as­sim, es­ta­ria nes­sa até ho­je. Tal­vez nem es­ti­ves­se aqui dan­do es­ta en­tre­vis­ta.

Vo­cê se pre­o­cu­pa com seus fi­lhos em re­la­ção ao con­su­mo de dro­gas?

Não. Es­sa ge­ra­ção é mais lim­pa e sau­dá­vel do que a mi­nha. O Léo tem 20 anos e é to­tal­men­te con­tra dro­gas. Ele não tem a me­nor cu­ri­o­si­da­de. A mi­nha fi­lha Tai­ná tem 18 e já me con­tou que usou um pou­qui­nho de ma­co­nha, mas não gos­tou.

Vo­cê já in­ter­pre­tou um ho­mos­se­xu­al na no­ve­la Bri­lhan­te e ou­tro na pe­ça Ra­pa­zes da Ban­da. Ain­da ho­je al­guns ato­res re­cu­sam es­se ti­po de pa­pel. O que vo­cê acha dis­so?

Acho es­sa ati­tu­de um ab­sur­do! Uma bo­ba­gem! Fa­zer um gay é a mes­ma coi­sa que in­ter­pre­tar um pa­dre, um ban­di­do. As di­tas minorias da so­ci­e­da­de têm que ser re­tra­ta­das na dra­ma­tur­gia. Não te­nho na­da con­tra os ho­mos­se­xu­ais. Mui­to pe­lo con­trá­rio, res­pei­to a op­ção de ca­da um. Não te­nho pre­con­cei­to em re­la­ção a na­da nes­ta vi­da...

Vo­cê já te­ve al­gu­ma ex­pe­ri­ên­cia ho­mos­se­xu­al?

Não ti­ve, mas não lu­tei pa­ra não ter. Se ro­las­se, tu­do bem. Só que não ro­lou...

Em 1994, atri­buí­ram a vo­cê um re­la­ci­o­na­men­to com o can­tor Mil­ton Nas­ci­men­to...

Ah! Aqui­lo? Di­zi­am que eu hu­mi­lha­va o Mil­ton!

Ima­gi­na?! O Mil­ton é meu ami­go há mais de 20 anos e pa­dri­nho da Tai­ná! Não ti­ve ab­so­lu­ta­men­te na­da com ele. Se eu ti­ves­se, di­ria nu­ma boa. Não te­nho mais tem­po nem ida­de pa­ra es­con­der na­da de nin­guém. Não me pre­ju­di­ca­ria em na­da. Sou mui­to sin­ce­ro!

Acha que seus fi­lhos se­gui­rão os seus pas­sos pro­fis­si­o­nais?

O Léo es­tá fa­zen­do cur­so de ator e di­re­tor. Ain­da não sa­be pa­ra qual la­do ir! [ri­sos] A Tai­ná quer ser psi­có­lo­ga e a Lui­za ain­da é mui­to pe­que­na.

Co­mo é ser ca­sa­do há on­ze anos com a atriz De­bo­rah Evelyn?

Ma­ra­vi­lho­so! Ela é uma mu­lher mui­to im­por­tan­te pa­ra mim. No co­me­ço da nos­sa re­la­ção eu pas­sei por um dos mo­men­tos mais di­fí­ceis da mi­nha vi­da. A per­da do meu fi­lho e a mor­te da mi­nha ex­mu­lher [a atriz] Mo­ni­que Al­ves. A De­bo­rah foi e é uma com­pa­nhei­ra ma­ra­vi­lho­sa. Agra­de­ço sem­pre a Deus por is­so.

Quais as se­que­las que a mor­te do seu fi­lho dei­xou em vo­cê?

O me­do da mor­te fi­cou mai­or. Um dia des­ses, a Lui­za vi­a­jou e eu só pen­sa­va num acidente na es­tra

da. Pas­sam mil coi­sas pe­la mi­nha ca­be­ça. A dor da per­da de um fi­lho é re­al­men­te in­des­cri­tí­vel. Ain­da mais que ele não es­ta­va do­en­te, foi um acidente. O Gui­lher­me ti­nha 12 anos na­que­la épo­ca. Ho­je, olho pa­ra o Léo, que era seu ir­mão gê­meo, e ve­jo co­mo o Gui­lher­me es­ta­ria.

Vo­cê su­pe­rou o trau­ma?

Su­pe­rei atra­vés de vá­ri­os anos de te­ra­pia e con­ver­san­do mui­to com meus ami­gos. Mas é al­go que, de­pois de oi­to anos, nun­ca vou es­que­cer.

Ho­je vo­cê é um ho­mem que se con­si­de­ra fe­liz?

Sou. Nun­ca eco­no­mi­zei e sem­pre aca­bei o mês no ver­me­lho. Não fi­co pre­o­cu­pa­do em pou­par. Pre­fi­ro gas­tar com pre­sen­tes e vi­a­gens do que guar­dar pa­ra com­prar ca­sa e car­ro. Se sou fe­liz? Acho que sou mui­to oti­mis­ta. Sem­pre acho que as coi­sas es­tão me­lho­ran­do.

Com De­bo­rah Evelyn (sua mu­lher na épo­ca), na fes­ta de lan­ça­men­to da no­ve­la Pa­raí­so Tro­pi­cal (2007 - Glo­bo), re­a­li­za­da no Ho­tel Co­pa­ca­ba­na Pa­la­ce

João Pau­lo Adour e Vera Fis­cher em Bri­lhan­te

Em ce­na com Fer­nan­da Mon­te­ne­gro na no­ve­la Bri­lhan­te (1981 - Glo­bo)

Ca­san­do com San­dra Bar­sot­ti na no­ve­la O Ca­sa­rão (1976 - Glo­bo)

Com os fi­lhos Le­o­nar­do, Tai­ná e Lui­za

No 9º Prê­mio CON­TI­GO!, re­a­li­za­do no Ho­tel Co­pa­ca­ba­na Pa­la­ce (RJ)

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