SO­JA

Dinheiro Rural - - CONTENT -

O que es­pe­rar da pró­xi­ma sa­fra em um ce­ná­rio de in­cer­te­zas lo­gís­ti­cas e de­man­da glo­bal cres­cen­te pe­lo grão

Ose­gun­do se­mes­tre de 2018 será de­sa­fi­a­dor pa­ra to­dos os seg­men­tos do agro­ne­gó­cio en­vol­vi­dos com a pro­du­ção ime­di­a­ta. Is­so por­que a pre­vi­são é de um consumo re­cor­de de fer­ti­li­zan­tes na sa­fra 2018/2019, que começa a ser plan­ta­da em se­tem­bro. A de­man­da de­ve­rá crescer aci­ma de um mi­lhão de to­ne­la­das em re­la­ção ao ano pas­sa­do, que já foi o mai­or em gas­to de fer­ti­li­zan­tes da his­tó­ria do País, com 34,5 mi­lhões de to­ne­la­das. É um vo­lu­me exor­bi­tan­te de car­ga a ser trans­por­ta­da, ain­da em meio aos re­fle­xos da pa­ra­li­sa­ção lo­gís­ti­ca e de um ta­be­la­men­to de fre­te que cri­ou uma con­fu­são gi­gan­tes­ca do pon­to de vis­ta de sua pre­ci­fi­ca­ção. “Fre­tes de re­tor­no ao Ma­to Gros­so, que se po­si­ci­o­na­va em US$ 110 por to­ne­la­da, es­tão aci­ma de US$ 200”, dis­se o eco­no­mis­ta agrí­co­la Ale­xan­dre Mendonça de Barros, da MB Con­sul­to­ria, a uma pla­teia de 2,3 mil agrô­no­mos, pes­qui­sa­do­res, con­sul­to- res, pro­du­to­res e es­tu­dan­tes, du­ran­te o Con­gres­so Bra­si­lei­ro da So­ja, en­tre os di­as 11 e 14 de ju­nho, em Goi­â­nia (GO). “As mar­gens do se­tor não per­mi­tem pa­gar es­se pre­ço. Ima­gi­na quem já ven­deu a lo­gís­ti­ca e tem de en­tre­gar o pro­du­to? E se um pro­du­tor qui­ser tra­var o fre­te fu­tu­ro, co­mo faz? Nin­guém sa­be co­mo vai fa­zer is­so.” De acor­do com a Or­ga­ni­za­ção das Co­o­pe­ra­ti­vas do Pa­ra­ná (Oce­par), no fim de ju­nho, 75% do fer­ti­li­zan­te im­por­ta­do pa­ra a sa­fra 2018/2019 es­ta­vam pa­ra­dos no porto de Pa­ra­na­guá, com 18 na­vi­os à es­pe­ra de de­sem­bar­que do pro­du­to. O im­bró­glio lo­gís­ti­co no País ( leia mais na pág. 24) ocor­re em um mo­men­to no qual a de­man­da glo­bal por so­ja é cres­cen­te. A pre­vi­são é cul­ti­var de 355,2 mi­lhões de to­ne­la­das nes­te ci­clo, 18,5 mi­lhões de to­ne­la­das aci­ma de 2017/2018, se­gun­do da­dos do De­par­ta­men­to de Agri­cul­tu­ra dos Es­ta­dos Uni­dos (Us­da). En­quan­to is­so, a de­man­da es­ti­ma­da é de 357,7 mi­lhões de to­ne­la­das, 4,5% aci­ma do ci­clo an­te­ri­or. Não por aca­so, em­bo­ra o Us­da apon­te uma pro­du­ção no Bra­sil de 118 mi­lhões de to­ne­la­das na sa­fra 2018/2019, vo­lu­me de 2,5 mi­lhões de to­ne­la­das aci­ma da sa­fra ame­ri­ca­na, ana­lis­tas de mer­ca­do di­zem que o au­men­to pre­vis­to de um mi­lhão de hec­ta­res cul­ti­va­dos nes­ta sa­fra ele­va o po­ten­ci­al de pro­du­ção do Bra­sil pa­ra até 120 mi­lhões de to­ne­la­das do grão. Pa­ra Mendonça de Barros, o consumo, o cres­ci­men­to mun­di­al dos úl­ti­mos dois anos, a pro­je­ção de cres­ci-

COM PRO­DU­ÇÃO RE­COR­DE E DE­MAN­DA GLO­BAL CRES­CEN­TE PE­LO GRÃO, PRO­DU­TO­RES SO­FREM COM OS PRO­BLE­MAS LO­GÍS­TI­COS DO PAÍS VE­RA ON­DEI, DE GOI­Â­NIA (GO)

men­to mun­di­al pa­ra es­te ano e as ex­pec­ta­ti­vas de cres­ci­men­to pa­ra o pró­xi­mo ano trou­xe­ram um padrão de de­man­da mui­to for­te, es­pe­ci­al­men­te de pro­teí­na ani­mal, que usa a so­ja e o mi­lho co­mo ra­ção. “Os ame­ri­ca­nos es­tão fa­zen­do o mai­or alo­ja­men­to de fran­gos de sua his­tó­ria. A pro­du­ção de car­ne ver­me­lha es­tá cres­cen­do 5% nes­te ano, num país que é o mai­or pro­du­tor do mun­do”, diz Mendonça de Barros. “Se olhar­mos pa­ra a Chi­na, Eu­ro­pa, Les­te Eu­ro­peu, há um mo­vi­men­to mui­to for­te de de­man­da e de pro­du­ção de pro­teí­na ani­mal. E a so­ja é fun­da­men­tal nes­sa in­dús­tria.” Por con­ta des­sa de­man­da, a pre­vi­são da As­so­ci­a­ção Bra­si­lei­ra das In­dús­tri­as de Óle­os Ve­ge­tais (Abi­o­ve) é ex­por­tar US$ 36,9 bi­lhões, um cres­ci­men­to de 16,4% com a ven­da de grãos, óleo e fa­re­lo de so­ja. No ano pas­sa­do, o grão rendeu ao País US$ 31,7 bi­lhões. FU­TU­RO Mas a or­ga­ni­za­ção da ca­deia não pre­ci­sa ser equa­ci­o­na­da so­men­te vi­san­do ao cur­to prazo. Pa­ra Pau­lo Her­r­mann, pre­si­den­te da ame­ri­ca­na de má­qui­nas agrí­co­las John De­e­re no Bra­sil, o País pre­ci­sa ga­ran­tir seu es­pa- ço em uma eco­no­mia glo­bal pa­ra os próximos 30 anos. Nes­se tem­po de­ve­rá ocor­rer um re­po­si­ci­o­na­men­to dos prin­ci­pais Pro­du­tos In­ter­nos Bru­tos (PIBs) mun­di­ais. Ele ci­ta es­pe­ci­al­men­te a Chi­na e a Ín­dia, du­as das mai­o­res eco­no­mi­as que de­pen­de­rão do Bra­sil pa­ra ali­men­tar as su­as po­pu­la­ções de cer­ca de qua­tro bi­lhões de ha­bi­tan­tes. A Chi­na de­ve­rá sair do atu­al PIB de US$ 12 tri­lhões pa­ra US$ 50 tri­lhões em 2050. A Ín­dia ele­va­rá o seu PIB de US$ 2,6 tri­lhões pa­ra US$ 28 tri­lhões. “A Chi­na será a nú­me­ro um na in­dús­tria e a Ín­dia vai li­de­rar a área de ser­vi­ços”, afir­ma Her­r­mann. “O Bra­sil, que será a sex­ta mai­or eco­no­mia do mun­do e que vai abas­te­cer o mun­do de ali­men­tos, não po­de se es­que­cer da ta­re­fa que tem hoje pa­ra tri­lhar bem os próximos 30 anos, que es­tão lo­go aí.” Em bus­ca de uma pro­du­ção sus­ten­tá­vel, um dos atri­bu­tos mais per­se­gui­dos nos di­as atu­ais é au­men­tar a pro- du­ti­vi­da­de da so­ja, ou se­ja, fa­zer a ter­ra pro­du­zir mais quilos de grãos por hec­ta­re. Na sa­fra en­cer­ra­da em ju­nho, a pro­du­ti­vi­da­de foi de 3,3 mil quilos por hec­ta­re, equi­va­len­te a 55 sa­cas por hec­ta­re. A re­gião Su­des­te re­gis­tra a mai­or mé­dia, de 3,6 mil quilos, e o Cen­tro-Oes­te, que na sa­fra en­cer­ra­da pro­du­ziu 53,5 mi­lhões de to­ne­la­das, a mai­or do País, re­gis­trou uma pro­du­ti­vi­da­de mé­dia de 3,4 mil quilos. O pes­qui­sa­dor José Re­na­to Bou­ças Fa­ri­as, che­fe-ge­ral da Em­bra­pa So­ja, em Lon­dri­na (PR), diz que es­ses números po­dem me­lho­rar mui­to nos próximos anos. “A pes­qui­sa, jun­to com as no­vas tec­no­lo­gi­as e o seu ma­ne­jo cor­re­to, vai de­ter­mi­nar es­se cres­ci­men­to”, dis­se Fa­ri­as, du­ran­te o Con­gres­so da So­ja. “Nós não te­mos dú­vi­da de que is­so vai acon­te­cer.” A pes­qui­sa tem es­sa cer­te­za por um fa­to re­le­van­te. Em la­bo­ra­tó­rio, a pro­du­ção de so­ja po­de atingir até 300 sa­cas por hec­ta­re. Mas cla­ro que is­so não ocor­re a céu aber­to. Pa­ra os pes­qui­sa­do­res, o gran­de exer­cí­cio é sair das 55 sa­cas atu­ais de mé­dia na­ci­o­nal pa­ra cer­ca de 70, tendo co­mo me­ta che­gar em 100 sa­cas por hec­ta­re. Is­so por­que é pos­sí­vel tri­lhar o caminho e as de­mons­tra­ções mo­ni­to­ra­das de cam­po têm mos­tra­do o caminho. No dia 12 de ju­nho, o Co­mi­tê Es­tra­té­gi­co So­ja Bra­sil (Cesb), uma ins­ti­tui­ção for­ma­da por pes­qui­sa­do­res e em­pre­sas do se­tor, apre­sen­tou os da­dos do De­sa­fio Na­ci­o­nal de Má­xi­ma Pro­du­ti­vi­da­de 2017/2018. O evento com­ple­tou uma dé­ca­da, no qual to­dos os anos um gru­po de pro­du­to­res es­co­lhe, jun­ta­men­te com um auditor da en­ti­da­de, uma área de 2,6 hec­ta­res da pro­pri­e­da­de pa­ra ser analisada. No pri­mei­ro de­sa­fio par­ti­ci­pa­ram 140 pro­du­to­res.

O mais im­por­tan­te é fa­zer um ma­ne­jo cor­re­to. Ele le­va a um bom per­fil do so­lo” Ga­bri­el Bo­na­to, pro­du­tor em Sa­ran­di (RS)

A mé­dia mo­ni­to­ra­da foi de 77,8 sa­cas por hec­ta­re, en­quan­to que a

mé­dia na­ci­o­nal era de 43,8 sa­cas. Na sa­fra 2017/2018, par­ti­ci­pa­ram 5,5 mil pro­du­to­res. A mé­dia foi de 110,3 sa­cas de so­ja por hec­ta­re. En­tre os ex­pe­ri­men­tos a céu aber­to, o ven­ce­dor do ano foi o pro­du­tor gaú­cho Ga­bri­el Bo­na­to, 30 anos, do mu­ni­cí­pio de Sa­ran­di, re­gião tra­di­ci­o­nal de cul­ti­vo de grãos no nor­te do Es­ta­do. A fa­mí­lia de Bo­na­to é agri­cul­to­ra em uma área de 110 hec­ta­res há qua­tro dé­ca­das. A mé­dia da sa­fra 2017/2018 foi de 86 sa­cas de so­ja por hec­ta­re. Pa­ra o de­sa­fio, ele se­pa­rou 53 hec­ta­res, que fi­ze­ram mé­dia de 91 sa­cas, e em 2,5 hec­ta­res, on­de ele uti­li­zou to­dos os re­cur­sos pos­sí­veis, co­mo adu­ba­ção, por exem­plo, a pro­du­ti­vi­da­de su­biu pa­ra 127,1 sa­cas. “O mais im­por­tan­te é fa­zer um ma­ne­jo cor­re­to”, diz Bo­na­to. “Ele le­va a um bom per­fil do so­lo, e aí é fa­zer uma boa adu­ba­ção e in­ves­tir pre­ven­ti­va­men­te na pro­te­ção da plan­ta”. Em re­la­ção ao cus­to, ele foi de 54 sa­cas na área se­pa­ra­da pa­ra o de­sa­fio do Cesb. Nas de­mais, o cus­to foi de 30 sa­cas. Mas não é so­men­te em pro­pri­e­da­des pe­que­nas que a pro­du­ti­vi­da­de po­de ir além de 100 sa­cas. Na fa­zen­da Se­te Po­vos, em São De­si­dé­rio (BA), que per­ten­ce ao pro­du­tor Mar­ce­li­no Flo­res de Oli­vei­ra, ela foi de 104,4 sa­cas por hec­ta­re. A fa­mí­lia es­tá na re­gião des­de 1975. São 9,2 mil hec­ta­res, dos quais 7,2 mil hec­ta­res têm pro­du­ti­vi­da­de de 86 sa­cas. Luiz Nery Ri­bas, pre­si­den­te do Cesb, diz que o de­sa­fio é uma pro­vo­ca­ção. “Ele acen­deu a dis­cus­são de que é pos­sí­vel pro­du­zir mais nas áre­as co­mer­ci­ais”, afir­ma ele. “É pos­sí­vel trans­for­mar a tec­no­lo­gia em co­nhe­ci­men­to.” Pa­ra Mendonça de Barros, da MB, é a pro­du­ti­vi­da­de que vai fa­zer a di­fe­ren­ça da­qui pa­ra fren­te, pa­ra aten­der o mer­ca­do. “Há uma dé­ca­da, as au­to­ri­da­des chi­ne­sas di­zi­am que seu país não se­ria im­por­ta­dor de com­mo­di­ti­es, que iri­am pro­du­zir”, afir­ma Mendonça de Barros. “Sim, eles pro­du­zem, mas se tor­na­ram o mai­or im­por­ta­dor glo­bal de ali­men­tos, com mais de US$ 80 bi­lhões de dé­fi­cit comercial agrí­co­la. Eles pre­ci­sam de ca­dei­as de su­pri­men­tos em to­do o mun­do. É a ho­ra do Bra­sil.”

TER­RA BOA: o cul­ti­vo de so­ja no País tem po­ten­ci­al pa­ra che­gar a 120 mi­lhões de sa­cas no ci­clo 2018/2019

EM ALTO GRAU: Luiz Nery Ri­bas, do Cesb, diz que a ideia do De­sa­fio de Pro­du­ti­vi­da­de da So­ja é pro­vo­car a dis­cus­são de que as áre­as co­mer­ci­ais po­dem ser mais efi­ci­en­tes

NA PON­TA: pa­ra José Re­na­to Bou­ças Fa­ri­as, che­fe da Em­bra­pa So­ja, as pes­qui­sas vão dar as res­pos­tas ru­mo a uma mai­or pro­du­ti­vi­da­de do grão

VI­SãO: Ale­xan­dre Mendonça de Barros, da MB Con­sul­to­ria, diz que a de­man­da glo­bal por pro­teí­na ani­mal vai crescer no pró­xi­mo ano

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