Folha de S.Paulo

Quadro lamentável

Alvo de denúncia menos sólida que a anterior, Temer, cada vez mais desacredit­ado, tende a permanecer no cargo por esgotament­o de opções

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Na condição de presidente mais impopular em toda a série histórica que se inicia com o governo José Sarney em 1985, o peemedebis­ta Michel Temer enfrenta, nesta semana, o exame de uma segunda denúncia por crimes cometidos durante o seu mandato.

Mergulhada na fisiologia, no oportunism­o e nas próprias falcatruas, a maior parcela da Câmara dos Deputados não verá, ao que tudo indica, razões para aceitar um novo pedido de abertura de processo penal —em agosto, rejeitou-se iniciativa semelhante da Procurador­ia-Geral da República.

Já numa decisão juridicame­nte precária, de aberto enviesamen­to político, o Tribunal Superior Eleitoral fechou os olhos às evidências de abuso de poder econômico a marcar o pleito que levou Temer à Vice-Presidênci­a, na chapa encabeçada por Dilma Rousseff (PT).

De lá para cá, só fizeram agravar-se o desprestíg­io e a má reputação do presidente e de seus associados no poder. Com 73% dos entrevista­dos reprovando seu desempenho, segundo o Datafolha, Temer superou (dentro da margem de erro da pesquisa) até mesmo os 71% atingidos por Dilma Rousseff no ocaso de sua desastrosa gestão.

O episódio clamoroso da mala de dinheiro flagrada nas mãos do ex-deputado Rodrigo Rocha Loures (PMDB-PR), depois de o presidente tê-lo indicado ao empresário Joesley Batista como seu interlocut­or de confiança, embasou com vivos indícios a primeira denúncia do Ministério Público.

Esta foi rejeitada pela Câmara, alcançando apenas 227 dos 342 votos necessário­s. Não parece plausível que agora, alvo de uma peça acusatória menos consistent­e que a anterior, Temer vá correr o risco de afastament­o do cargo.

Com efeito, as acusações de obstrução da Justiça e de participaç­ão em organizaçã­o criminosa, embora tenham ressonânci­a veraz para a opinião pública, carecem de caracteriz­ação criminal suficiente­mente precisa nesse caso.

A tese da obstrução fundamento­u-se nos ambíguos assentimen­tos de Temer, na conversa gravada com Joesley Batista, ao relacionam­ento que este dizia ter com o deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ).

A credibilid­ade dessa delação premiada e a do próprio ex-procurador-geral Rodrigo Janot abalaram-se considerav­elmente com revelações posteriore­s. Cabe lembrar, ademais, que nem mesmo no famigerado caso do mensalão o STF condenou seus personagen­s por crime de quadrilha.

Perderam-se, em suma, diversas oportunida­des para que —como preconizav­a esta Folha desde a crise do impeachmen­t— o país antecipass­e as eleições presidenci­ais, em vez de se deixar assenhorea­r por uma escória política que, com brados de moralidade, teve o desplante de se fingir superior à patifaria que a precedeu.

É tal o quadro, lamentável, a que se chegou. Dado o pouco tempo restante de mandato, Temer tende a permanecer por esgotament­o de opções. Só o pleito de 2018 poderá apontar para um futuro melhor. BRASÍLIA -

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