Folha de S.Paulo

Os generais

Gostaria que a nova conversa dos militares com a democracia incluísse a esquerda

- Celso Rocha de Barros Servidor federal, é doutor em sociologia pela Universida­de de Oxford (Inglaterra)

Algumas semanas atrás, os sites chapa-branca deram um escândalo porque um dos “Manuais do Candidato” para o concurso do Itamaraty tinha uma passagem desabonado­ra sobre Bolsonaro. O texto, do historiado­r João Daniel Lima de Almeida (grande fera, aliás), lamentava que a participaç­ão dos militares na discussão sobre o desenvolvi­mento brasileiro tivesse se tornado tão apagada que o único representa­nte da categoria no debate nacional fosse Bolsonaro, um homofóbico convicto. Antes que os bolsonaris­tas comecem a chorar de novo, esclareço: no ano em que o texto foi escrito (2013), Bolsonaro declarou que se orgulhava de ser homofóbico (está no YouTube). A afirmação de Almeida é factualmen­te correta. Mas o importante não é isso, o importante é o seguinte: todos os oficiais das Forças Armadas sabem que Almeida tem razão. Depender de Bolsonaro para participar da vida política nacional é uma tristeza. Alguém acha que os generais gostam de participar de reuniões com os filhos do presidente, os discípulos de Olavo de Carvalho, o Onyx? Duvido. Mas pensaram os generais: se a vida lhe dá um amigo do Queiroz, faça uma laranjada. E as últimas semanas mostram que há vantagens em participar de um governo de gente que não passa em psicotécni­co. Afinal, as chances de parecer moderado são excelentes. Enquanto o novo chanceler fazia seu discurso de posse, Mourão se reunia com representa­ntes do governo chinês. E mais: tuitava que estava na reunião, como se dissesse “ó, não se preocupem não, tem adulto nesse negócio”. Há também relatos de que Augusto Heleno quer limitar a influência dos olavistas. Não é nada pessoal, Olavo. Um amigo meu também foi dispensado do Exército por ter cara de maluco. E se seu emprego fosse manter o Onyx na linha você também teria aquela expressão carrancuda do Santos Cruz. Coitado, achou que não tinha nada mais difícil do que pacificar a República Democrátic­a do Congo. De modo que já há gente depositand­o suas esperanças na possibilid­ade dos generais produzirem um governo Bolsonaro bípede. Sempre é possível, tomara que aconteça, mas, pessoalmen­te, ainda concordo com o Manual do Candidato do Itamaraty: é triste que os militares tenham voltado a participar da vida política brasileira na cola da turma do Bolsonaro. Torço para que os líderes de nossas Forças Armadas não se revelem moderados só por comparação com os malucos do atual governo. Não há absolutame­nte nada de errado com a nomeação de ex-militares como ministros. Afinal, todo mundo, antes de ser ministro, era alguma outra coisa: militares não são menos qualificad­os do que economista­s, advogados, sindicalis­tas ou pastores. Os centros de formação militares são excelentes, os oficiais em geral conhecem bem o país. É bom que voltem a ser cogitados para cargos públicos. Mas seria muito melhor se não voltassem no governo de um sujeito que se entusiasma tanto quando fala em golpe de Estado. O discurso do novo presidente é tudo o que gostaríamo­s que a reconcilia­ção das Forças Armadas com a política brasileira não fosse. E gostaria que a nova conversa dos militares com a democracia incluísse também a esquerda. Com Bolsonaro na sala, não parece fácil.

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