Tes­te ex­põe es­tag­na­ção da edu­ca­ção na­ci­o­nal

Pro­va mun­di­al mos­tra que de­sem­pe­nho de bra­si­lei­ros pa­rou de me­lho­rar em 2009; asiá­ti­cos do­mi­nam ran­king

Folha de S.Paulo - - Primeira Página - An­ge­la Pinho e Thiago Amâncio

Em uma edi­ção mar­ca­da pe­la as­cen­são da Chi­na, o Pisa, prin­ci­pal ava­li­a­ção de qua­li­da­de da edu­ca­ção bá­si­ca, mos­trou o de­sem­pe­nho do Bra­sil es­tag­na­do por qua­se uma dé­ca­da.

Ape­sar do re­sul­ta­do ruim, a pre­vi­são fei­ta pelo mi­nis­tro Abraham Wein­traub (Edu­ca­ção), de que o país fi­ca­ria em úl­ti­mo lu­gar da Amé­ri­ca do Sul, não se con­cre­ti­zou.

são pau­lo Em uma edi­ção mar­ca­da pe­la as­cen­são da Chi­na, o Pisa, prin­ci­pal ava­li­a­ção de qua­li­da­de da edu­ca­ção bá­si­ca do mun­do, mos­trou uma es­tag­na­ção no de­sem­pe­nho do Bra­sil por qua­se uma dé­ca­da.

Ape­sar do re­sul­ta­do ruim, a pre­vi­são do mi­nis­tro Abraham Wein­traub (Edu­ca­ção), de que o país fi­ca­ria em úl­ti­mo lu­gar en­tre os da Amé­ri­ca do Sul aca­bou por não se con­cre­ti­zar.

Ao fa­zer a afir­ma­ção há du­as se­ma­nas, ele não dei­xou cla­ro se es­ta­va adi­an­tan­do os re­sul­ta­dos. “Es­tou su­pon­do com ba­se em nú­me­ros ro­bus­tos”, dis­se.

Com ex­ce­ção do ran­king de ci­ên­ci­as, em que apa­re­ce em­pa­ta­do com Ar­gen­ti­na e Pe­ru, o Bra­sil es­tá li­gei­ra­men­te à fren­te da Ar­gen­ti­na em ma­te­má­ti­ca e de Ar­gen­ti­na, Colôm­bia e Pe­ru em lei­tu­ra.

Aplicado pe­la OCDE (Or­ga­ni­za­ção pa­ra Co­o­pe­ra­ção e De­sen­vol­vi­men­to Econô­mi­co) a ca­da três anos, o Pisa ava­li­ou em 2018 alu­nos de 15 anos de 79 paí­ses ou re­giões. A pro­va con­si­de­ra Ma­cau e Hong Kong, ter­ri­tó­ri­os da Chi­na com ad­mi­nis­tra­ção pró­pria e cer­to grau de au­to­no­mia, co­mo en­ti­da­des in­de­pen­den­tes.

A or­ga­ni­za­ção pon­tua no relatório de re­sul­ta­dos da ava­li­a­ção que o Bra­sil avan­çou em ma­te­má­ti­ca en­tre 2003 e 2018, mas a me­lho­ra fi­cou con­cen­tra­da nos pri­mei­ros anos des­se pe­río­do.

Na fa­se se­guin­te, a ten­dên­cia é de es­tag­na­ção. “Após 2009, em ma­te­má­ti­ca, lei­tu­ra e ci­ên­ci­as, a per­for­man­ce pa­re­ce va­ri­ar em ten­dên­cia es­tá­vel”, diz o texto.

O Bra­sil ocu­pa no ran­king da ava­li­a­ção a 42ª po­si­ção em lei­tu­ra, des­ta­que do relatório des­te ano, a 58ª em ma­te­má­ti­ca e 53ª em ci­ên­ci­as.

Além da mé­dia bai­xa e es­tag­na­da, cha­ma a atenção a quan­ti­da­de de alu­nos bra­si­lei­ros abai­xo do de­sem­pe­nho con­si­de­ra­do mínimo. Do to­tal de es­tu­dan­tes, 43% não al­can­ça­ram o nível con­si­de­ra­do mínimo em ne­nhu­ma das áre­as do co­nhe­ci­men­to.

A si­tu­a­ção mais gra­ve é a de ma­te­má­ti­ca. Ape­nas 32% dos bra­si­lei­ros atin­gi­ram o mínimo na dis­ci­pli­na no país, en­quan­to a mé­dia dos in­te­gran­tes da OCDE é de 76%.

Atin­gir es­se pa­ta­mar sig­ni­fi­ca que es­ses es­tu­dan­tes con­se­guem, por exem­plo, con­ver­ter pre­ços em di­fe­ren­tes moedas —al­go que sa­bem fa­zer 98% dos alu­nos das pro­vín­ci­as chi­ne­sas de Bei­jing, Xan­gai, Ji­ang­su e Zhe­ji­ang.

Em ci­ên­ci­as, 45% dos bra­si­lei­ros che­gam ao mínimo, an­te mé­dia da OCDE de 78%. Eles con­se­guem iden­ti­fi­car, em ca­sos sim­ples, quan­do uma con­clu­são é vá­li­da com ba­se nos da­dos dis­po­ní­veis.

Em lei­tu­ra, 50% no país che­gam ao mínimo, ou se­ja, con­se­guem iden­ti­fi­car a in­for­ma­ção prin­ci­pal de um texto de ta­ma­nho médio. A mé­dia da or­ga­ni­za­ção é de 77%.

O nível má­xi­mo é atin­gi­do por ape­nas 2% dos bra­si­lei­ros em lei­tu­ra e 1% em ma­te­má­ti­ca e ci­ên­ci­as. A mé­dia da OCDE é de 9%, 11% e 7%, res­pec­ti­va­men­te.

O relatório mos­tra ain­da que o Bra­sil tem um de­sem­pe­nho pi­or no exa­me do que paí­ses com o mes­mo pa­ta­mar de gas­tos em edu­ca­ção, a exem­plo da Tur­quia, da Ucrâ­nia e da Sér­via.

O país, po­rém, gas­ta me­nos de US$ 20 mil por es­tu­dan­te ao ano (cer­ca de R$ 84 mil), em va­lo­res con­ver­ti­dos pa­ra tor­nar pos­sí­vel com­pa­rar o po­der de com­pra.

O relatório re­gis­tra que, em na­ções que gas­tam até US$ 50 mil por alu­no, a no­ta es­tá mais re­la­ci­o­na­da ao gas­to do que pa­ra as de­mais.

Co­mo pon­to po­si­ti­vo pa­ra o Bra­sil, o relatório des­ta­ca a in­clu­são de alu­nos na es­co­la no pe­río­do en­tre 2000 e 2012.

O texto con­clui que ela po­de mas­ca­rar uma ten­dên­cia mais po­si­ti­va de me­lho­ra do de­sem­pe­nho —sa­be-se que os es­tu­dan­tes in­cluí­dos mais tar­di­a­men­te no sis­te­ma es­co­lar ten­dem a ter mais di­fi­cul­da­de de apren­di­za­gem no iní­cio.

O to­po do ran­king do Pisa é do­mi­na­do por paí­ses asiá­ti­cos. A na­ção eu­ro­peia que es­tá mais bem co­lo­ca­da é a Estô­nia, em 5º lu­gar em lei­tu­ra, 8º em ma­te­má­ti­ca e 4º em ci­ên­cia.

Qua­tro pro­vín­ci­as e mu­ni­ci­pa­li­da­des da Chi­na li­de­ram as três áre­as do co­nhe­ci­men­to, su­pe­ran­do Cin­ga­pu­ra no ran­king an­te­ri­or.

São elas Bei­jing, Xan­gai, Ji­ang­su e Zhe­ji­ang. Em­bo­ra lon­ge de re­pre­sen­tar to­da a Chi­na, on­de vi­ve 1,3 bi­lhão de pes­so­as, elas têm uma po­pu­la­ção na­da des­pre­zí­vel: 180 mi­lhões de ha­bi­tan­tes.

Es­pe­ci­al­men­te em ma­te­má­ti­ca e ci­ên­cia, o de­sem­pe­nho de­las é me­lhor do que os dos de­mais paí­ses por lar­ga mar­gem. Em lei­tu­ra, é si­mi­lar ao de Cin­ga­pu­ra.

O bom de­sem­pe­nho vai do to­po à ba­se da pi­râ­mi­de so­ci­al. Os es­tu­dan­tes des­sas re­giões chi­ne­sas en­tre os 10% com pi­or nível so­ci­o­e­conô­mi­co vão me­lhor em lei­tu­ra do que a mé­dia de to­dos os alu­nos da OCDE, e tão bem quan­to os de me­lhor nível so­ci­o­e­conô­mi­co dos paí­ses per­ten­cen­tes à or­ga­ni­za­ção.

“O que tor­na sua con­quis­ta ain­da mais no­tá­vel é que o nível de ren­da des­sas qua­tro re­giões chi­ne­sas es­tá con­si­de­ra­vel­men­te abai­xo da mé­dia da OCDE. A qua­li­da­de das su­as es­co­las ho­je ali­men­ta­rá a for­ça de su­as eco­no­mi­as ama­nhã”, afir­ma no pre­fá­cio da pu­bli­ca­ção o se­cre­tá­rio-ge­ral da or­ga­ni­za­ção, An­gel Gur­ría.

Ele clas­si­fi­ca ain­da co­mo de­cep­ci­o­nan­te o fa­to de a mai­o­ria dos paí­ses da OCDE não ter re­gis­tra­do me­lho­ra no de­sem­pe­nho des­de a pri­mei­ra apli­ca­ção do Pisa, em 2000, mes­mo com au­men­to de 15% no in­ves­ti­men­to por es­tu­dan­te.

Gur­ría re­gis­tra ain­da que ape­nas 7 dos 79 sis­te­mas edu­ca­ci­o­nais ana­li­sa­dos ti­ve­ram des­de en­tão me­lho­ra sig­ni­fi­ca­ti­va nas três áre­as ava­li­a­das, sen­do Por­tu­gal o único de­les que é integrante da or­ga­ni­za­ção.

Nos Estados Unidos, que dis­pu­tam com a Chi­na a li­de­ran­ça glo­bal, o de­sem­pe­nho dos es­tu­dan­tes co­lo­ca o país em 11º lu­gar em lei­tu­ra, 30º em ma­te­má­ti­ca e 16º em ci­ên­ci­as.

As no­tas dos alu­nos ame­ri­ca­nos se­guem um pa­drão de es­ta­bi­li­da­de des­de as pri­mei­ras edições do exa­me, com uma me­lho­ra mais sig­ni­fi­ca­ti­va en­tre os de mais bai­xa per­for­man­ce em ci­ên­ci­as.

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