Re­cei­ta de re­ces­são

Ar­re­ca­da­ção de im­pos­tos re­fle­te que­da do PIB que ten­de a ser bru­tal, agra­van­do qua­dro or­ça­men­tá­rio

Folha de S.Paulo - - Primeira Página - Editoriais@gru­po­fo­lha.com.br

Acer­ca de im­pac­to da cri­se nas con­tas do go­ver­no.

A que­da de qua­se 30% na ar­re­ca­da­ção de im­pos­tos em abril, an­te o mes­mo mês de 2019, é um pre­nún­cio do que ain­da es­tá por vir na eco­no­mia —e tam­bém um lem­bre­te im­por­tan­te de que a fra­gi­li­da­de das con­tas pú­bli­cas exi­ge cri­té­rio nos gas­tos emer­gen­ci­ais pa­ra mi­ti­gar os im­pac­tos da pan­de­mia.

Se­gun­do a Re­cei­ta Fe­de­ral, ar­re­ca­da­ram-se R$ 502 bi­lhões até abril, 7,9% abai­xo do pe­río­do cor­res­pon­den­te do ano pas­sa­do. Em re­la­ção à pro­gra­ma­ção da au­tar­quia, a di­fe­ren­ça so­ma R$ 43 bi­lhões até ago­ra, e a per­da até de­zem­bro po­de che­gar a R$ 134 bi­lhões.

Em­bo­ra a frus­tra­ção da co­le­ta, con­cen­tra­da no mês pas­sa­do, de­ri­ve em par­te de me­di­das do pró­prio go­ver­no, co­mo o di­fe­ri­men­to e a sus­pen­são de al­guns im­pos­tos, tu­do su­ge­re que o qua­dro de­mo­ra­rá a me­lho­rar.

Com a fal­ta de co­or­de­na­ção en­tre as vá­ri­as es­fe­ras de go­ver­no, o país ain­da re­gis­tra cres­ci­men­to ace­le­ra­do de ca­sos de Co­vid-19, o que po­de atra­sar a re­a­ber­tu­ra da eco­no­mia. Pou­co con­fiá­veis a es­ta al­tu­ra, pro­je­ções já apon­tam pa­ra re­tra­ção su­pe­ri­or a 5% do Pro­du­to In­ter­no Bru­to nes­te ano.

En­quan­to is­so, a com­bi­na­ção de re­cei­tas ca­den­tes e gas­tos em ex­pan­são alar­ga o bu­ra­co nas con­tas pú­bli­cas. O go­ver­no já re­vi­sou a pre­vi­são ofi­ci­al de dé­fi­cit pri­má­rio (o sal­do an­tes das des­pe­sas com ju­ros) de R$ 161 bi­lhões pa­ra R$ 540 bi­lhões, mas téc­ni­cos es­ti­mam mais de R$ 700 bi­lhões.

Em pou­cos me­ses, por­tan­to, es­ta­rá sen­do re­ver­ti­da a mai­or par­te da eco­no­mia es­pe­ra­da com a re­for­ma da Pre­vi­dên­cia nos pró­xi­mos dez anos, na ca­sa dos R$ 850 bi­lhões.

O le­ga­do fis­cal da pan­de­mia se­rá um sal­to na dí­vi­da pública, que de­ve pas­sar de 75% pa­ra cer­ca de 95% do PIB. Por ora o país tem ao me­nos a van­ta­gem dos ju­ros bai­xos, mas is­so de­cor­re da gi­gan­tes­ca oci­o­si­da­de —que, espera-se, se­rá re­ver­ti­da mais adi­an­te.

Há ce­ná­ri­os mais oti­mis­tas, de­cer­to. Da mes­ma for­ma que o PIB caiu de for­ma abrup­ta, uma re­cu­pe­ra­ção rá­pi­da não se mos­tra im­pos­sí­vel, ain­da mais com o au­xí­lio or­ça­men­tá­rio a fa­mí­li­as e em­pre­sas. Nes­sa hi­pó­te­se, se a re­tra­ção não se pro­lon­gar em de­ma­sia, po­de­rá ha­ver alta con­si­de­rá­vel do PIB no pró­xi­mo ano.

Pa­ra que is­so acon­te­ça, no en­tan­to, o país não po­de per­der de vis­ta que pre­ci­sa re­for­çar as con­di­ções pa­ra que a taxa de ju­ros per­ma­ne­ça bai­xa, in­clu­si­ve as de pra­zos mais lon­gos, que vêm su­bin­do nas úl­ti­mas se­ma­nas.

Ca­be­rá às li­de­ran­ças po­lí­ti­cas dar si­nais inequí­vo­cos de que não per­mi­ti­rão en­di­vi­da­men­to pú­bli­co des­con­tro­la­do e, no li­mi­te, ace­le­ra­ção das ex­pec­ta­ti­vas de in­fla­ção. Se­rá ne­ces­sá­rio um re­tor­no à agen­da de re­for­mas em pou­co tem­po —e em do­sa­gem mais am­bi­ci­o­sa.

Newspapers in Portuguese

Newspapers from Brazil

© PressReader. All rights reserved.