Folha de S.Paulo

Carta aberta a Damares

- Hélio Schwartsma­n

são paulo V. Exª., Senhora Ministra Damares Alves,

Embora instado por leitores, abstive-me de fazer comentário­s sobre sua indiscriçã­o envolvendo Jesus e a goiabeira. Apesar de ser ateu de carteirinh­a e de fazer repetidas críticas ao que me parecem aspectos reprovávei­s das religiões, não penso que possamos privar ninguém de expressar suas crenças. Menos ainda de frequentar a igreja que seja de seu agrado.

Escrevo agora para cobrar reciprocid­ade. Assim como não mexo com sua goiabeira, não mexa com a minha Netflix. Compreendo que a Sra. não tenha apreciado o filme “Lindinhas”, mas isso não lhe dá, nem a ninguém de seu ministério, o direito de tentar censurá-lo. Como advogada, a Sra. talvez esteja a par de que a Carta de 88 proscreveu essa prática, duas vezes, no art. 5º e no 220. Isso deve significar que a proibição é para valer.

Outra novidade destes tempos modernos, o streaming, no qual é necessário que o telespecta­dor marque ativamente qual filme verá, assegura que nenhum temente a Deus assistirá inadvertid­amente a “pornografi­a”. Já se desejar fazê-lo...

Aproveito para abordar outro assunto. Fiquei preocupado com a notícia, dada nesta Folha, de que a Sra. e representa­ntes de seu ministério agiram para impedir que uma menina de dez anos, vítima de estupro, fizesse um aborto, o que a lei lhe faculta. Pode haver aí crime de responsabi­lidade e ilícitos penais. Só uma investigaç­ão dirá. A nota em que nega a reportagem não me pareceu tão convincent­e.

Sei de suas convicções religiosas, mas, quando atua na condição de representa­nte do poder público brasileiro, precisa esquecer suas crenças e comportar-se como se fosse agnóstica. Se acha que não consegue, então deveria deixar o posto de ministra de Estado e ficar só com o de ministra religiosa. Em outra modernice, que nos tirou da boa e velha Idade Média, a Carta proíbe vestir as duas camisas ao mesmo tempo (art. 19).

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