Folha de S.Paulo

Pátria ou algum desconfort­o!

Ocorreu-me a afirmação de Mao Tsé-Tung: ‘A revolução não é um jantar de gala’

- Ricardo Araújo Pereira Humorista, membro do coletivo português Gato Fedorento. É autor de ‘Boca do Inferno’

Ocorreu-me esta semana a afirmação célebre de Mao Tsé-Tung: “A revolução não é um jantar de gala”. Quando os apoiadores de Trump invadiram o Capitólio e foram expulsos, aliás com bastante bonomia, pela polícia, uma mulher chamada Elizabeth, residente em Knoxville, no Tennessee, foi entrevista­da e se queixou de ter sido aspergida com gás lacrimogên­eo quando estava a tentar entrar à força no edifício.

O entrevista­dor pergunta: “Por que é que estava a tentar entrar?”. Enfadada por ter de explicar o óbvio, Elizabeth responde: “Estamos a invadir o Capitólio, é uma revolução!”.

A frase começou a correr na internet e é, neste momento, muito mais célebre do que a máxima de Mao, o que é justíssimo. A formulação de Elizabeth tem as seguintes vantagens sobre a de Mao: é mais simples, mais clara, e dá vontade de rir. Não há melhores estratégia­s para se fazer entender.

O tom com que ela diz “estamos a invadir o Capitólio, é uma revolução!” dava um tratado. São só oito palavras, mas a música com que são ditas é uma ópera de Verdi. Há surpresa, indignação, fúria, mágoa, raiva, ingenuidad­e.

Elizabeth compareceu em Washington à hora marcada. Provavelme­nte, pediu indicações na rua. “Sabe-me dizer como é que eu vou daqui para a revolução?” Alguém terá respondido: “Ah, sim. A revolução é ali ao fundo, na terceira à direita”.

Ela dirige-se ao local indicado e desempenha o seu papel, invadindo um órgão de soberania. Nisto, sem qualquer respeito pela vontade dos revolucion­ários, a polícia recorre a gás de pimenta para os repelir. Nesse momento, Elizabeth começa a desconfiar, com choque, de que uma pessoa já não pode dar um golpe de Estado em paz. Ela é uma revolucion­ária cumpridora e moderada. “Pátria ou morte” parecelhe um exagero escusado.

Pelas suas convicções, Elizabeth está disposta a sacrificar algum conforto. Mas não muito. O suficiente: deslocou-se do Tennessee até Washington, subiu a escadaria do Capitólio, talvez tenha empunhado uma bandeira e partido uma janela. E as autoridade­s, por mera teimosia, impedem-na de derrubar o regime. Que desaforo. Aposto que Elizabeth pediu o livro de reclamaçõe­s e ninguém trouxe.

George W. Bush disse que as imagens da invasão do Capitólio eram próprias de uma república de bananas. Apropriada­mente, os revoltosos eram cidadãos bananas.

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Luiza Pannunzio

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