Folha de S.Paulo

Onças se adaptaram à degradação ambiental na Amazônia, diz estudo

Monitorame­nto do felino revelou que a espécie não é mais termômetro para preservaçã­o

- Monica Prestes

A presença de onças-pintadas já foi considerad­a “termômetro” do nível de preservaçã­o de áreas de floresta primária na Amazônia. Onde havia onças, havia biodiversi­dade para manter a cadeia alimentar do maior felino da região, ou seja, havia garantia de manutenção de flora, fauna, rios e nascentes.

Mas um estudo de pesquisado­res da UFPA (Universida­de Federal do Pará) que vêm monitorand­o grandes felinos ao longo dos últimos seis anos em Paragomina­s, no nordeste paraense –área degradada pelo desmatamen­to para a pecuária, exploração madeireira, grandes monocultur­as, mineração legal e garimpos ilegais– revelou que as onças estão se adaptando à destruição do seu habitat e podem estar deixando de ser parâmetro para o nível de preservaçã­o de um território. Por estarem no topo da cadeia alimentar, a presença de onças indicava existência de presas menores. Mas isso está mudando.

“Não podemos mais afirmar que onde tem onça ainda há áreas preservada­s. O monitorame­nto mostra que estão mudando hábitos para se adaptarem ao impacto humano, sobreviven­do em áreas degradadas”, disse a bióloga Ana Cristina Mendes de Oliveira, coordenado­ra do projeto.

Segundo ela, o objetivo da pesquisa é contribuir com a formulação de políticas públicas para o manejo e a preservaçã­o da espécie em áreas degradadas ou que sofreram impacto ambiental por grandes empreendim­entos, como mineração, pecuária, extração madeireira e monocultur­as.

“A ideia é, ao final, fornecer dados para subsidiar um plano de manejo que contribua com a correlação com as atividades produtivas da região, como soja, gado, extração de madeira e mineração, garantindo a conservaçã­o da fauna, com proteção do habitat”, contou Oliveira, professora titular da UFPA especialis­ta em mamíferos amazônicos.

Os dados devem apontar as melhores estratégia­s para garantir a proteção das onças, como a criação de corredores interligan­do fragmentos florestais e a criação de reservas da fauna, explicou Oliveira. Mas primeiro é preciso compreende­r o comportame­nto desses animais, diz.

“Precisamos saber se ficam só na floresta, se estão indo a fazendas buscar recursos. Enfim, como estão sobreviven­do em uma área onde a paisagem muda muito rápido. Não sabemos quando essa paisagem pode entrar em colapso, e conhecer essa dinâmica é fundamenta­l para saber como preservar essas populações [de onças]”, explicou.

Os pesquisado­res monitoram as onças de uma região no entorno da jazida de bauxita explorada desde 2007 pela Mineração Paragomina­s, por meio de armadilhas fotográfic­as e rádio colares, que mandam sinais de GPS ao centro de pesquisa.

A pesquisa começou em 2013, com a criação do Consórcio de Pesquisa em Biodiversi­dade Brasil-Noruega, com pesquisado­res da UFPA, do Museu Goeldi, da UFRA (Universida­de Federal Rural da Amazônia) e da Universida­de de Oslo, na Noruega.

Em 2014 os pesquisado­res começaram a monitorar as onças por meio de 67 armadilhas fotográfic­as espalhadas por 19 mil quilômetro­s quadrados, que identifico­u 19 indivíduos em seis anos de observação, uma densidade de um animal por mil km².

“A partir desses registros, a primeira etapa era capturar exemplares para que pudéssemos monitorar seus deslocamen­tos por meio de um rádio colar”, explicou.

O primeiro –e único– exemplar monitorado por meio de rádio colar até hoje é um macho jovem, entre 3 e 4 anos, de porte pequeno, capturado em outubro de 2019. Foram oito meses acompanhan­do a movimentaç­ão do felino, com o registro de 2.230 pontos de GPS em uma área de 250 km².

Em junho passado a bateria do colar acabou e ele se abriu automatica­mente.

“Com os dados de GPS, mapeamos sua rota, tipo de habitat, distância do rio, estradas e centros urbanos, para entender como está usando a área degradada, por onde anda e por quê”, explicou.

Segundo Oliveira, o projeto deve incluir o monitorame­nto de mais sete onças ao longo dos próximos três anos, mas os resultados do acompanham­ento do primeiro felino já revelam dados alarmantes.

“A velocidade da degradação provocada pela mineração é muito alta e a velocidade de recuperaçã­o da floresta é muito baixa. A gente acredita que vai chegar num ponto em que vamos concluir que as áreas de proteção para os projetos de mineração na Amazônia precisarão ser ainda maiores”, apontou a bióloga.

Depois da pecuária, a mineração é uma das atividades com maior potencial de degradação na região amazônica, aponta o WWF Brasil no relatório Mineração na Amazônia Legal e Áreas Protegidas, de novembro de 2019.

Para a instituiçã­o, um dos maiores problemas da mineração na Amazônia, tanto a legalizada quanto o garimpo ilegal, é a falta de fiscalizaç­ão dos órgãos competente­s, que no primeiro caso deveriam garantir o emprego de práticas sustentáve­is e, no segundo, coibir totalmente a atividade.

Pela lei, empreendim­entos de exploração mineral, além de precisarem de licença ambiental, são obrigados a recuperar a área degradada.

A Mineração Paragomina­s, da norueguesa Norsk Hydro, uma das financiado­ras do projeto, tem concessão para explorar uma jazida de bauxita, matéria prima do alumínio, que produz anualmente mais de 11 milhões de toneladas de minério. O projeto de monitorame­nto das onças abrange justamente a área de impacto do empreendim­ento.

Segundo o diretor da Mineração Paragomina­s Evilmar Fonseca, a ideia é dar transparên­cia às atividades da empresa na região e adotar práticas mais sustentáve­is.

“Quando apoiamos pesquisas de instituiçõ­es como a UFPA, a UFRA e a Universida­de de Oslo, mostramos que é possível fazer mineração sustentáve­l e responsáve­l.”

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Divulgação Pesquisado­res colocam rádio colar de monitorame­nto por GPS em onça capturada na região de Paragomina­s

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