Folha de S.Paulo

Para chefe do Pacto Global, olhar risco climático é urgente

Para diretor do Pacto Global, setor privado precisa entender como a crise do clima afetará os negócios nos próximos anos

- Carlo Pereira Thiago Bethônico

belo horizonte “É urgente que as empresas coloquem o clima como fator crítico em suas análises de risco.” A afirmação é de Carlo Pereira, diretorexe­cutivo da Rede Brasil do Pacto Global, uma iniciativa das Nações Unidas para engajar o setor privado na adoção de práticas sustentáve­is.

Para ele, entender como o clima vai afetar os negócios nos próximos anos deveria ser a maior prioridade das companhias quando o assunto é ESG (sigla em inglês para boas práticas ambientais, sociais e de governança corporativ­a).

“Para um país onde o que pesa na balança é o agribusine­ss, esse é um tema que tem de estar na ordem do dia de todas as empresas, para ontem”, diz Pereira, em entrevista à Folha.

Na avaliação do diretor, a situação ambiental apresentad­a no mais recente relatório do IPCC (Painel Intergover­namental de Mudança do Clima da ONU) não traz grandes novidades, mas reforça o que vinha sendo debatido há anos e serve como mais um instrument­o de pressão às vésperas da COP-26 (Conferênci­a das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas).

A 26ª edição da COP vai reunir líderes do mundo todo em novembro deste ano para debater a crise do clima. Será em Glasgow, na Escócia.

Segundo o diretor, a expectativ­a é que a conferênci­a coloque ainda mais pressão nas empresas brasileira­s e force o setor privado —e o governo— a reduzir o prazo de suas metas ambientais.

Como você vê os alertas feitos no último relatório do IPCC?

Falar que o relatório não traz novidade é muito forte, mas ele reforça muita coisa que a gente já vinha sabendo. A ciência vai sempre se acumulando, e os relatórios do IPCC vão acompanhan­do isso. Então é possível dizer com mais clareza quais são as possíveis consequênc­ias [com a temperatur­a do planeta] aumentando um grau, meio grau etc.

Vamos lembrar que, apesar dos pesares, o IPCC é muito conservado­r. Eles trazerem que é inequívoca a participaç­ão do homem [no aqueciment­o global] é muito forte. Mas não há grandes novidades no relatório que a gente pense “poxa, não imaginava isso”. Acho que são coisas que já discutíamo­s.

Mas, além da conclusão de ser inequívoca [a contribuiç­ão humana], o relatório também mostrou que algumas mudanças são inevitávei­s e irreversív­eis. Como você avalia a reação a isso?

Nos outros relatórios, a mídia até trazia uma coisa ou outra, mas de maneira bem acanhada. Neste relatório, todos os jornais não apenas mencionara­m o IPCC mas a metade da primeira capa era falando sobre isso. Isso mostra que a sociedade em geral veio para esse tema de maneira muito contundent­e, o que se reflete também no setor privado.

Uma coisa que a gente vem percebendo, para além do relatório, é que as empresas estão sendo cobradas por causa da mudança do clima. O mercado financeiro entendeu que a gestão do risco climático faz parte do seu dever fiduciário. Ou seja, você pode ser processado —e o relatório do IPCC mostra como vem aumentando esse litígio climático— se não lidar de maneira adequada com o risco climático.

Enquanto a ciência não estava avançada o suficiente, era possível “dar uma de louco”. Hoje não. Todo o mundo sabe quais são os efeitos da mudança do clima.

Por isso que a gente está vendo uma enxurrada de compromiss­os públicos. E é por isso que o Pacto Global lançou, com outras instituiçõ­es, um observatór­io das metas. Vamos qualificar as metas que estão sendo colocadas e monitorar. Ano a ano, a gente vai reconhecer as empresas que tiveram melhor avanço e apontar o dedo para aquelas que não estão avançando.

Na sua avaliação, as empresas brasileira­s reagiram a contento aos alertas do relatório?

Eu acho que sim. Esse relatório é importante, sem dúvida nenhuma, mas não tem nenhum grande fato novo ali. Ele, na verdade, só vem a apurar as informaçõe­s que já estavam chegando.

Tanto que, quando eu vi que o IPCC falou que o papel do homem é inequívoco, eu pensei: “Como assim?”. Eu nem lembrava que o IPCC nunca tinha dito que era inequívoco, porque essa é uma informação que a gente já tem como verdade há muito tempo.

Por isso eu acho que não houve um movimento específico no setor privado por causa do relatório. O que teve, até em razão da repercussã­o geral, foi mais gente das empresas mencionand­o o relatório.

O relatório não sobe o tom na gravidade da situação climática?

Ele sobe. Isso de falar que o papel do homem é inequívoco, por exemplo. Mas eu não diria que ele põe a faca no pescoço de maneira a apertar ainda mais. A gente já tinha toda essa discussão de maneira forte. É claro que ele vem a servir como um objeto adicional de pressão, rumo à COP-26.

Como você vê os compromiss­os climáticos que as empresas estão fazendo hoje em dia no Brasil?

Você tem de tudo. Por isso que eu falei do observatór­io. Mais do que enfiar a faca no pescoço das empresas, a gente quer reconhecer aquelas que são sérias.

Tem muita empresa que está colocando metas bem no greenwashi­ng [propaganda enganosa verde] mesmo. Nessa febre ESG que estamos vivendo, onde o greenwashi­ng mais aparece são nessas metas de carbono. Mas tem muita empresa séria.

Uma meta séria é quando você tem compromiss­o de longo, médio e curto prazo, que sejam nos escopos 1, 2 e 3. Resumindo, escopo 1 é emissão direta, escopo 2 é energia comprada e escopo 3 é cadeia de valor.

Em novembro deste ano acontece a COP-26. Como esse evento deve impactar o mundo dos negócios aqui no Brasil?

Vai impactar muito. Está havendo uma pressão cada vez maior para que os países contratem metas de neutralida­de, e esse é o grande foco da COP. Se eu fosse resumir a COP em um item, seria neutralida­de.

Lembrando que boa parte dos grandes fundos [de investimen­tos] do mundo, como BlackRock e Pimco, estabelece­ram metas de neutralida­de do seu portfólio. Então, as empresas que estão ali terão que ser neutras.

Issoéumac oi saque agente está sentindo falta por parte dos bancos brasileiro­s. Neste ano, em razão da COP,s urgiramvár­ios movimentos de neu- tralidade carbônica por parte dos fundos de ativos e dos bancos. Para a nossa surpresa, dos bancos, não tem nenhum brasileiro [nesses movimentos].

O setor financeiro brasileiro deu uma escorregad­a nisso. Não dá para ficar de fora, tem que ter meta de neutralida­de. Hoje não dá para estar fora dessa discussão, e a COP vai colocar muita pressão nesse sentido.

O Brasil vai sofrer um calor danado para que empresas, e o próprio país, reduzam [o prazo de] suas metas. Como consequênc­ia, as empresas e os países que estão assumindo essas metas vão pressionar mais o setor privado brasileiro —e o governo por questão de desmatamen­to, que é o grande mal.

Qual deveria ser a prioridade número 1 das empresas quando a gente fala em ESG hoje?

É urgente que as empresas coloquem o clima como fator crítico em suas análises de risco. Isso de uma maneira geral, mas alguns setores são mais vulnerávei­s, como os que têm qualquer tipo de atividade agrícola. Desde celulose à soja, cana, ou o que for: é preciso entender como o clima vai te afetar nos próximos anos. Tem que ter a mais absoluta clareza disso.

Como vai ser a soja no Centro-Oeste do país nos próximos anos? Vai ser produtivo? A gente está vendo falar que a mudança do clima vai acabar com o café e o cacau. Para onde vai a fronteira agrícola dessas culturas?

Para um país onde o que pesa na balança é o agribusine­ss, esse é um tema que tem que estar na ordem do dia de todas as empresas, para ontem.

As empresas já estão atentas a isso?

Sim, o empresaria­do brasileiro está bem acordado. Como tudo em ESG, ainda está muito no “barata voa”. Sabem que tem que fazer algo, mas não tem clareza muito do quê.

Vale lembrar que, até ontem, havia a pressão única, em cima do CEO, por resultado financeiro. Essa mudança é muito recente. Então está todo o mundo tentando entender como que faz. Acho que ainda falta muito, mas a gente engatou nessa estrada.

Agora as coisas vão começar a acontecer numa velocidade muito maior. Eu acompanho o Al Gore [ex-vice presidente dos EUA e ativista ambiental] quando ele diz que a revolução da sustentabi­lidade tem a profundida­de da revolução industrial e a velocidade da revolução digital. Acho que a gente está nesse momento.

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Marlene Bergamo/Folhapress

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