Folha de S.Paulo

Erudito e inquieto, Alberto Dines foi pioneiro da crítica de imprensa

- Fábio Zanini

Em 6 de julho de 1975, começava assim a primeira coluna “Jornal dos Jornais”, assinada por Alberto Dines na Folha.

“O direito à informação não funciona apenas num sentido, mas tem múltiplas direções: serve aos veículos para informar ao público e serve ao público para se informar sobre os veículos”.

Era um experiment­o ousado, pelo pioneirism­o de fazer uma discussão da imprensa pela imprensa e pela ideia de levá-lo adiante no ambiente pesado da ditadura.

A coluna marcou a primeira passagem de Dines, morto em 2018 aos 86 anos, pela Folha. Hoje, é amplamente considerad­a o embrião do que viria a ser a função de ombudsman, implementa­da pelo jornal em 1989.

“De fato ele é o precursor, eu rendo essa homenagem. Ele foi muito colaborati­vo comigo, me ajudava, dava conselhos”, afirma Caio Túlio Costa, primeiro a exercer esse cargo na Folha.

“Quando eu assumi como ombudsman, o Dines me mandou uma cartinha desejando sucesso. Sugeriu que eu não tivesse nem ira sagrada, nem entrasse numa missão salvacioni­sta porque isso tinha lhe custado mais do que uma dúzia de ferrenhos inimigos, sem que tivesse sido quebrado o bezerro de ouro”, acrescenta.

Dines chegou à Folha convidado pelo então diretor de Redação, Claudio Abramo, após uma passagem marcante pelo Jornal do Brasil. Virou chefe da sucursal do Rio e teve a ideia de fazer a coluna sobre mídia em razão de sua experiênci­a como professor visitante em Columbia (EUA).

“Lá ele viu como a crítica à imprensa havia surgido no episódio Watergate. Conversand­o com o Frias [Octavio Frias de Oliveira, publisher do jornal], deu a ideia de fazer o mesmo na Folha. O Frias perguntou se ele tinha certeza porque ele ia ser muito atacado, o pessoal era muito vingativo. Mas o Dines não se importou”, diz Luiz Egypto, que foi editor do site do Observatór­io da Imprensa, criado por Dines na década de 1990 com a mesma função, de debater a cobertura da mídia.

A coluna sobre mídia foi encerrada em 1977, num momento em que crescia a tensão entre o jornal e a ditadura militar. Dines passou a assinar artigos sobre política com as iniciais, “A. D.”.

Em 1980, ele escreveu uma coluna com o título “São Paulo e os dois Paulos”, em referência ao cardeal dom Paulo Evaristo Arns e ao então governador do estado, Paulo Maluf.

O texto, com críticas a Maluf, não foi publicado, o que levou Dines a reclamar de censura.

Editor-chefe da Folhaà época,o jornalista Boris Casoyt em outra versão para esse episódio.

“O texto era muito forte, com impropério­s pessoais contra o Maluf. Levei ao Frias, que propôs tirar o texto da página 3, onde era publicado, elevar para uma página interna, e com ele assinando o nome, não as iniciais. Ele não aceitou. Dizia que foi censurado, mas foi demitido por não respeitar uma decisão do jornal”, diz.

Dines retornaria à Folha nos anos 1990, onde manteve uma coluna na Ilustrada.

“Ele era um dos jornalista­s mais cultos do Brasil, um repositóri­o fantástico de leituras, alguém com interesses muito diversos”, afirma Caio Túlio, que se tornou seu amigo.

Egypto concorda. “O Dines era um erudito sem polaina, uma pessoa sem a menor empáfia. E sempre teve muitos projetos em mente. Trabalhava como um garoto de 30 anos. Para ele, domingo era dia normal. Era mestre em sair do escritório às 3 horas da manhã”.

A segunda passagem também terminou em atrito. Sua coluna foi encerrada após ele te rescrito um texto no Observatór­io da Imprensa, em març ode 1999, comcrítica­sà Folha.

Nos anos seguintes, o jornalista e o jornal se reconcilia­riam, e o então diretor de Redação da Folha, Otavio Frias Filho (1957-2018), chegou a ir ao programa que ele apresentou na TV Brasil até pouco antes de morrer.

Lá, Dines mantinha acesa amissão a ques e propôs naquela coluna pioneira na Folha, quando justificou numa frase a necessidad­e de a imprensa também passar por escrutínio: “democracia vale para todos, caso contrário não é democracia”.

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Zanone Fraissat - 3.jun.13/Folhapress O jornalista Alberto Dines

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