Folha de S.Paulo

Coalizão que tirou Netanyahu surpreende e se mantém unida

- Daniela Kresch

Na véspera do Yom Kippur, o Dia do Perdão, data mais solene do calendário judaico, comemorado em 2021 na última quarta-feira (15), o premiê israelense, Naftali Bennett, passou o dia concedendo entrevista­s aos principais veículos de mídia do país.

Em um adelas, o primeiro-ministro, líder do partido Y amina (À Direita), elogiou efusivamen­te seus colegas de coalizão, formada, ao todo, por oito partidos —três de direita, dois de centro e dois de esquerda, além de uma legenda árabe.

Também celebrou o trabalho dos ministros, de Avigdor Lie berman,doultr anacionali­sta Israel Nossa Casa, aNitzanHor­owitz, do Meretz, de ultraesque­rda. Elogiou até Mansour Abbas, da Lista Árabe Unida. “No momento em que enfatizou questões civis e de economia, o trabalho com ele ficou muito bom”, disse.

Mas Bennett enalteceu principalm­ente o chanceler Yair Lapid, do partido progressis­ta Yesh Atid (Há Futuro), com o qual não concorda em assuntos-chave, como a criação de um Estado palestino (ele é contra, e Lapid, a favor) e a anexação de assentamen­tos israelense­s na Cisjordâni­a (eleéa favor, eLap id, contra ).

Nada que, neste momento, pareça atrapalhar os planos de passaroco mando do governo a Lapidem dois anos, comore geo esquema de rotação da coalizão heterogêne­a. “Lapid é honesto, um amigo, e vou passar o bastão para ele.”

Mesmo antes, em seudisc urso i nau gural,Bennettpr enunciava oto maser adotado: “O que concordamo­s, realizarem­os; o que nos divide, deixaremos para outro momento”.

A demonstraç­ão de companheir­ismo em um governo tão diverso é novidade. Nos 12 anos em que esteve no poder, o antecessor de Bennett, Binyamin Netanyahu, raramente dividia os louros de sua gestão, para alimentara imagem de salvador da pátria insubstitu­ível. As coalizões que liderou eram também mais homogêneas, com maioria de partidos de direita e ultrarreli­giosos.

“Relativame­nte ao que era esperado, este governo está funcionand­o bem. Se alguém me contasse antes, eu não acreditari­a”, diz Gideon Rahat, do Instituto de Democracia de Israel e do departamen­to de ciências políticas da Universida­de Hebraica de Jerusalém. “Os assuntos ideológico­s aparecem de vez em quando, mas não muito, provando o que todos já sabem: 90% do que governos fazem não são exatamente ligados a ideologias proeminent­es. Lidam com assuntos relativos ao bem comum.”

Rahat cita como exemplo de tema consensual o coronavíru­s, que, em Israel nunca foi politizado. “Não é como em alguns lugares em que líderes populistas negam a Covid, e outros reconhecem o problema”, afirma. “Até Netanyahu reconheceu o perigo e agiu contra o vírus. Então, este governo está lidando relativame­nte bem com isso”.

Assim, segue, o segredo do governo Bennett-Lapid, ao menos até agora, é a ideia de que os partidos da coalizão não se amalgamara­m em uma ameba sem ideologia política.

“É possível colaborar sem perder a identidade. Israel é um modelo, mesmo que não tenha sido o primeiro país a criar esse tipo de governo.”, explica. “Há países que usam isso há décadas, como a Suíça. Essa união acontece muitas vezes contra líderes populistas. Nos Estados Unidos, de certa forma, aconteceu contra Donald Trump, com republican­os moderados se unindo a políticos democratas. Parece que algo parecido está nascendo agora na Hungria.”

O que une o governo Bennett é a ojeriza a Netanyahu, já que a atual coalizão foi criada para derrubar o ex-premiê e seu partido, o Likud, dominantes na política israelense por mais de uma década.

No total, “Bibi”, como Netanyahu é conhecido, foi primeiro-ministro por 15 anos, mais do que o icônico David BenGurion. Para os rivais políticos que ele acumulou no decorrer dos governos —alguns dos quais grandes aliados no passado, como o próprio Bennett—, tornou-se intoleráve­l manter no poder um político individual­ista cujos mandos e desmandos alimentava­m apoiadores cada vez mais radicaliza­dos, assinaland­o constantem­ente o Supremo Tribunal de Israel como alvo.

Bibi, que hoje enfrenta um julgamento público por corrupção, também personaliz­ou o poder, incluindo guardar para si segredos militares.

A união de forças políticas distintas foi uma ideia que surgiu nos idos de 2013. Já naquela época, Lapid, então um neófito na política israelense após uma carreira de âncora de TV, dizia que só uma frente ampla poderia se opor ao carismátic­o Netanyahu. Mais tarde, aproximou-se de Bennett, de ultradirei­ta, e os dois passaram então a ser chamados popularmen­te de “irmãos”, virando alvo até de paródias.

A amizade improvável se manteve morna por anos, até Israel passar por um longo período de incertezas, entre 2019 e 2021, quando quatro eleições não conseguira­m levar a um governo viável.

Assim, diante de um nó político que parecia impossível de ser desatado, a frente ampla ganhou força e derrubou o hoje ex-primeiro-ministro e as coalizões interinas que Netanyahu se propôs a costurar para se manter no poder.

A dúvida agora é o preço que os líderes da coalizão governista pagarão, no futuro. Todos enfrentam críticas de apoiadores quando parecem renunciar a seus ideais.

Recentemen­te, quando o ministro da Defesa, Benny Gantz, encontrou-se com o presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, os membros mais à direita da coalizão rangeram os dentes —no encontro, que teve conversas oficiais de nível mais alto em anos entre Israel e Palestina, não houve discussão sobre o processo de paz, que está paralisado há mais de sete anos. No polo oposto, o mesmo aconteceu quando Bennett prometeu a colonos que continuari­a a promover a expansão dos assentamen­tos judaicos na região da Cisjordâni­a.

Por outro lado, a maioria dos israelense­s parece aliviada com o novo cotidiano político, um tanto tedioso, com menos picuinhas, protestos e escândalos diários. Há, claro, rachaduras visíveis e a desculpa de que é preciso mais tempo para mudar o que foi feito —ou o que ficou parado— no governo anterior. Mas um elemento é certo: a cola que mantém a coalizão é a oposição a Netanyahu.

“O adesivo nesse tipo de governo é a existência de uma espécie de anticristo”, diz Rahat, referindo-se ao ex-primeiro-ministro, que insiste em se manter ativo como líder da oposição e número 1 do Likud, podendo concorrer novamente ao cargo. “Então, enquanto Netanyahu for um candidato possível, a coalizão governista continuará forte.”

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Gil Cohen-Magen - 19.jul.21/Reuters O primeiro-ministro de Israel, Naftali Bennett (à dir.), e o chanceler Yair Lapid, número 2 no governo

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