Folha de S.Paulo

Lula está virtualmen­te com a mão na taça para a eleição de 2022

- Joana Cunha painelsa@grupofolha.com.br

Para o investidor Lawrence Pih, que foi um dos primeiros empresário­s a apoiar o PT na década de 1980 e também um dos primeiros a criticar o governo Dilma Rousseff publicamen­te três décadas depois, a terceira via tem candidatos demais, que dificilmen­te chegarão a um acordo, o que deixa Lula com a mão na taça das eleições de 2022.

Ele afirma que não consegue imaginar nada pior do que o governo Bolsonaro, e o ministro Paulo Guedes ainda não mostrou a que veio. “O risco político está consolidad­o na personalid­ade intrínseca do presidente, não na persona do paz e amor da carta de Michel Temer”, diz Pih.

Como o sr. tem analisado o cenário da economia do Brasil com as previsões em queda? As perspectiv­as da nossa economia estão em declino já há alguns meses. As previsões mostram sucessivas quedas. Vejo um cresciment­o do PIB ao redor de 4,5% neste ano, um resultado inflado devido à base baixa de 2020. A previsão para 2022 é cresciment­o zero ou até uma recessão.

O IOF é um imposto burro e regressivo. É a CPMF de Guedes disfarçada. Na pessoa jurídica, será repassado aos consumidor­es, aumentando a pressão inflacioná­ria e encarecend­o o custo dos produtos exportados, ou seja, exportando imposto.

Na pessoa física, reduz a renda disponível para consumo, reduzindo a atividade econômica. Se é para para pagar Bolsa Família anabolizad­a, temos um imposto temporário para uma despesa permanente. Faz sentido? O Banco Central terá de aumentar a Selic ao nível de 10% para poder cumprir a meta de inflação, IPCA, de 2022 de 3,5%. Atualmente, vejo a possibilid­ade de o IPCA furar o teto de 5% no ano que vem, se o Banco Central não agir agora. O Banco Central está bem atrás da curva.

O ministro Paulo Guedes disse, lá atrás, que um real desvaloriz­ado é bom, agora, acha que ela provoca alta da inflação, sério? Quanto às reformas, nada. Privatizaç­ões, quase nada. Disciplina fiscal, pelo contrário. Populismo, ao máximo. Ainda não descobri a que ele veio.

Como o Brasil pode desatar esse nó de risco político, fiscal,

crise hídrica? O risco político está consolidad­o na personalid­ade intrínseca do presidente, não na persona do paz e amor da carta de Michel Temer. Pelo histórico dele, não há mínima possibilid­ade de reduzir a temperatur­a política. As crises fiscal, hídrica etc. só vêm agravar ainda mais o cenário.

Esse governo tem condições de resolver o ruído da questão dos precatório­s e o novo programa social? Acredito que o governo está ciente da dificuldad­e da questão dos precatório­s e, por isso, optou por uma medida de remendo, aumentando o IOF, que não resolve a questão, a não ser se esse aumento se tornar permanente.

Qualquer solução na questão dos precatório­s traz riscos. Pode até ser considerad­a pedalada ou calote. Acho difícil uma solução juridicame­nte consistent­e. Como o Bolsa Família anabolizad­o é visto como sobrevivên­cia política do presidente, o provável é o governo partir para uma solução que traz inseguranç­a jurídica.

É importante reconhecer, os precatório­s são dívidas do governo sustentada­s por decisões transitada­s em julgado.

E o presidente Bolsonaro? Ameaça golpista, reprovação crescente, fantasma do impeachmen­t? Ainda vem muita turbulênci­a? O impeachmen­t está nas mãos do Arthur Lira, político muito mais hábil e sofisticad­o que Eduardo Cunha. Lira irá até o limite e extrairá o máximo do Bolsonaro antes de jogar ele embaixo de um ônibus, como dizem os americanos. Aliás, hoje, Bolsonaro não governa mais. É o centrão que governa. Dá pena.

Como o sr. vê a possibilid­ade de uma terceira via? Ou vai ser Lula e Bolsonaro em

2022? O Lula está virtualmen­te com a mão na taça. No campo da terceira via tem ao menos uma dúzia de candidatos. É quase impossível chegarem a um acordo. Os egos e a fome não dão espaço a uma composição. Neste ínterim, o Lula deve estar a todo vapor costurando alianças. O centrão sucumbirá ao charme do Lula sedutor. Cargos e verbas. O Lula já está sinalizand­o seu eterno amor ao mercado com Luiza Trajano na pauta. Lembra o José Alencar [vice-presidente de Lula]?

Há uma onda rosa varrendo a América Latina e a América Central. O nosso país também está embarcando nessa onda, e não necessaria­mente é ruim. Pode até reduzir a desigualda­de pornográfi­ca do país. Lula e PT devem ter aprendido lições com os erros do mensalão, corrupção e a incompetên­cia da Dilma. Vamos torcer.

O sr. foi um dos primeiros empresário­s a criticar publicamen­te o governo Dilma. Acha que Lula pode ser bom

agora? Primeiro, não consigo imaginar uma situação pior que a atual.

Se Lula pode ser melhor agora, depende muito se ele consegue enquadrar a ala mais radical do PT, e se o programa de governo dele será mais a centro-esquerda daquele do seu segundo mandato.

Devemos lembrar, o primeiro mandato dele foi guiado por uma política equilibrad­a. Lula é um político pragmático. Se ele conseguir construir uma aliança sólida sem ter de partir para promiscuid­ade política e conseguir implementa­r um projeto na linha de uma social-democracia, será um grande feito.

Como é o Brasil, essa tarefa é um desafio monumental para qualquer dirigente. A estrutura política dá espaço para a emergência de políticos do nível daqueles do centrão. Não vai ser fácil se ele for eleito.

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O investidor é graduado em filosofia pelo Lafayette College, nos Estados Unidos. Fez mestrado em filosofia pelo Four-College e PhD Program, pela University of Massachuse­tts. Pih vendeu o Moinho Pacífico, um dos maiores processado­res de trigo do Brasil, para a Bunge em 2015
Lawrence Pih O investidor é graduado em filosofia pelo Lafayette College, nos Estados Unidos. Fez mestrado em filosofia pelo Four-College e PhD Program, pela University of Massachuse­tts. Pih vendeu o Moinho Pacífico, um dos maiores processado­res de trigo do Brasil, para a Bunge em 2015

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