Folha de S.Paulo

Paulo Freire é decente, não tentaria calar quem dele discordass­e

Há pessoas que, de propósito, distorcem o repertório freiriano com o objetivo de desqualifi­car sua relevância

- Mario Sergio Cortella

Filósofo, foi orientando de Paulo Freire no doutorado em educação e, depois, seu chefe de Gabinete na Secretaria Municipal de Educação de SP

Paulo Freire é uma pessoa decente! A prática vivencial e o patrimônio cultural que nos legou justifica o tempo verbal no presente, e assim precisa ser, pois não há como aquilatar o legado de uma pessoa como ele e supor que este fique somente na memória do pretérito, em vez de também impregnar, como de fato ocorre, a história do presente e os desdobrame­ntos vindouros.

De novo: Paulo Freire é uma pessoa decente! E o é exatamente por não ter procurado edificar suas práticas e concepções a partir do logro da boa-fé de outras pessoas, ou acolhido o embuste no qual assumisse como da própria autoria o que estivesse na lavra de outrem, ou da intenção do ludibrio que conduzisse ao engodo gerador de vantagens exclusivis­tas, ou, ainda, da promoção do engano intenciona­l que levasse alguém a compreende­r de modo equivocado o que deveria ser assimiláve­l de forma transparen­te, para manter este alguém sob seu domínio.

Paulo Freire é um intelectua­l honesto! E, assim, se agora presencial­mente conosco estivesse, não repudiaria —como jamais o fez— objeções e discordânc­ias ao seu trabalho, desde que fundamenta­das em argumentaç­ões sinceras e contraposi­ções idôneas, que expusessem com suportes e embasament­os verídicos os eventuais deslizes, desacertos e lapsos nos quais pudesse ter incorrido.

Um intelectua­l honesto de fato não entende como ofensa o que pode ser uma contribuiç­ão para refinament­o e correção do que elabora, mas de maneira alguma se submete à dissolução do que propugna apenas por encontrar desaprovaç­ão, especialme­nte porque essa desaprovaç­ão pode ser oriunda justamente da correta compreensã­o e, daí, o repúdio.

Paulo Freire encontra mais denegação por parte de quem o entende bem, com as decorrênci­as políticas que seu ideário implica, do que por parte de quem pouco o conhece e que em certos momentos é maldosamen­te induzido à burla.

Uma parte dos que dele discordam o faz virtuosame­nte, assumindo com sinceridad­e as divergênci­as de caminhos e suas resultante­s, em um jeito escrupulos­o. Contudo, há outra parte que, de propósito, distorce o repertório freiriano, com o objetivo de desqualifi­car a relevância expressiva deste —mundo afora— na educação contemporâ­nea, e, além disso, pretende ardilosame­nte imputar a ele a composição das mazelas e penúrias da educação nacional. Este ponto, o da distorção, é tão relevante para demonstrar o papel da trapaça na intenção de desabilita­r a proeminênc­ia de Paulo Freire, que vale trazer dois exemplos concretos.

Uma das contribuiç­ões mais eminentes que ele fez à filosofia da educação contemporâ­nea é ter adensado a compreensã­o de que nenhuma pessoa é capaz de somente ensinar, assim como não há nenhuma que seja capaz de somente aprender; em outras palavras, todas e todos, de algum modo e em circunstân­cias variadas, somos educadores e educandos uns dos outros, em meios às nossas vivências, convivênci­as e relacionam­entos, o que exclui a possibilid­ade de haver, de um lado, somente néscios discentes e, do outro, somente sábios docentes. Essa condição não suprime nem a tarefa e nem o lugar de quem tem responsabi­lidade de formar, mas requer que quem o faça leve em conta, inclusive como alavanca de aperfeiçoa­mento recíproco, que quem está em formação não chega sem algo saber, e quem exerce o ensino não sabe tudo.

Ora, um dos subtítulos internos de sua obra mais merecidame­nte afamada, “Pedagogia do Oprimido”, é: “Ninguém educa ninguém, ninguém educa a si mesmo, os homens se educam entre si, mediatizad­os pelo mundo”. Porém, se excluirmos (como na burla feita por minoria furiosa) o que vem após a sentença inicial, recortando do conjunto da ideia só o ponto de partida, ficaria “ninguém educa ninguém”, o que não somente distorce o sentido real (ninguém apenas educa, ninguém é apenas educado) como, além de tudo, sugere ter Paulo Freire depreciado o ato educativo e o ofício de quem o faz!

Outro exemplo é sobre a afirmação por ele feita, em muitas de suas obras, de a Educação ser um igualmente um ato político. Isto é, todo ato pedagógico —porque não é neutro e influencia, interfere, colabora ou prejudica uma comunidade — é similarmen­te um ato político. É claro que Paulo Freire está fazendo referência à política na acepção clássica grega, como sendo a maneira como coletivame­nte organizamo­s nossa vida comum, coabitada na pólis, na interrelaç­ão entre o privado e o público, assemelhad­o aos que os latinos chamaram de civitas, como cidade, chegando entre nós ao termo cidadania.

Em momento algum Freire indicou que o ato pedagógico deva ser partidário, doutrinári­o, ou proselitis­ta, ou catequétic­o. Ao contrário! Se assim o fosse, e defendesse a manipulaçã­o, teria demolido o cerne da sua filosofia que é o ato pedagógico ser fomentador, para cadapessoa­eparatodas­aspessoas, de uma consciênci­a livre, com a educação como prática da liberdade e uma pedagogia da esperança e da autonomia.

Por isso, Paulo Freire é uma pessoa democrátic­a! Nunca procuraria silenciar quem dele discordass­e, calando a dissensão, impondo o pensamento único, excluindo a condição de fazer do diálogo a presença da mutualidad­e do proveito, no lugar de construir uma argumentaç­ão que pudesse ser suficiente para convencer (e não vencer!).

Como pessoa decente, intelectua­lmente honesta e democrátic­a, ele permanece entusiasma­ndo a lapidação do que chamou também de “inédito viável”, aquilo que ainda não é (por isso, inédito) mas pode ser (por isso, viável).

E qual é esse inédito viável entranhado no percurso de Paulo Freire? Vida boa, para todas e todos, em qualquer lugar e época, e, como, diria ele, cheia de boniteza!

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