Folha de S.Paulo

Eu entro com o violão, você com o macarrão, e a gente faz uma história

- Milly Lacombe folha.com/nossoestra­nhoamor

Minha irmã entrou no quarto e viu que Antonio estava arrumando uma mala. Chegou mais perto e enxergou que dentro dela o filho tinha colocado uniformes da escola, um par de tênis e uma escova de dentes solta entre camisetas e bermudas. Ficou intrigada com a cena protagoniz­ada pelo garoto de quatro anos. “Onde você vai, Antonio?”. “Morar com a nonna”, respondeu ele encaixando um tubo de pasta de dentes entre as roupas. “Por que, posso saber?” “Ué, mãe. O vovô morreu, e agora eu preciso ir cuidar dela”, disse fechando a mala e se dirigindo à porta. Como ele pretendia chegar à casa da avó nunca ficou claro.

Depois de uma longa conversa na sala com os pais, e de um telefonema para a avó, Antonio concordou em ir apenas no dia seguinte. Ficou combinado que, durante o período de luto, ele passaria os fins de semana com a nonna e também que aceitaria seguir morando com os pais. O acordo foi assinado depois que a avó garantiu que daria um jeito de seguir forte naquele apartament­o que um dia já tinha sido tão cheio de gente. Agora viúva e com os filhos casados, teria que se reconcilia­r com o espaço numa travessia só sua.

Desde o episódio da mala, que aconteceu no dia mesmo da morte do avô, Antonio e nonna passaram a ser uma dupla. Era com ela que ele estava quando, aos seis anos, tentou escapar de uma coleta de sangue correndo aos berros pelos corredores do laboratóri­o, era com ele que ela estava quando, muitos anos depois, precisou passar por uma cirurgia cardíaca e, durante a coleta de sangue pré-operatório, replicou o escândalo do neto. “Nonna, calma. Vamos olhar para o outro lado enquanto tiram seu sangue”, Antonio disse usando uma das mãos para segurar a dela e a outra para apertar tão forte quanto possível o travesseir­o da cama hospitalar para que a avó não percebesse que ele estava quase desmaiando.

Foi Antonio que, quando nonna saiu da UTI depois de reparar a mecânica do coração de 84 anos, dormiu com ela no hospital. Foi ele que auxiliou a avó a se vestir quando o médico entrou no quarto e disse: “Adele, estou te dando alta”. Foi ele que a levou de volta para casa e a colocou na cama.

Por causa dela, Antonio aprendeu a falar italiano e, em seguida, um pouco do dialeto napolitano. Quando telefona para a avó, o “alô” sempre é:“Ciaocuccio­lota,amoremio, come va?”. Passados 22 anos da morte do avô e, portanto, do episódio da mala, Antonio ainda telefona todos os dias. Foi no colo dela que ele chorou o primeiro rompimento amoroso e a primeira fossa. Foi para ele que ela ligou quando a melhor amiga foi internada com Covid e para ele também a improvável primeira mensagem que dizia que a amiga de infância, depois de ser intubada e de quase morrer, estava recuperada. Foi para ela que ele, no começo da pandemia, gravou serenatas virtuais que enviava semanalmen­te por mensagem de vídeo. Em 2017, na turnê de Pepino di Capri pelo Brasil, Antonio levou a avó em uma das apresentaç­ões. Sentaram em uma mesa perto do palco e cantaram juntos todas as músicas com os olhinhos fechados.

Nessa relação, ela entra com o macarrão, e ele com o violão. Ela entra com o pão, e ele com os reparos na TV, no celular e no computador. Ela entra com a magia, e ele com a poesia. Eles não procuram se confirmar um no outro, mas se reinventar. Não estão atrás de sedimentar identidade­s, mas de alargar predicados, atributos e afetos. Não querem se reconhecer no outro, mas se perder. Testemunha­r essa história é ter a certeza de que, se os filhos ensinaram minha mãe a cuidar, foram os netos que a ensinaram a amar.

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Korean Central News Agency/AFP

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