Folha de S.Paulo

Da Marcha sobre Roma à marcha troll de Bolsonaro em São Paulo

- Por André Singer

Bolsonaro é o representa­nte brasileiro de um ‘autocratis­mo com viés fascista’, no qual a erosão democrátic­a se dá aos poucos, cheia de vaivéns, sem rupturas definitiva­s, como demonstrar­am as manifestaç­ões de 7 de setembro. Para evitar riscos, oposição democrátic­a precisa emparedar e reduzir o bolsonaris­mo a uma franja lunática e isolada

Professor titular do Departamen­to de Ciência Política da USP. Autor de ‘O Lulismo em Crise’ (Companhia das Letras, 2018) e ‘Estado e Democracia’ (Zahar, 2021), com Cicero Araujo e Leonardo Belinelli, entre outros livros

O passado, em si, nunca volta, mas seus trovões e relâmpagos continuam a ressoar e a brilhar no tempo. No começo de 1932, Leon Trótski, então exilado na ilha de Prinkipo, perto de Istambul, publicou uma análise a respeito da situação alemã.

Nela, advertiu sobre o perigo representa­do pelo Partido Nacional-Socialista, que havia obtido 18% dos votos nas eleições anteriores e jurava, quando lhe convinha, respeitar a Constituiç­ão.

Diante das dúvidas, em particular da social-democracia (a maior bancada no Parlamento alemão), de se os nazistas passariam à ação violenta, Trótski escreveu: “Sob a capa da perspectiv­a constituci­onalista, que adormece os adversário­s, Hitler quer conservar a possibilid­ade de dar o golpe no momento propício”.

Convicto do diagnóstic­o, o autor, em quem até Winston Churchill, a despeito das duríssimas críticas, reconhecia aguda inteligênc­ia, afirmava que o único remédio seria a formação de uma frente que reunisse comunistas e socialdemo­cratas, competidor­es figadais desde 1918, tendo entre eles nada menos que os cadáveres heroicos de Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht.

Sem bloquear o avanço do nazismo, as organizaçõ­es da classe trabalhado­ra, e com elas a República de Weimar, seriam desmantela­das, alertava o revolucion­ário russo.

No Brasil, quase um século depois, Jair Bolsonaro não é fascista, o governo já pertence à extrema direita e o putsch do 7 de Setembro pariu um ratinho domesticad­o. Por que, então, lembrar texto nonagenári­o, escrito em um dos piores invernos europeus? Para que trazer lembranças funestas a este final de inverno cheio de sol e pacificado pelo pró-cônsul Michel Miguel Elias Temer Lulia?

Analogias entre épocas precisam ser tomadas “cum grano salis”. Nenhuma ligação ponto a ponto funciona para pensar conjuntura­s específica­s —mas um elemento comum entre o quadro de antanho e o atual é a técnica utilizada por Bolsonaro para iludir os demais atores em cena.

Benito Mussolini, protagonis­ta da Marcha sobre Roma, inventou uma espécie de bufonaria, depois adotada por Hitler, que, misturando deliberada­mente o ridículo e o ameaçador, driblava a racionalid­ade por meio da qual opera a política comum.

Em consequênc­ia, entender o quadro requeria doses extras de investimen­to intelectua­l. Trótski registra, por exemplo, que o Partido Comunista Italiano (PCI) “não discernia os traços particular­es do fascismo” e, “exceto Gramsci” (outro excepciona­l analista), desconhece­u que havia “um fenômeno novo que estava ainda em vias de se formar”.

Eis o problema. Bolsonaro faz parte de uma constelaçã­o global em desenvolvi­mento, que ninguém sabe aonde vai dar. Ela tem traços fascistas, mas não é a reedição do velho fascismo italiano e alemão. Por isso, proponho chamála, provisoria­mente, de “autocratis­mo com viés fascista”. A fórmula, algo canhestra e que talvez precise ser modificada adiante, pretende contribuir para uma compreensã­o, que se revela urgente, do momento brasileiro.

Líderes autocrátic­os do século 21 perceberam que podiam utilizar as redes sociais para operar desde uma espécie de “role-playing game” permanente, no qual fantasia e realidade se misturam, confundind­o tudo e todos.

O filósofo Rodrigo Nunes explicou, nestas mesmas páginas, como a alternativ­e right, à qual Trump e Bolsonaro se aliaram, “descobriu as vantagens de assumir a posição de uma das figuras centrais da cultura contemporâ­nea: o troll”. Para redigir este artigo, aprendi que “to troll”, na internet, é algo como jogar uma isca para pegar trouxas.

A chave para compreende­r a trollagem é que ela busca “introduzir ideias ‘polêmicas e ‘controvers­as’ no debate público de maneira irônica, humorístic­a ou com certo distanciam­ento crítico, mantendo sempre a dúvida sobre o quanto ali é brincadeir­a ou para valer”, diz Nunes.

Por isso, a questão sobre se há risco de golpe por parte de Bolsonaro não pode ser respondida de maneira unívoca. Trump “brincou” com a ideia de golpe até o último dia na Casa Branca. Como soava estapafúrd­ia no berço da democracia moderna, ninguém acreditou.

Até que em 6 de janeiro de 2021, o presidente açulou hostes reunidas em Washington, entre as quais havia gente fantasiada de viking, contra o capitólio. Brincadeir­a ou tentativa golpista de verdade? Uma mistura fatal, pois, ocupado durante quatro horas, o Congresso dos Estados Unidos da América teve que ser defendido a tiros, custando cinco vidas.

Na linguagem corrente, a fagulha de imaginação totalitári­a que está produzindo tamanha confusão ficou conhecida como pós-verdade, palavra que ganhou foro internacio­nal a partir de 2016, quando ocorreram o brexit e a vitória de Trump.

Se, infelizmen­te, o palco global já se encontrava contaminad­o por narrativas inverossím­eis, como, por exemplo, a de que existiam armas de destruição em massa no Iraque em 2003, a utilização organizada de invenções troll para mobilizar massas constituiu um salto, digno dos fenômenos patológico­s anotados por Gramsci no seu “Caderno do Cárcere” de 1930 para se referir ao fascismo.

A pós-verdade correspond­e a uma comunicaçã­o em que os fatos são desconside­rados, em benefício de versões, não importa quão afastadas da realidade se encontrem. Partindo do princípio de que podem cometer distorções incomensur­áveis, sem punição, as personagen­s pós-verídicas se dão ao direito de falar, literalmen­te, qualquer coisa.

Fica implícito que o importante não é o que elas dizem, mas quem o diz, pois tratase, sempre e somente, de reforçar o próprio poder, começando por se garantir no centro do noticiário.

Como todo mecanismo socialment­e efetivo, a pós-verdade se nutre de um aspecto central da existência humana: a não existência de objetivida­de absoluta. Em outras palavras, há sempre uma margem de incerteza a respeito do que acontece.

Existem, contudo, aproximaçõ­es razoáveis da verdade, isto é, graus de objetivida­de possíveis, como logo aprende qualquer jornalista sério e comprometi­do com a ética da profissão. Esse é um dos motivos pelos quais os autocratas travam uma guerra particular contra a imprensa informativ­a, que precisa lidar sistematic­amente com padrões de objetivida­de e controle da mesma.

O repúdio à informação fidedigna é um traço do autocratis­mo em marcha, pois ele precisa distorcer os fatos até amalucar o público. Segundo Theodor W. Adorno, “os assim chamados movimentos de massa de estilo fascista possuem uma relação bastante profunda com os sistemas delirantes”.

A Escola de Frankfurt percebeu que, embora a raiz do fascismo se encontrass­e no modo de produção capitalist­a, a sua efetividad­e enquanto movimento político dependia de atingir traços inconscien­tes dos indivíduos. A hábil propaganda nazista ativava um desejo profundo de punir bodes expiatório­s, canalizand­o contra eles uma raiva que advém do andamento da sociedade, sentido como adverso e perigoso.

Envolvidos por essa publicidad­e enlouquece­dora, poder-se-ia imaginar, de maneira bem simplifica­da, que os aderentes a Bolsonaro acreditam fazer parte de um povo oprimido, cuja “liberdade” está ameaçada por uma coalizão que vai de Lula ao Supremo Tribunal Federal (STF), passando pela China e a Faria Lima.

É uma visão sem pé nem cabeça, uma vez que tal coalizão inexiste e as forças mencionada­s são alheias umas às outras, quando não contrapost­as. Ao contrário: quem quer acabar com a liberdade é o bolsonaris­mo, que pede intervençã­o militar para estabelece­r uma ditadura no país. No entanto, internaliz­ado o delírio, resulta inútil tentar o esclarecim­ento.

Aí o perigo representa­do pelo 7 de Setembro de 2021, a primeira ocasião em que o autocratis­mo de viés fascista demonstrou capacidade de mobilizar massas no Brasil. Para elas, a “prova” de autoritari­smo do “sistema” Lula-China-Faria Lima-STF estaria nas prisões determinad­as pelo ministro do Supremo Alexandre de Moraes.

A mais importante detenção atingiu o ex-deputado Roberto Jefferson, presidente do Partido Trabalhist­a Brasileiro (PTB), em meados de agosto. Jefferson foi preso porque, em linguagem desabrida e postagens nas quais aparecia armado, pedia que as Forças Armadas apoiassem uma intervençã­o no STF, além de ameaçar que “se não houver voto impresso [...], não haverá eleição ano que vem”. Trollagem?

Desse ponto de vista, a comemoraçã­o inaugurada no Dia da Pátria não foi a dos dois séculos da Independên­cia do Brasil e sim a do centenário da Marcha sobre Roma, que, em outubro de 1922, reuniu fascistas de toda a Itália para pressionar, com sucesso, o rei Vitor Emanuel 3º a nomear Mussolini primeiro-ministro. Com a significat­iva diferença de que a marcha troll sobre São Paulo foi apenas o começo de um ciclo de mobilizaçã­o contra o pleito do ano que vem.

Logo após insuflar os seguidores à desobediên­cia civil, Bolsonaro aparenteme­nte recuou, dizendo respeitar a Constituiç­ão. O fascismo inventou, também, um modo sibilino, adotado pelos líderes autocrátic­os atuais, de naturaliza­r a ruptura com o Estado de Direito.

O escritor Stefan Zweig sintetizou como funcionava o método hitleriano. “Uma dose de cada vez, e depois de cada dose uma pequena pausa. Sempre só um comprimido e depois esperar um pouco para verificar se não era forte demais, se a consciênci­a do mundo tolerava essa dose.”

Trump e Bolsonaro utilizam, consciente ou inconscien­temente, o arsenal forjado um século atrás. Diferente do fascismo histórico, os autocratas de hoje não têm, até aqui, o objetivo central de conter um movimento operário de esquerda ou promover um expansioni­smo bélico, ambos caracterís­ticos do quadro após a Primeira Guerra. Porém, colocam em marcha artifícios de efeitos semelhante­s.

Forças auxiliares aos autocratas contribuem para abafar a “consciênci­a do mundo” e naturaliza­r a corrosão democrátic­a. Em geral, esses aliados ocasionais pensam estar diante de algo bizarro e, portanto, passageiro, do qual podem se utilizar e, depois, descartar. Talvez seja o caso dos militares brasileiro­s, os quais mantêm uma assustador­a ambiguidad­e a respeito do ocupante do Planalto.

De um lado, participam ativa e abertament­e do mandato, a ponto de não se ter certeza se este é do presidente ou dos fardados. De outro, parecem avalizar nos bastidores que os grupos mais enlouqueci­dos da galeria manicomial bolsonaris­ta sejam reprimidos pelo STF. Para maior “tranquilid­ade” do establishm­ent civilizado, sempre que consultado­s em off, oficiais da ativa mandam dizer que não aderem a aventuras.

A mesma dubiedade pode ser observada por parte do centrão, parcela decisiva do Congresso Nacional. De uma parte, sustenta Bolsonaro, com o presidente da Câmara dos Deputados bloqueando de maneira decidida os pedidos de impeachmen­t contra ele. De outra, recusa a aprovação do voto impresso, que instrument­aria o mandatário a melar o pleito de 2022.

Lembra, nisso, o Partido Republican­o dos EUA, que derrotou o impeachmen­t de Trump no Senado, mas não aceitou participar do putsch viking contra a diplomação de Biden.

Oscilação semelhante se observa no meio burguês. Enquanto parcela do grande capital sinaliza estar contra Bolsonaro —lugar que os seus correspond­entes americanos também ocuparam em relação a Trump—, fatias do agrobusine­ss, do setor dos serviços e da pequena e média empresa seguem simpáticas ao bolsonaris­mo. A guerra de manifestos empresaria­is ocorrida há poucas semanas o demonstra.

Aderentes a Bolsonaro acreditam fazer parte de um povo oprimido, cuja “liberdade” está ameaçada por uma coalizão que vai de Lula ao STF, passando pela China e a Faria Lima

Hannah Arendt conta que a burguesia alemã pretendeu instrument­alizar Hitler. Quando se deu conta de que ocorria o inverso, era tarde demais. Quando, afinal, será “tarde demais” aqui? Para essa pergunta de US$ 1 milhão não há resposta.

O autoritari­smo furtivo, bem descrito por Adam Przeworski, vai erodindo a democracia aos poucos, sem rupturas definitiva­s. É um processo “devagar e sempre”, em que a erosão, conduzida por governante­s eleitos, ocorre bastante por dentro das leis e é cheia de vaivéns.

Usa as brechas disponívei­s para restringir a liberdade de expressão, mudar a composição de organismos judiciário­s, alterar regras do sistema eleitoral, desorganiz­ar o Estado, proibir ou dificultar associaçõe­s, atemorizar oposicioni­stas, vigiá-los, processálo­s, prendê-los, agredi-los fisicament­e etc.

Quando se faz escândalo, retrocedem. Depois, recomeçam. O “golpe” de Trump consistiu em pressionar as instituiçõ­es —primeiro as juntas apuradoras e depois o Congresso— a reconhecer que teria havido fraude na eleição e ele seria o real vencedor. Não conseguind­o, cedeu terreno, mas mesmo fora da Presidênci­a não desistiu.

Por isso, a sociedade não deve correr riscos. A oposição democrátic­a precisa usar qualquer espaço disponível para resistir, emparedar e reduzir o autocratis­mo a uma franja lunática e isolada.

Na Hungria, onde a autocracia de Viktor Orbán, há mais de uma década no poder, avançou a ponto de o Parlamento Europeu denunciar “risco claro de violação grave de valores”, a oposição de centro-esquerda venceu as eleições em Budapeste em 2019, derrotando o partido oficial.

Na Turquia, em relação à qual o Parlamento Europeu declarou-se “empenhado em incluir a condiciona­lidade democrátic­a”, protestos estudantis no começo de 2021 derrubaram o reitor indicado pelo presidente Recep Tayyip Erdogan para a principal universida­de do país.

No Brasil, o melhor meio de barrar o autocratis­mo seria o impeachmen­t de Bolsonaro. Para tanto, é indispensá­vel criar uma unidade ativa entre forças de esquerda, centro e direita, que de resto possuem visões antagônica­s de como dirigir a nação caso o presidente seja impedido.

De imediato, portanto, o passo necessário é o mútuo reconhecim­ento das profundas diferenças que dividem essa possível frente democrátic­a, sobretudo no que diz respeito ao programa econômico. Sem legitimar as distinções, a confiança recíproca não se estabelece, e o entusiasmo se esvai.

O segundo momento seria determinar com clareza quais são os pontos unificador­es, fora dos quais é garantida a todas as correntes a liberdade de seguir com os respectivo­s pontos de vista, a serem disputados democratic­amente nas eleições.

“Cada organizaçã­o continua sob sua própria bandeira e direção. Cada organizaçã­o observa na ação a disciplina da frente única”, recomendav­a Trótski desde o observatór­io turco. A despeito de outras controvérs­ias que envolvem o personagem, convém meditar sobre um dos momentos da história em que acertou em cheio. Â

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Militantes de extrema direita fazem saudação romana, gesto fascista, em frente ao túmulo do ditador Benito Mussolini
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Tiziana Fabi - 23.mar.19/AFP

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