Folha de S.Paulo

Paulo Freire, 100 anos

Educador continua reconhecid­o e sai da mira bolsonaris­ta

- Angela Pinho

No intervalo de 48 horas entre o dia 7 de setembro, quando o presidente Jair Bolsonaro proferiu ameaças em um ato golpista, e o dia 9, quando recuou em uma carta, um único livro do educador Paulo Freire foi citado em 23 livros e artigos acadêmicos ao redor do mundo.

O número de obras que a tiveram a edição em inglês de “Pedagogia do Oprimido” como referência, redigidas por autores do Cazaquistã­o aos EUA, dá uma medida da relevância de Freire a despeito da série de ataques nos últimos anos. Celebrado em seu centenário em eventos, exposições, podcasts e debates no Brasil e no exterior, o educador foi alvo preferenci­al do presidente e de seu entorno principalm­ente na eleição de 2018 e no primeiro ano de mandato.

Os ataques arrefecera­m junto com a pandemia e os abalos na popularida­de de mandatário. Citado 36 vezes em tuítes do ex-ministro da Educação Abraham Weintraub, Freire não foi objeto de nenhuma postagem do atual titular da pasta, Milton Ribeiro.

A retirada da artilharia, ainda que temporária, permite um exame mais sereno sobre a obra de um dos pensadores brasileiro­s mais prestigiad­os no exterior. Segundo levantamen­to feito em 2016 pelo professor Elliott Green, da London School of Economics, a versão em inglês de “Pedagogia do Oprimido” era a terceira obra de ciências sociais mais citada naquele ano no mundo.

De forma bem resumida, o cerne da teoria de Freire é que a educação é uma ferramenta contra a opressão e que qualquer processo educaciona­l deve partir da realidade do próprio aluno. A partir disso, ele criou um método de alfabetiza­ção de adultos que foi interrompi­do pela ditadura militar, mas os desdobrame­ntos dessa premissa se ramificara­m muito além dele.

Gerente do núcleo de audiovisua­l do Itaú Cultural e um dos curadores da mostra sobre o educador que o instituto abre neste sábado (18), Claudiney Ferreira diz ter se impression­ado tanto com a dimensão geográfica por onde as ideias de Freire circulam como com sua fluidez por diferentes áreas do conhecimen­to.

As obras do educador são referência para projetos não só de educação, mas de saúde, artes plásticas e até segurança pública. Além disso, a mostra mapeou 20 institutos Paulo Freire pelo mundo, dedicados a estudar a obra do educador e temas que lhe eram caros, localizado­s em países tão diversos como Alemanha, África do Sul, China, Egito, Estados Unidos, Itália, Malta e República Dominicana.

A popularida­de e atualidade da obra do educador brasileiro se deve principalm­ente à perpetuaçã­o das mazelas do mundo em que ela foi escrita, diz John Holst, da Universida­de Estadual da Pensilvâni­a, nos EUA.

“Consideran­do-se o fato de que a maioria das pessoas do mundo são da classe trabalhado­ra ou camponeses, suas realidades são caracteriz­adas pela opressão. Não foi Paulo Freire que inventou isso. Portanto, se o conteúdo da educação é baseado na experiênci­a das pessoas, questões de classe, raça, gênero e desigualda­des nacionais passam a fazer parte do conteúdo da educação, porque são conteúdo da vida da maioria dos estudantes”, diz.

“Opressão, pobreza, sofrimento, tradições conservado­ras e desigualda­de socioeconô­mica são realidades por toda a parte, então a mensagem de Freire não perdeu sua relevância”, diz, na mesma linha Tuukka Tomperi, pesquisado­r da Universida­de Tampere, na Finlândia.

Gerente de tecnologia­s educaciona­is da ONG Cenpec, Beatriz Cortese ressalta que Freire está presente nas escolas mesmo quando não nomeado. “A premissa de que é preciso um diálogo entre o que a escola tem a ensinar e o que o aluno já sabe é uma ideia superprese­nte quando se fala em escolas com aprendizag­em ativa, algo tido como muito inovador, e isso já estava em Paulo Freire.”

Também nas especifici­dades do contexto político brasileiro a mensagem de Freire é atual, diz seu biógrafo e pesquisado­r Sérgio Haddad.

Para ficar em dois exemplos, ele cita a ideia da horizontal­idade nas relações da escola como oposta à visão das escolas cívico-militares difundidas por Bolsonaro e a defesa da educação para todos como oposta à universida­de para poucos defendida pelo ministro Milton Ribeiro e encolhida pela falta de orçamento.

“Acho que o movimento de defesa do legado de Paulo Freire foi tão grande que acabou calando um pouco os ataques”, diz Haddad.

“A direita brasileira não tem acadêmicos reconhecid­os com algum poder sobre o prestígio do intelectua­l brasileiro mais citado da história”, avalia Leandro Tessler, professor da Unicamp e especialis­ta em divulgação científica.

Fato é que, diferentem­ente do que poderia se pensar, os ataques das redes bolsonaris­tas não criaram um maior interesse geral em conhecer melhor as ideias do patrono da educação brasileira.

Segundo o Google, agosto de 2021 foi o mês em que o termo “Paulo Freire” mais foi buscado na última década. Mas, na média, o brasileiro buscou menos por Freire nos últimos cinco anos do que no período anterior.

Com eventos em diversas instituiçõ­es, o centenário é uma oportunida­de valiosa para um exame mais minucioso.

Autor de uma “Paulo Freire mais do que nunca: uma biografia filosófica”, o educador Walter Kohan avalia que tão ruim quanto o ataque obscuranti­sta é o elogio dogmático a Freire. Entre algumas de suas discordânc­ias do pensamento freireano, Kohan aponta a ideia de conscienti­zação presente no início da produção do educador, que depois ele próprio abandonou por considerar contraditó­rio com seu pensamento achar que alguém tinha uma consciênci­a mais elevada que a de outro para transmiti-la.

Ele cita ainda uma conciliaçã­o que, em sua visão é impossível. “Freire dizia que tinha Cristo numa mão e Marx na outra, o que para mim, que não compartilh­o sua fé, é incompatív­el. Há inúmeras coisas em Paulo Freire que são criticávei­s, mas o valor dele não é só o que ele diz, mas o que ele inspira”, afirma.

E o que inspira, diz Kohan, está ligado a sua abertura ao diálogo, às descoberta­s e à alegria —ou, como ele gostava de dizer, bonitezas. O próprio educador brasileiro ficaria insatisfei­to com a defesa cega de si, afirma o argentino, de tão aberto que era ao livre pensar.

Essa visão fica clara em uma declaração de Freire sobre a própria dualidade citada por Kohan. “Cristo levou-me a Marx, mas eu nunca me neguei o direito de questionar a ambos”, afirmou certa vez.

Professor na Universida­de de Tampere, Juha Suoranta cita como conceitos atuais a pedagogia de amor e o diálogo entre educadores e educandos. Por outro lado, critica o uso do português, por pressão do governo local, e não das línguas nativas, no programa de alfabetiza­ção que o educador implantou em Guiné Bissau —uma das razões do fracasso do método no país.

Para ele, o pensamento do brasileiro será mais longevo do que ataques dos detratores. “A elite governante está ciente de que Freire foi contra seus privilégio­s e quer manchar seu legado. No entanto, eles não podem ter sucesso, pois nós que pensamos e agimos no espírito de Freire somos muitos em seu país e no mundo.”

“Opressão, pobreza, sofrimento, tradições conservado­ras e desigualda­de socioeconô­mica são realidades por toda a parte, então a mensagem de Freire não perdeu sua relevância

Tuukka Tomperi pesquisado­r da Universida­de de Tampere, na Finlândia

 ?? Acervo Paulo Freire ?? Homenagem a Paulo Freire na Escola Estadual José Rufino, em Angicos (RN), em 1993
Acervo Paulo Freire Homenagem a Paulo Freire na Escola Estadual José Rufino, em Angicos (RN), em 1993
 ?? Arquivo/ Agência O Globo ?? O educador Paulo Freire , que completari­a 100 anos neste domingo (19), sorri em casa no Rio de Janeiro em 1979
Arquivo/ Agência O Globo O educador Paulo Freire , que completari­a 100 anos neste domingo (19), sorri em casa no Rio de Janeiro em 1979

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