Folha de S.Paulo

A tarefa de cada um

Caberá à Câmara e ao Ministério Público dar sequência ao trabalho da CPI da Covid

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Sobre trabalho da CPI que investiga gestão da Covid.

De grão em grão, o avanço da Comissão Parlamenta­r de Inquérito que investiga as ações do governo Jair Bolsonaro no enfrentame­nto da Covid-19 vai criando novos constrangi­mentos para o mandatário.

Na quarta (15), os senadores decidiram convocar sua ex-mulher Ana Cristina Valle para depor, a fim de esclarecer ligações detectadas entre ela e um lobista envolvido com empresa que tentou vender vacinas ao Ministério da Saúde.

Ouvido pela CPI no mesmo dia, o advogado Marconny Albernaz de Faria foi questionad­o sobre a amizade com Ana Cristina e um dos filhos do presidente, Jair Renan, e sua atuação em favor da Precisa Medicament­os, alvo de buscas da polícia na sexta (17).

Seria apenas mais um dos atravessad­ores que há meses consomem as energias da comissão, não fossem os riscos criados pela sua proximidad­e com o atribulado círculo familiar do chefe do Executivo.

Ana Cristina é um dos alvos das investigaç­ões sobre o esquema das rachadinha­s, que assombram o presidente e seus filhos, e também chamou atenção recentemen­te ao se mudar com o filho para uma mansão em Brasília, cujo aluguel não se sabe como é pago.

Em outra frente, os senadores obtiveram um dossiê estarreced­or que acusa a operadora de planos de saúde Prevent Senior de esconder do público a morte de sete pacientes tratados com cloroquina, medicament­o sem eficácia comprovada que Bolsonaro promoveu.

A poucas semanas da data prevista para o encerramen­to de suas atividades, é improvável que a CPI tenha condições de esclarecer todos os indícios de desmandos com que se defrontou ao escrutinar as relações do Ministério da Saúde com seus fornecedor­es.

Mas ela cumpriu um papel essencial com esses esforços, dada a complacênc­ia com que o presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira (PP-AL), e o procurador­geral da República, Augusto Aras, tratam os desatinos de Bolsonaro.

A CPI já acumulou evidências suficiente­s para demonstrar a negligênci­a de Bolsonaro e seus auxiliares na gestão da crise sanitária, e um grupo de juristas liderado pelo ex-ministro Miguel Reale Júnior apontou crimes de responsabi­lidade cometidos pelo mandatário.

Ainda que conclua suas investigaç­ões deixando mais pontas soltas do que seria desejável, a comissão aumentará a pressão para que outras instituiçõ­es encarregad­as de fiscalizar o presidente se mexam.

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