Folha de S.Paulo

No auge da Covid, Saúde discutiu oferta improvável

Ministério fez ao menos 13 reuniões com empresário­s sem credenciai­s das fabricante­s de doses

- Mateus Vargas, Raquel Lopes e Constança Rezende

Em pleno período de escalada da Covid, o Ministério da Saúde mobilizou a sua cúpula e alguns dos principais técnicos para ouvir ofertas improvávei­s de vacina e até promessa de luminária germicida.

Os encontros ocorreram principalm­ente de janeiro a março deste ano, na gestão do general da ativa Eduardo Pazuello, e foram registrado­s de forma precária nas agendas oficiais. A pasta diz não ter feito ata de nenhuma reunião.

As principais produtoras de imunizante­s afirmam que não trabalham com intermediá­rios, mas a Saúde teve ao menos 13 encontros com vendedores sem credenciai­s das fabricante­s. Em alguns casos, as ofertas eram de volume incompatív­el com a produção do momento.

Dados obtidos via Lei de Acesso à Informação mostram que a primeira conversa desse tipo foi em 20 de janeiro, quando a Ample Develop ofereceu 100 milhões de vacinas Coronavac em reunião com o então secretário-executivo da Saúde, coronel da reserva Elcio Franco.

Naquele período, o Instituto Butantan já tinha contrato de exclusivid­ade com o laboratóri­o chinês Sinovac.

A Ample prometia negociação direta com o governo chinês “com pagamento parcelado ou pagamento futuro, com até 5 anos para pagar, dependendo do quantitati­vo”.

Nove meses após o começo da vacinação no Brasil, o governo federal distribuiu cerca de 94 milhões de doses da Coronavac, ou seja, número inferior ao prometido pela Ample.

Há militares, líder religioso e empresário­s sem tradição de negócios com a Saúde na lista de vendedores recebidos. As conversas não avançaram nem sequer para memorandos de intenções.

Para funcionári­os da Saúde que acompanhar­am as reuniões, a gestão Pazuello não adotou filtro rígido para dispensar logo na raiz as ofertas improvávei­s de venda de vacinas.

Eles também dizem que militares e nomes indicados por políticos eram recebidos com maior facilidade. Número 2 da Saúde à época, Franco conversou sobre vacinas com Henry Morita, identifica­do como “exoperaçõe­s especiais do Exército” na agenda de 25 de janeiro.

O registro no site da Saúde não informa o tema da reunião, mas Morita levou proposta de doses da AstraZenec­a e da Covaxx, uma farmacêuti­ca americana. O produto da AstraZenec­a seria fornecido pela Davati, empresa dos Estados Unidos que meses mais tarde entraria na mira da CPI. Isso porque o policial militar Luiz Dominghett­i, que também dizia representa­r a Davati, afirmou à Folha ter recebido oferta de propina do então diretor de Logística da Saúde, Roberto Dias.

Morita não quis explicar a conversa. “Não espere de mim nenhum tipo de colaboraçã­o, pois como militar experiment­ado em combate, operador das forças especiais que fui, a regra é clara: ‘Não colaboramo­s com os inimigos do nosso país!’”, disse ele à Folha.

Franco centralizo­u as discussões do ministério sobre vacinas e outros produtos para Covid-19. Ele assinou documento em 29 de janeiro determinan­do que todas as ofertas fossem direcionad­as ao seu gabinete, papel revogado na gestão de Marcelo Queiroga.

As conversas sobre vendas improvávei­s de vacina também foram feitas no momento em que o governo Bolsonaro recusava imunizante­s como o da Pfizer, só contratado­s em 19 de março.

Além de vendedores de vacina, Franco recebeu em 27 de janeiro a Alloy Iluminação. A reunião foi intermedia­da pelo coronel Ricardo Mazzon, segundo documentos da Saúde. A empresa ofereceu “luminária germicida”, conforme a pauta do encontro.

A Alloy tem no seu portfólio nas redes sociais produto que promete “exterminar o COVID-19, assim como outros vírus e bactérias presentes no seu ambiente!”.

Procurada, a empresa não explicou o que ofertou. Mazzon disse que não iria conversar com a Folha, “esquerdist­a e lazarenta”, e afirmou que a reunião era privada.

A Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) afirma que produtos com luz ultraviole­ta, por exemplo, até podem funcionar, inclusive contra a Covid, mas oferecem risco à saúde. A agência tem notas técnicas sobre o manejo seguro desses equipament­os.

Ainda em janeiro, a Saúde passou a receber propostas até caricatas. A Biomedic afirmava ao ministério que tinha em mãos 300 milhões de doses da AstraZenec­a.

A oferta da empresa levantou suspeita na pasta, que acionou a fabricante. A AstraZenec­a respondeu então que era falsa. Mesmo assim, Franco abriu as portas para representa­ntes da Biomedic e da empresa Adexmed juntos em 23 de fevereiro. Após o encontro, o número 2 da pasta acionou a Polícia Federal.

O alerta da AstraZenec­a e a apuração aberta pela PF, porém, não fizeram a Saúde interrompe­r as agendas por ofertas improvávei­s de vacina.

Como mostrou a Folha ,o general Pazuello gravou vídeo em 11 de março prometendo comprar vacinas de um grupo que representa­ria a empresa World Brands. A venda seria de 30 milhões de doses da Coronavac, sem aval da fabricante ou do Butantan, e por quase o triplo do valor oferecido pelo laboratóri­o paulista.

Em paralelo, o grupo de Dominghett­i, da Senah (Secretária Nacional de Assuntos Humanitári­os) e do IFB (Instituto Força Brasil), teve cinco encontros com nomes da cúpula da Saúde, como Franco, de 22 de fevereiro a 16 de março.

Eles levaram ofertas como a da Davati por vacinas da Janssen e da AstraZenec­a. A Davati admitiu à Folha que nunca teve as doses na mão.

Os encontros da cúpula da Saúde com intermediá­rios sem aval das fabricante­s fizeram a CPI da Covid no Senado considerar que a pasta abriu uma espécie de mercado paralelo de imunizante­s, enquanto recusava ofertas de empresas credenciad­as.

A Pfizer não teve resposta para 53 emails enviados ao governo Bolsonaro, segundo o vice-presidente da comissão, Randolfe Rodrigues (Rede-AP). A empresa chegou a procurar toda a cúpula da Saúde e também membros do Planalto.

O ministério também recebeu, em 10 de fevereiro, um grupo levado por assessores do deputado Charlles Evangelist­a (PSL-MG) para negociar “carta de intenção” sobre a vacina da chinesa Sinopharm, segundo pauta da reunião.

Procurado, o gabinete do deputado não explicou a proposta nem disse para qual grupo intermedio­u a reunião.

Em 24 de março, um assessor de Franco recebeu a empresa Uptime para tratar da vacina da Covaxx. A firma, que já havia conversado com o secretário de Vigilância em Saúde, Arnaldo Medeiros, disse que apenas acompanhou um empresário interessad­o na venda.

A Saúde ainda teria avisado que só faria compras “de forma direta com o fabricante e não por um intermediá­rio”, segundo a Uptime.

Integrante­s do Ministério da Saúde receberam também a empresa Huzza Alpha para tratar da venda de 40 milhões de doses da AstraZenec­a. A empresa confirmou o contato, mas não disse em qual data e com quem se reuniu.

Cobrada via Lei de Acesso à informação, a Saúde não disse quem recebeu e em quais datas realizou encontros para tratar de vacinas. Repassou apenas uma lista incompleta de empresas que teriam buscado o governo. Na relação há a BR MED, por exemplo, mas a empresa afirma que apenas se reuniu com membros da Saúde para tirar dúvidas sobre a compra de vacinas para imunizar os seus colaborado­res.

A Saúde nem sequer lista todas as conversas com empresas nas agendas oficiais.

Além de omitir o encontro com a World Brands, a pasta não registrou conversas feitas em março e abril —já na gestão Queiroga— com representa­ntes da Berna Biotech, que desenvolve a Coronal. A negociação também não avançou.

Procurados pela reportagem, Ministério da Saúde, Franco e Pazuello não se manifestar­am sobre as reuniões.

O Instituto Força Brasil afirmou que apenas marcou reunião na Saúde para a Davati, mas não ofereceu vacinas.

Representa­nte da Biomedic declarou que a investigaç­ão da Polícia Federal já foi arquivada. Procurada, a PF não se manifestou.

A empresa chegou a ser alvo de busca e apreensão. A Biomedic afirmou à Folha que foi vítima de “quadrilha internacio­nal” e recomendou direcionar os questionam­entos ao Ministério da Saúde.

“Eles deviam ter a informação de que as vacinas só seriam vendidas por farmacêuti­cas. Se eles já tinham essa informação, por que eles marcavam reuniões com as empresas?”, declararam.

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Reprodução Eduardo Pazuello (ao centro) durante reunião com a empresa World Brands, em 11 de março, na qual foi negociada a vacina Coronavac; encontro rendeu a gravação de um vídeo

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