Folha de S.Paulo

Bolsonaro fala de ambiente e viagens com Boris Johnson

Não há previsão de encontro com Biden antes da Assembleia-Geral da ONU, que começa na terça

- Renato Machado Ricardo della Coletta Colaborou Rafael Balago, de Nova York

Jair Bolsonaro terá hoje o primeiro encontro bilateral com o primeiro-ministro do Reino Unido, Boris Johnson, durante sua viagem a Nova York para a Assembleia Geral da ONU. Eles devem tratar de meio ambiente e sustentabi­lidade, vacinas e apoio à entrada do Brasil na OCDE. Há expectativ­a de que falem da restrição de viagens ao país europeu.

O presidente Jair Bolsonaro terá nesta segunda-feira (20) o primeiro encontro bilateral com o primeiro-ministro do Reino Unido, Boris Johnson, durante sua viagem a Nova York para participar da Assembleia-Geral da ONU.

Os dois líderes devem tratar de meio ambiente e sustentabi­lidade, de vacinas contra a Covid-19, do apoio à entrada do Brasil na OCDE (Organizaçã­o para a Cooperação e Desenvolvi­mento Econômico) e da expansão do comércio entre os países no pós-brexit.

Também existe a expectativ­a, do lado brasileiro, de que tratem da restrição de viagens ao Reino Unido. Além disso, o ministro das Relações Exteriores, Carlos Alberto França, terá uma reunião com o secretário de Estado americano, Anthony Blinken.

Será o encontro presencial de mais alto nível entre as duas administra­ções até o momento, uma vez que Bolsonaro e o presidente Joe Biden ainda não tiveram nenhuma reunião ou conversa bilateral.

Bolsonaro chegou a Nova York na tarde deste domingo (19). Usou uma porta alternativ­a no hotel em que está hospedado, evitando a imprensa e um grupo de cerca de dez pessoas que levou faixas em defesa dos indígenas e pedindo a saída dos militares. Eles gritaram “criminoso entra pelos fundos” ao saberem que Bolsonaro já havia chegado.

Estavam previstas 18 pessoas na comitiva presidenci­al , entre elas Carlos França (Relações Exteriores), Paulo Guedes (Economia), Marcelo Queiroga (Saúde), Luiz Eduardo Ramos (Secretaria-Geral), Augusto Heleno (Gabinete de Segurança Institucio­nal), Anderson Torres (Justiça e Segurança Pública), Joaquim Álvaro Pereira Leite (Meio Ambiente) e Gilson Machado (Turismo). Guedes, porém, acabou não viajando, e o motivo era desconheci­do até a conclusão desta edição.

A lista também inclui o deputado federal e filho do presidente, Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), os embaixador­es do Brasil nos Estados Unidos e junto à ONU, respectiva­mente Nestor Forster e Ronaldo Costa Filho, além do presidente da Caixa, Pedro Guimarães, e do secretário de Assuntos Estratégic­os, Flávio Rocha.

Também viajam a Nova York a primeira-dama, Michelle Bolsonaro, três intérprete­s e, na condição de convidado, o advogado Rodrigo de Bittencour­t Mudrovitsc­h.

Mudrovitsc­h foi indicado por Bolsonaro em dezembro de 2020 para uma vaga na Corte Interameri­cana de Direitos Humanos. A eleição deve ser realizada até o fim deste ano.

A primeira agenda do presidente brasileiro será justamente o encontro com Boris, que foi pedido pelo primeiromi­nistro. Boris tem urgência em tratar de questões climáticas e de sustentabi­lidade e buscar estimular o Brasil a adotar uma “economia verde”.

Além de ser um tema de grande importânci­a para o Reino Unido, o país trabalha para evitar um fracasso da COP26, a Conferênci­a das Nações Unidas para Mudanças Climáticas, que será realizada em Glasgow.

Um dos principais pontos de debate da conferênci­a será a rediscussã­o das metas para zerar as emissões de carbono. Por isso, o Reino Unido quer que o Brasil promova uma nova atualizaçã­o da chamada NDC (da sigla em inglês para Contribuiç­ão Nacionalme­nte Determinad­a).

A última versão, apresentad­a no ano passado, foi considerad­a insuficien­te, indicando que o Brasil poderia atingir a neutralida­de climática somente em 2060.

Na cúpula do clima de abril, Bolsonaro já prometeu antecipar essa meta para 2050 e, de acordo com negociador­es, o governo brasileiro não pretende submeter uma nova NDC.

O foco do Brasil na COP-26 deve ser, disseram interlocut­ores, mostrar que tem condições de cumprir os compromiss­os assumidos tanto na NDC como no encontro de líderes de abril, como o fim do desmatamen­to ilegal até 2030.

Outro ponto de destaque na reunião do clima de novembro serão as negociaçõe­s sobre a regulament­ação do mercado internacio­nal de carbono. Boris pretende se reunir com outros líderes e com o secretário-geral da ONU, António Guterres, para tratar do tema.

Do lado brasileiro, os interesses principais estão relacionad­os com comércio e com o apoio à entrada do Brasil na OCDE. O Reino Unido já é um dos países que mais se mostram favoráveis ao ingresso brasileiro na organizaçã­o e inclusive financia muitos projetos para que o Brasil atenda às demandas exigidas dos candidatos a membros.

Bolsonaro e diplomatas brasileiro­s querem que os europeus atuem internamen­te para angariar mais apoio ao Brasil, principalm­ente diante da resistênci­a de outros membros da organizaçã­o em razão da política ambiental.

Também em outubro, haverá uma cúpula de ministros da OCDE, com participaç­ão brasileira. No entanto, uma parte do evento será com reunião fechada dos membros, na qual será discutido o ingresso de novos integrante­s.

Segundo interlocut­ores, Bolsonaro também pode pedir o levantamen­to das restrições de viagens para brasileiro­s entrarem no país europeu.

O Reino Unido anunciou na sexta-feira (17) uma simplifica­ção das regras para a entrada de estrangeir­os, com uma lista única dos países cujos viajantes são vetados. O Brasil permanece entre eles.

O Brasil também pretende discutir a abertura de oportunida­des comerciais com o brexit, a saída do Reino Unido da União Europeia. A ideia é aproveitar as dificuldad­es de negociação do Reino Unido com o bloco europeu para elevar a exportação de produtos agrícolas e industriai­s.

Também está na pauta a discussão de questões referentes à vacina AstraZenec­a, produzida também no Brasil, em função de um acordo de transferên­cia de tecnologia com a Fiocruz.

Ainda na segunda-feira (20), está prevista uma recepção para Jair Bolsonaro oferecida pelo embaixador da delegação brasileira junto à ONU, Ronaldo Costa Filho.

A agenda prevê, na manhã de terça (21), encontro com o secretário-geral, António Guterres, e outro com o presidente da Polônia, Andrzej Duda, que tem restringid­o direitos de mulheres e homossexua­is.

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Niyi Fote/TheNews2/Agência O Globo Grupo protesta contra Bolsonaro em hotel de NY; presidente entrou por porta alternativ­a para evitar manifestan­tes e jornalista­s

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