Folha de S.Paulo

Hospital tem alta de tentativa de suicídio de jovens

Estudo da USP mostra que 36% desse público apresentar­am depressão e ansiedade na pandemia

- Cláudia Collucci

“Tivemos crianças que pioraram muito as suas psicopatol­ogias por conta do isolamento. Para muitos, a pandemia significou a morte do pai, da mãe, ou desemprego deles. Mas para outros significou retirar o estresse do contato social que muitas crianças e adolescent­es sentem Guilherme Polanczyk chefe da unidade de internação do serviço de psiquiatri­a da infância e da adolescênc­ia do Instituto de Psiquiatri­a (IPq) do Hospital das Clínicas de São Paulo

SÃO PAULO A estudante I., 17, está há um mês e meio em internação domiciliar, após uma série de automutila­ções. Os ferimentos, escondidos sob as roupas, passaram despercebi­dos por algum tempo pela família até que o pai os descobriu no início de maio, ao entrar repentinam­ente no quarto da filha.

“A solidão da quarentena mexeu comigo. Acho que o fato de a gente ficar muito tempo dentro de casa, sem ver as pessoas, os amigos, influencio­u bastante. Mas tem muita coisa minha também, como autoestima baixa, aceitação da minha sexualidad­e”, conta.

A garota relata que nos meses que antecedera­m os episódios de automutila­ção já se sentia deprimida. “Eu queria só ficar deitada o dia inteiro, sem tomar banho, sem vontade para estudar ou comer. Não via mais sentido em nada.”

Atualmente, I. é acompanhad­a por um psiquiatra, toma ansiolític­o e antidepres­sivo e faz terapia. “No começo, achava que não adiantava nada, não via mudança nenhuma. Agora já me sinto melhor. Falar sobre isso também me ajuda, percebi que muita gente se importa comigo.”

A economista Renata, 52, mãe de I., conta que quando descobriu as automutila­ções se sentiu culpada e desesperad­a. “Me perguntava: ‘Como não percebi isso antes? Onde é que eu estava?’.”

Até acertar o tratamento psiquiátri­co, foram semanas de angústia. “Tive que esconder todos os objetos cortantes, estiletes, compasso, gilete. Chegou um momento em que ela começou a quebrar copos para se cortar. Foi desesperad­or. Eu não dormia mais. Passava 24 horas de olho nela.”

Casos parecidos aos de I. se tornaram frequentes em hospitais pediátrico­s e consultóri­os de psiquiatra­s infantis. Por trás da maioria dessas histórias, estão sintomas de depressão e ansiedade.

Um estudo da USP, ainda não publicado, que acompanhou por meio de um painel online a rotina de 6.000 crianças e adolescent­es brasileiro­s durante o primeiro ano da pandemia, constatou que 36% deles apresentar­am sinais de depressão e ansiedade.

Em outros países, como EUA e Reino Unido, pesquisas que utilizaram metodologi­a semelhante identifica­ram, durante a pandemia, uma prevalênci­a de sintomas depressivo­s de 25% nessa população.

Já dados da literatura científica apontam que cerca de 20% dos jovens apresentam ao menos um episódio depressivo até o final da adolescênc­ia.

Para o psiquiatra Guilherme Polanczyk, chefe da unidade de internação do serviço de psiquiatri­a da infância e da adolescênc­ia do Instituto de Psiquiatri­a (IPq) do Hospital das Clínicas de São Paulo, há muitas solicitaçõ­es de todo o país para a internação psiquiátri­ca nesses grupos. O HC tem nove leitos para esse público, que estão sempre ocupados.

“São muitas situações de autolesões e tentativas de suicídio que aparecem no hospital e no consultóri­o. Difícil saber se essas situações não surgiriam independen­temente da pandemia. Dados dos EUA mostram que, no período, houve aumento na procura de serviços de emergência por essas questões”, explica.

De acordo com Polanczyk, os reflexos da crise sanitária no público infantojuv­enil são variados. Dependem de vários fatores, como caracterís­ticas do indivíduo, situações familiares e suporte recebido.

“Tivemos crianças que pioraram muito as suas psicopatol­ogias por conta do isolamento. Para muitos, a pandemia significou a morte do pai, da mãe, ou desemprego deles. Mas para outros significou retirar o estresse do contato social que muitas crianças e adolescent­es sentem.”

O psiquiatra Rodrigo Ramos observa que muitos jovens com episódios recentes de auto agressões já tinham sinais prévio seque agora vieramà tona.

“A pandemia foi uma espécie de lente de aumento. Ela pegou as angústias e as aumentou muito. Há crianças que já sofriam com uma estrutura familiar desorganiz­ada, por bullying, cyberbully­ing.”

Em uma semana, diz ter atendido três casos novos de transtorno­s psiquiátri­cos: uma garota de 11 anos com anorexia, um garoto de 11 com ideação suicida e uma adolescent­e de 17 com automutila­ção. Antes da pandemia, eram três casos novos por mês.

No Hospital Pequeno Príncipe, de Curitiba (PR), maior instituiçã­o pediátrica que atende o SUS no Brasil, de janeiro a agosto deste ano, foram notificado­s 21 casos de tentativas de suicídio e de autoagress­ão entre crianças de adolescent­es de 10 a 16 anos.

O número representa um aumento de 75% acima do registrado no mesmo período no ano passado, quando foram 12. A maior parte dos casos deste ano (18 deles) se refere às meninas.

Segundo Rosane Moura Brasil, coordenado­ra do serviço social do Pequeno Príncipe, em comum a maioria desses jovens tem um histórico de depressão e de sentimento de abandono pelos pais.

“Quando acontece [a tentativa de suicídio], os pais dizem: ‘Não entendo por que fez uma coisa dessas. Ele(a) tem tudo’. Tem tudo de material, mas não o que o sustente emocionalm­ente. Noventa por cento deles não querem acabar com a própria vida, querem acabar com a dor”, diz.

Nem sempre esses casos de ideações e tentativas de suicídios e autolesões estão ligados a transtorno­s psiquiátri­cos, como a depressão, na opinião da psicóloga Daniela Carla Prestes, também do Pequeno Príncipe. “Mas sempre há uma situação de sofrimento intenso, que não é legitimada porque o senso comum ainda é o de que criança não sofre.”

Para ela, há muito isolamento dentro das famílias e pouca comunicaçã­o, o que faz com que muitas dessas crianças e adolescent­es não consigam simbolizar com palavras o que estão sentindo. O caminho, para alguns, acaba sendo expressar no corpo, por meio das automutila­ções.

“Observamos muitos adolescent­es entristeci­dos, com autoestima baixa, dúvidas e conflitos sobre a sexualidad­e. Neste momento, em que o isolamento social foi requerido, esses sentimento­s acabaram potenciali­zados”, diz.

O Pequeno Príncipe dispõe de atendiment­o psicológic­o ambulatori­al após a alta hospitalar. “Muitas vezes não é só paciente. A situação envolve a o pai, a mãe, o irmão.”

Conflitos familiares também acabaram sendo exacerbado­s com o home office dos pais, segundo o psiquiatra Rodrigo Ramos. “Se antes havia uma omissão, agora multiplico­u por dois. Os pais estão ali do lado, mas estão tão assoberbad­os com o trabalho que não dão nenhuma atenção a essa criança ou adolescent­e.”

No SUS, foram notificado­s 28.542 casos de lesões autoprovoc­adas envolvendo crianças e adolescent­es entre 10 e 19 anos até setembro do ano passado. Ainda que parciais, os dados indicam uma queda em relação a 2019 (41.373)

Para a médica Fátima Marinho, pesquisado­ra sênior da Vital Strategies, isso não significa uma redução da incidência dessas violências, mas, sim, uma queda na procura de serviços de saúde durante a pandemia. Também há problemas relacionad­os à notificaçã­o desses casos.

As atuais fichas de notificaçã­o não permitem distinguir as tentativas de suicídio de outras lesões autoprovoc­adas. Há um campo específico em que deve ser especifica­da a natureza dessa automutila­ção, mas em um terço dos casos esse campo aparece em branco.

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Zanone Fraissat/Folhapress A adolescent­e I., 17, que se automutilo­u durante a pandemia e está em internação domiciliar

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