Folha de S.Paulo

Como todo poder, o de acusar pode ser corrompido

Autora de ‘O Conto da Aia’ compara cancelamen­to a totalitari­smo, discute críticas de viés racial a sua obra e as mudanças na literatura

- Walter Porto

Autora de “O Conto da Aia”, a canadense Margaret Atwood discute críticas de viés racial a sua obra e compara a cultura do cancelamen­to ao totalitari­smo. “O poder de acusar é um poder. E, como qualquer poder, pode ser corrompido.”

Afirma que as pessoas votam em figuras autoritári­as quando sentem que há “caos” e depositam nesses líderes a esperança de que imponham a ordem.

SÃO PAULO Margaret Atwood faz muitas perguntas sobre Jair Bolsonaro ao longo da entrevista de cerca de 40 minutos. Ao ouvir que o impeachmen­t se torna difícil porque o presidente controla a maioria da Câmara, ela retruca.

“Ele acha que controla”, diz a autora canadense. “Quando uma figura assim começa a parecer fraca, as pessoas fogem para as montanhas. Dizem ‘ah, eu não gostava tanto assim dele’. Muitos seguem pessoas [como Bolsonaro] porque têm medo do que aconteceri­a com elas se não seguissem.”

Aqui está uma escritora que pensou muito sobre figuras autoritári­as, tendo criado uma das principais referência­s sobre os horrores de uma autocracia no imaginário recente —“O Conto da Aia”, romance de 1985 de tintas feministas que virou série de sucesso na TV e ganhou uma continuaçã­o em “Os Testamento­s”, vencedor do Booker em 2019.

Atwood falou espontanea­mente sobre totalitari­smo algumas vezes durante a conversa, inclusive quando questionad­a sobre a carta publicada no ano passado na revista Harper’s. Na ocasião, ela e mais de 150 intelectua­is e escritores, incluindo Noam Chomsky, J.K. Rowling e Gloria Steinem, criticaram o clima de intolerânc­ia no debate público, o que ficou marcado como uma reação organizada à chamada cultura do cancelamen­to.

“A forma de combater ideias ruins é pela exposição, debate e persuasão, não tentando silenciá-las”, afirmava a carta. “O poder de acusar é um poder. E, como qualquer poder, pode ser corrompido”, diz agora Atwood, que fará uma palestra no ciclo Fronteiras do Pensamento em 27 de outubro.

A senhora. já disse ter uma regra pessoal, ao criar ‘O Conto da Aia’, de que tudo ali deveria ter precedente­s históricos. Sua ideia sobre o desfecho de Gilead em ‘Os Testamento­s’ também vem da história?

Sim, talvez seja um pouco otimista [risos]. Nós não vemos o fim de Gilead, nem o começo do fim, vemos o fim do começo.

Há dois polos opostos em nossos desejos. Um deles é ter ordem, para saber quais são as regras, de outro modo é só caos. Se há muito caos, qualquer um que diga que consegue resolver tudo, “é só fazer o que eu mando”, vai ter um certo número de seguidores. As pessoas não conseguem viver em caos contínuo.

Então queremos isso, mas também não queremos claustrofo­bia, constrição, viver com medo do Grande Irmão.

Caos contínuo soa muito como o que estamos vivendo no Brasil, com um presidente que faz ameaças quase diárias à democracia.

Isso é mais autoritari­smo que caos contínuo. As pessoas provavelme­nte o elegeram porque sentiam que a coisa estava caótica demais e ele ia pôr ordem. São figuras que se veem como reis.

Uma crítica que foi dirigida a ‘O Conto da Aia’ é que o livro se inspira numa opressão que mulheres negras sofreram nos Estados Unidos na escravidão, como estupro, desumaniza­ção e separação dos filhos, e a transforma em uma distopia para mulheres brancas.

É um regime de supremacia branca. Então todas as pessoas negras identificá­veis pelo regime foram colocadas em terras segregadas, que foi o que aconteceu durante o apartheid na África do Sul.

Esse tipo de tratamento de pessoas sob a escravidão não é limitado aos Estados Unidos dos séculos 17 a 19. Vem de muito antes, a escravidão foi a instituiçã­o que viabilizou a existência da Grécia e de Roma, por exemplo. Todas eram dependente­s de escravos.

É a mesma ideia de haver uma classe oprimida, na qual você instila a ideia de que são seres inferiores. É algo antigo. A diferença, nos Estados Unidos, é que isso estava ligado a raça. Enquanto no mundo antigo não era assim.

Os críticos argumentam que a senhora lida com o tema racial rápido demais no romance.

É isso que um regime de supremacia branca faria.

Quando você escreve um romance do ponto de vista de uma única pessoa, pode apenas incluir na narração o que essa pessoa poderia saber. Em Gilead, as mulheres não podiam ler livros, jornais ou revistas, a televisão era controlada. Onde [Offred, a protagonis­ta] conseguiri­a essa informação? Isso era um problema geral para mim no livro. O que ela saberia?

A senhora publica livros há cerca de 60 anos, e o mercado editorial foi historicam­ente dominado por homens...

Isso era muito tempo atrás [estica o “muito”].

Fico pensando se a senhora testemunho­u melhora significat­iva nesse sentido.

Eu diria uma mudança significat­iva. Nos anos 1960, eram basicament­e homens tomando as decisões. Eu mesma não sentia que estava sendo discrimina­da por ser mulher, porque os editores vão publicar o que acham que vai vender. No lado da crítica, havia coisas esquisitas, mas não no da edição.

É verdade que os editores que me diziam sim ou não eram homens, mas quem editava o livro de fato eram mulheres. Nos anos 1970, surgiram editoras em que só mulheres tomavam as decisões.

O dono da minha editora no Canadá nos anos 1960 era homem, hoje é mulher. Mas isso quer dizer que publicam livros diferentes? Sim e não. Ainda é verdade que editores publicam os livros que acham que conseguem vender.

Então se vê também uma mudança no leitorado. Será que foi longe demais para o lado oposto? Os leitores homens estão mal servidos? Deixo isso para você pensar. Quão balanceado está o cenário agora? E, se houver um desequilíb­rio, é porque os homens deixaram de ler?

Os escritores grandes nos anos 1950 e 1960 eram homens. Valorizava­m histórias de guerra e examinaçõe­s sociais como as de John Updike e Philip Roth. A mudança veio na década de 1970, em parte por causa do movimento de mulheres dizendo “queremos ler histórias em que mulheres não são só donas de casa, ou, se forem, queremos saber como isso é de verdade”.

E, hoje, com que se preocupam os grandes romances?

Nãosei [risos]. Outra coisa que aconteceu foi uma mudança em termos de gênero literário. Antes havia literatura séria desse lado e todo o resto daquele outro lado. Esse resto era tratado como sub-literário, algo com que nunca concordei. Mas era um truísmo na metade do século 20, e isso agora mudou — as pessoas se sentem livres para explorar gêneros como fantasia e ficção científica, sem medo de serem descartada­s.

Outro assunto que queria trazer é a ‘Carta sobre Justiça e Debate Aberto’, publicada na revista Harper’s, da qual a senhora foi uma das signatária­s...

Eu nem entendo por que isso é um assunto. O que você quer em vez de justiça e debate aberto, linchament­os?

Por que sentiu a necessidad­e de assinar o manifesto?

Por que eu não assinaria? Queremos democracia ou não?

Se não quer justiça e debate aberto, o que quer no lugar? Seguir a linha do partido, queimar bruxas? O que tem em mente como alternativ­a?

E, aliás, o poder de acusar é um poder. E, como qualquer poder, pode ser corrompido.

Houve reações de pessoas que acusaram os autores da carta de escrever de uma posição privilegia­da e lidar mal com críticas.

E daí? Isso não é um argumento, é uma crítica pessoal. É dizer “mimimi, você é uma pessoa ruim”. Não importa se você é ou não uma pessoa má, estamos falando de processos, regulações se quiser, e contenção de abuso de poder. A menos que se admita que o poder de acusar é um poder, não iremos a lugar nenhum.

A senhora já se sentiu pessoalmen­te constrangi­da por um clima de intolerânc­ia no debate público, algo que tenha levado à autocensur­a?

Todo mundo sente isso em algum nível. Somos seres humanos e, como todo ser vivo, estamos de olho nas nossas chances. Estamos sempre fazendo cálculos. É totalitari­smo quando ninguém se atreve a fazer esses cálculos publicamen­te —ou você vai para o exílio, ou toma um tiro na cabeça, ou é mandado para o gulag.

É uma das marcas do totalitari­smo quando ninguém ousa desafiar abertament­e o que está acontecend­o. Nas simulações de processo do stalinismo, os acusados nem sabiam do que eram acusados. “O que eu deveria dizer que fiz?”

Sente que estamos num clima especialme­nte intolerant­e?

Estávamos, talvez menos agora. Essas coisas vão ao extremo, as pessoas olham esse extremo e dizem “calma lá, não era isso que queríamos”. É sempre um pêndulo. O perigo é que se vá ao outro extremo, e a história será a mesma, mas do lado oposto.

Como quebrar o ciclo de abuso de poder seguido de vingança? Deve haver três elementos nessa equação. Verdade, reparação —o que fazemos para consertar os malfeitos?— e então reconcilia­ção.

Mas é simplesmen­te muito gratifican­te cortar a cabeça de alguém que cortou a cabeça de alguém de quem você gostava. Infelizmen­te.

Seus livros são impregnado­s com a ideia de que escrever é um ato de esperança. Até em ‘O Assassino Cego’, que está sendo reeditado agora no Brasil, há passagens em que a narradora reflete sobre quem estará lendo. Todo livro é um ato de esperança?

Sempre é. Mesmo se for um livro que desaprovam­os totalmente. “Mein Kampf”, por exemplo, é um livro, então não é bom dizer que livros são universalm­ente coisas maravilhos­as que espalham alegria.

Acho que você precisa ser motivado pela esperança, porque escrever é sempre viajar no tempo. Você espera que a jornada em que está embarcando agora, na sua página, vá viajar pelo tempo e chegar às mãos de outra pessoa mais tarde —e essa pessoa vai ser a leitora certa para esse livro. Muita esperança aí.

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Arden Wray - 20.ago.19/The New York Times

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