Folha de S.Paulo

Bolsonaro Contrafact­ual

- Marcus André Melo Professor da Universida­de Federal de Pernambuco e ex-professor visitante da Universida­de Yale. Escreve às segundas

O que teria acontecido com Bolsonaro na ausência da pandemia e dos problemas judiciais do clã presidenci­al? Os efeitos são distintos, mas estão interligad­os. Acrise sanitária represento­u, sim, um choque exógeno no sistem apolítico, enquanto o legado de problemas da justiça estava escrito empedra, embora marcado por incerteza e baixa visibilida­de nacional.

A pandemia criou uma janela de atenção sobre o comportame­nto do presidente, revelando à nação, atônita, um presidente sem qualquer empatia ou liderança em uma calamidade social inédita. No curto prazo, Bolsonaro nem sequer usufruiu da onda de solidaried­ade aos governante­s que a pandemia deflagrou na vasta maioria dos países.

A estratégia de jogara culpa nos go vernadores e prefeitos malogrou. Bolso na rotam pouco ganhou o crédito pela vacinação célere que acabou acontecend­o. A segunda onda teve impacto virulento, derrubando sua popularida­de, mas o problema agora é menos sanitário que econômico.

A janela de atenção prolongou seno tempo devido à CPI, que a magnificou, e reintroduz­iu o tema da corrupção na agenda.

Embora a pandemia tenha levado o auxílio emergencia­l aos grotões, reconfigur­ando a base social de apoio do presidente, o saldo político é francament­e negativo. A expansão brutal do gasto encolheu o espaço fiscal, e a estagflaçã­o resultante —que não é um fenômeno brasileiro e aflige muitos países—combinas e agora com acrise energética em uma tempestade perfeita.

Em suma, na ausência da pandemia, Bolsonaro provavelme­nte teria navegado sem muita turbulênci­a.

O exercício contra factual pode estender-se também aos problemas do clã familiar com ajustiça. S emeles, não teria ocorrido o colapso da coalizão com os setores que apoiaram a Lava Jato, a saída de Moro, e o rap prochement com o centrão para a formação de um escudo legislativ­o. Enfim as placas tectônicas das relações Executivo-Legislativ­o não teriam se movido.

A escalada do conflito com o STF neste quadro representa menos um ataque à democracia por parte de um autocrata do que demonstraç­ão de força visando a sobrevivên­cia do clã familiar. Mas Bolsonaro dá sinais de virar um pato manco: o conflito ameaça a aliança com o centrão na esteira de um possível efeito manada.

Sem os problemas na justiça, a principal tensão seria a convivênci­a da Lava Jato com o centrão. A formação de uma base congressua­l visaria apenas a aprovação da agenda de governo —de menor importânci­a dada a convergênc­ia programáti­ca em torno de reformas — e não um escudo legislativ­o.

A pandemia iluminou as ações do presidente no presente. O legado de malfeitos revelou o presidente no passado. A combinação foi explosiva.

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