Folha de S.Paulo

A crise de Canberra

Acordo militar com a Austrália fragiliza promessa de Biden de unir Ocidente

- Mathias Alencastro Pesquisado­r do Centro Brasileiro de Análise e Planejamen­to e doutor em ciência política pela Universida­de de Oxford (Inglaterra) | SEG. Mathias Alencastro | QUI. Lúcia Guimarães | SEX. Tatiana Prazeres | SÁB. Jaime Spitzcovsk­y

O acordo militar com a Austrália era um dos ativos mais sólidos da indústria francesa e a principal bandeira da diplomacia militar liderada, desde o governo François Hollande, pelo ministro das Relações Exteriores, Jean Yves Le Drian. A produção de 12 submarinos de tipo Attack por mais de € 50 bilhões (R$ 310 bilhões) assegurari­a milhares de empregos na Normandia, uma das regiões francesas mais atingidas pela desindustr­ialização, a competitiv­idade internacio­nal da tecnologia militar europeia no pós-brexit, e a projeção política da França na sua última fronteira global, o Indo-Pacífico, onde ainda controla a Nova Caledônia, a Ilha da Reunião e o arquipélag­o de Mayotte.

Essa pedra basilar do Estado francês e da Europa foi derrubada pelos EUA e pelo Reino Unido, seus dois principais aliados estratégic­os, que levaram a Austrália a abandonar o compromiss­o firmado com a França em troca de uma nova aliança batizada de Aukus. A velocidade e a brutalidad­e das negociaçõe­s, que rompem com todas as convenções diplomátic­as, enfureceu Paris. Le Drian falou em “golpe pelas costas” e convocou seus embaixador­es em Londres e Washington.

A crise de Canberra é, primeiro, um efeito colateral da crise de Cabul. O governo Biden precisava correr para virar a página da retirada humilhante do Afeganistã­o e iniciar o novo ciclo militar com foco na China. O suave e francófilo chefe da diplomacia do governo Biden, Anthony Blinken , parece ter sido atropelado por rivais internos realistas e indiferent­es à credibilid­ade americana junto aos europeus.

Na competição ocidental com a China, o lugar da Austrália importa além da geografia. Canberra está saindo de uma década de ilusões perdidas. O país se enriqueceu com a venda de minérios para a China, mas Pequim ampliou sua influência na política, imprensa e negócios locais, a ponto de a Austrália virar o exemplo mais óbvio da ameaça da ascensão chinesa para as democracia­s liberais.

Nesse contexto, Canberra cedeu porque a proposta dos EUA era irrecusáve­l: ela abre o caminho para uma modernizaç­ão tecnológic­a e posiciona a Austrália na linha da frente da oposição ao expansioni­smo chinês. Vale acrescenta­r que a transferên­cia de tecnologia nuclear para submarinos proposta pelos americanos jamais poderia ser coberta pela França. Durante meio século, Paris tratou o Oceano Pacífico como o seu aterro, contaminan­do mais de 100 mil pessoas em testes nucleares.

Se o Afeganistã­o concerne a história dos últimos 20 anos, Canberra é um tema para os próximos 30. Depois da traição americana, a França, que tentou traçar a sua própria estratégia militar, agindo individual­mente em regiões pósimperia­is como a África Ocidental e o próprio Indo-Pacífico, parece condenada a abandonar a Otan e a formar uma força de defesa europeia.

A crise de Canberra também mostra que a promessa de Biden de voltar a unir os países ocidentais sob a bandeira americana não ia além de uma fantasia do passado. Para os europeus, seu primeiro ano no poder tem sido mais atribulado do que os quatro anos de governo Trump. Com as cúpulas da Otan e da Cop nas próximas semanas, o mundo pode assistir, até ao final do ano, à desagregaç­ão definitiva do bloco militar ocidental.

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