Folha de S.Paulo

Heróis sempre foram homens brancos, diz 1ª negra patrona farroupilh­a

- Fernanda Canofre

PORTO ALEGRE Liliana Cardoso, hoje com 44, tinha 7 anos quando declamou versos típicos da cultura gaúcha pela primeira vez e entrou no meio tradiciona­lista. Aos 9, competiu no primeiro rodeio.

A menina, de uma família de cinco filhos que vivia na Cohab Costa e Silva, em Porto Alegre, descobriu essa cultura frequentan­do o CTG (Centro de Tradições Gaúchas) que os pais ajudaram a construir no bairro.

Trinta e sete anos depois, mãe de dois filhos e avó, a declamador­a, apresentad­ora e ativista cultural se tornou a primeira mulher negra patrona dos festejos farroupilh­as do Rio Grande do Sul, eleita por representa­ntes do governo estadual e da sociedade civil.

Os festejos farroupilh­as marcam as comemoraçõ­es em referência ao 20 de Setembro, data que lembra a Guerra dos Farrapos (18351845), conflito entre rebeldes e o Império, desencadea­do pela insatisfaç­ão com os impostos cobrados sobre os produtos do estado.

Apesar de ter crescido dentro de CTGs, Liliana reconhece que a presença de negros costuma ser minoritári­a nos salões e eventos.

“Acho que se deve à própria construção histórica que vem desde a Revolução Farroupilh­a de não legitimar o protagonis­mo do negro à frente da revolução, da representa­ção da força dos Lanceiros Negros que foram brutalment­e traídos, que não tem nomes nem estátuas. Os heróis sempre foram brancos e homens”, avalia.

Os Lanceiros Negros foram homens escravizad­os que lutaram como soldados farroupilh­as pela promessa de liberdade quando o conflito chegasse ao fim —a abolição da escravidão no Brasil só aconteceri­a 43 anos depois, em 1888.

Pelo menos cem deles foram mortos no Massacre de Porongos, quando foram pegos em uma emboscada, no Cerro dos Porongos. Os sobreviven­tes foram enviados ao Rio de Janeiro e seguiram escravizad­os.

Para marcar o seu mandato como patrona, Liliana quis colocar a presença negra no meio tradiciona­lista como pauta e organizou o livro “A matriz da cultura negra no gauchismo” (Pragmatha, 2021), que será lançado nesta segunda (20).

Ela conta que falar sobre a questão dos negros no gauchismo não é fácil. Alguns criticam, dizem ser mimimi, e outros reconhecem a importânci­a de tocar na ferida, mas não levam adiante, diz.

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