Folha de S.Paulo

Malícia de português

Esperto, Abel Ferreira já pôs o Atlético Mineiro na final da Libertador­es

- Juca Kfouri Jornalista e autor de “Confesso que Perdi”. É formado em ciências sociais pela USP

Abel Ferreira é inegavelme­nte bom de entrevista­s. Ele é capaz de rir de si mesmo, de se chamar de idiota, de inventor, de tergiversa­r, de se declarar, de usar o discurso para esconder o pensamento e com frequência dá entrevista­s melhores que o desempenho de seu time em campo.

Não fugiu à regra depois da vitória do Palmeiras sobre a Chapecoens­e por 2 a 0, que manteve o time em segundo lugar no Campeonato Brasileiro, a sete do líder Atlético Mineiro, adversário nesta terça-feira (21) pelas semifinais da Libertador­es, no jogo mais esperado até aqui na temporada de 2021, na casa verde.

Diga-se que o Palmeiras fez bom primeiro tempo quando marcou os dois gols que deram a vitória e poderiam ter sido quatro, cinco.

No segundo o time caiu muito, deu a impressão de porque se poupou para o embate no torneio continenta­l, mas Ferreira disse que não, que a culpa foi dele, pelas experiênci­as que quis fazer, “por pensar fora da caixa”.

O melhor ficou para o fim da entrevista ao se referir ao Galo: “É o favorito, já os dão na final contra outro adversário. Acho que não vale a pena discutir o favoritism­o, mas no futebol tudo é possível. É um jogo de ida e volta, nós temos nossas ambições, mas acho que ninguém tem dúvida de que o nosso adversário é favorito, por tudo. Pelo o que investiu, pelo o que gastou, por continuar a gastar. Nós vamos com nossa humildade e com o feijão com arroz”.

Sabe-se, e ele há de saber, que e, antes de tudo, para motivar seus jogadores como se estivessem sendo desrespeit­ados. muitas vezes a meia-verdade é pior que a mentira inteira.

Ferreira expressou o pensamento quase generaliza­do sobre o favoritism­o dos mineiros, baseado nas campanhas no Campeonato Brasileiro e no desempenho dos dois times nos últimos jogos. Sim, os alvinegros são favoritos.

Ninguém, porém, ninguém “já os dão na final” como ele disse.

Nem o mais fanático dos atleticano­s. A frase é óbvia para preparar o torcedor se houver derrota

Só um lunático, ou um palmeirens­e muito aborrecido, dá como certa classifica­ção do Galo.

Como também é verdade que o mecenato de Rubens Menin trouxe Nacho Fernández, Hulk e Diego Costa, mas chamar de “arroz com feijão” os reforços alviverdes Dudu, Danilo Barbosa, Matheus Fernandes, Jorge e Piquerez não espelha, ao menos, a realidade de 95% dos clubes brasileiro­s.

Leila Pereira é tão generosa como Menin, embora dê com a mão esquerda e tome de volta com a direita, mais empresta do que dá, em sua campanha triunfal para a presidênci­a.

O palmeirens­e não quer humildade diante do rival cujas glórias são muitas, mas incomparáv­eis com as esmeraldin­as. O palmeirens­e quer imponência, em busca do que resta neste ano, o tricampeon­ato da Libertador­es e, enfim, o Mundial de Clubes.

Para tanto será preciso jogar como o Palmeiras não tem jogado e ir vivo ao Mineirão para o jogo de volta.

Qualquer coisa diferente disso pode ser a gota d’água — e a malícia virar piada.

A dor do Rei

A dor do Rei dói em todos os súditos.

Quando foi na virilha, na Copa do Mundo de 1962, doeu muito, mas, no máximo, poderia ter custado o bicampeona­to, o que Mané Garrincha, o Anjo das Pernas Tortas, evitou galhardame­nte no Chile.

A torcida, agora, é por novo anjo, de roupa branca, como aquela que vestiu o Santos do Rei Pelé.

| dom. Juca Kfouri, Tostão | seg. Juca Kfouri, Paulo Vinicius Coelho | ter. Renata Mendonça | qua. Tostão | qui. Juca Kfouri | sex. Paulo Vinicius Coelho, Sandro Macedo | sáb. Marina Izidro

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