Folha de S.Paulo

Ciel quer desbancar Gabigol para ser artilheiro do Brasil

Atacante de 39 anos tem 32 gols em 2021, três a menos que o flamenguis­ta

- Alex Sabino

SÃO PAULO Jociel Ferreira da Silva não acredita que ser artilheiro é uma simples função dentro de campo. É ofício, uma vocação.

“Mais do que isso. Fazer gol é talento”, constata.

O pernambuca­no de Caruaru está preocupado nos últimos dias. Quer se recuperar logo de lesão na coxa esquerda. Acredita que talvez possa estar em campo na terça (21), quando o Sampaio Corrêa receber o Brusque, pela Série B do Campeonato Brasileiro.

Em 7º lugar, com 35 pontos, o time maranhense ainda tem o sonho de entrar no G4 e chegar à elite do país em 2022. Mas para Ciel, 39, há um objetivo a mais, que ele não diz ser mais importante do que o acesso, mas é óbvio ter se transforma­do em enorme objetivo. Ele está na disputa com Gabigol, do Flamengo, para ser o maior artilheiro do Brasil em 2021.

O goleador do atual bicampeão nacional anotou 35 vezes neste ano (que engloba parte da temporada 2020, adiada por causa da pandemia da Covid-19). Ciel está com 32.

“Eu trabalho sempre por uma chance de gol. Os times na Série B não criam tantas oportunida­des, então, quando aparecem, a gente tem de estar preparado. Gabigol é um atacante fantástico, mas para ele é diferente. Em uma equipe como a do Flamengo, com Arrascaeta, Bruno Henrique, Diego, chegam 10 bolas para ele por partida”, avalia.

Dos 32 feitos pelo veterano centroavan­te em 2021, oito acontecera­m na Série B. Pelo Sampaio Corrêa, ele anotou duas vezes no estadual. Neste ano, Ciel também atuou pelo Salgueiro (três gols na Copa do Nordeste e um no Pernambuca­no) e pelo Caucaia (10 gols na Copa Fares Lopes e oito no Cearense).

É por causa disso que ele tem se preservado fisicament­e o máximo possível. Isso significa decepciona­r as filhas Sara Yasmin, 12, e Sara Letícia, 7. As reclamaçõe­s são que o pai jamais tem tempo para fazer algo com elas. Mesmo quando está em casa.

“Eu fico de coração partido, mas tenho de descansar, fazer recuperaçã­o, estar pronto para a próxima partida. Elas me chamam para ir ao shopping, querem passar algumas horas na praia. Não posso. O futebol é a minha profissão e na minha idade, preciso me preservar”, completa.

A vida de artilheiro é recente na carreira de Ciel. Pela maior parte da sua trajetória de quase duas décadas, foi atacante que atuava pelas pontas. Assim jogou no Fluminense, em 2008, sua única experiênci­a em grande clube do sudeste brasileiro. No total, tem 20 equipes no currículo. Algumas delas com mais de uma passagem.

Atacante com vida construída no futebol do nordeste e do Oriente Médio, Ciel levanta a bola para si mesmo. Acredita que sua mudança é parecida com a de Cristiano Ronaldo. O astro do Manchester United começou pelos lados do campo e hoje, aos 36, é um finalizado­r de área.

“Eu observo o Cristiano [Ronaldo], a forma como ele se movimenta. O Messi também atua hoje em dia mais por dentro [pelo meio]. Fazer gol é dom e basta pegar isso para você. Antes eu não era assim. Não fazia muitos. Quando vim para dentro, apareceu uma cobrança maior sobre mim. Por isso que quando passo dois ou três jogos sem marcar, falo para os caras no vestiário que a bola tem de chegar mais”, explica.

A transforma­ção no gramado aconteceu no Caucaia, em 2019, quando o treinador pediu que ele treinasse como centroavan­te. A partir dali, não quis outra posição em campo. Antes, houve mudança fora das quatro linhas e esta foi mais significat­iva em sua vida.

Apenas em 2018, ao chegar ao Dibba Al Fujairah, dos Emirados Árabes, que Ciel se deu conta do problema com álcool e o quanto isso o prejudicav­a no futebol e no dia a dia. Ele credita a Alcinei, exjogador e integrante da comissão técnica dirigida pelo brasileiro Paulo Bonamigo no clube árabe, sua mudança.

Ciel se lembra de porres homéricos, de quando passou 72 horas a beber sem parar. Depois dirigia o carro até sua casa sem ter ideia de como chegou sem machucar a si mesmo ou outras pessoas. Credita a Deus nunca ter provocado um acidente sério.

Hoje em dia, o centroavan­te vai a escolinhas de futebol para dar palestras e falar sobre sua trajetória, conversa com atletas mais jovens, das categorias de base, sobre os perigos da profissão. Ele mesmo acredita que poderia ter ido mais longe se tivesse enfrentado seus problemas antes.

O jogador sente saudades de Dubai, onde morou. É grato porque foi na cidade que encontrou a cura para a bebida e fez seu pé de meia financeiro. Em uma das passagens pelo futebol árabe (foram quatro), se tornou amigo de Everton Ribeiro, meia do Flamengo e da seleção.

“Há uma amizade de família. Minha esposa conversa sempre com a dele. A gente morava um perto do outro. Quando tinha folga a gente marcava churrasco junto. Com ele do meu lado no ataque, eu faria mais gols que o Gabigol”, brinca Ciel.

O goleador cai na gargalhada quando questionad­o se Everton não poderia lhe dar uma mão para ter chance no rubro-negro, um dos melhores times sul-americanos.

“Ali, não dá. É muita fera! Escuto muito sobre o que aconteceri­a se não tivesse tido os problemas extracampo. Será que não chegaria à seleção brasileira ou jogaria nos principais times do país?”

Ele não tem resposta. Prefere pensar no que está à sua frente, não no passado. O futuro imediato é a chance de ser o artilheiro do Brasil.

“Tudo acontece por um motivo. Entrego nas mãos do Senhor. Será como Ele deseja.”

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