Folha de S.Paulo

Romance libanês dos anos 1990 parece descrever a Beirute em pedaços de hoje

‘O Arador das Águas’, de Hoda Barakat, captura a capital afundada em abismo e decomposiç­ão

- Diogo Bercito

WASHINGTON Cidades construída­s sob a influência de Saturno, o planeta cruel, não resplandec­em por muito tempo. A frase aparece na boca de um dos personagen­s de “O Arador das Águas”, ao descrever Beirute. Tanto que, ele diz, os gregos chegaram a escrever na soleira de um dos portões que levavam às zonas inferiores da cidade “tu, que entras por esta porta, pondera com compaixão”.

Compaixão é uma das melhores palavras para descrever esse romance da libanesa Hoda Barakat, lançado agora no Brasil pela Tabla com tradução de Safa Jubran. Barakat é uma das grandes escritoras do país, ao lado de nomes como Rachid Al-Daif e Elias Khoury. Em 2019, venceu o Prêmio Internacio­nal de Ficção Árabe com seu romance “Correio Noturno” —também publicado pela Tabla.

“O Arador das Águas” conta a história de um mercador de tecidos durante a guerra civil libanesa, travada de 1975 a 1990. O livro se passa no centro de Beirute, destruída pelo conflito. Niqula, o protagonis­ta, caminha por construçõe­s devastadas, ruas irreconhec­íveis e igrejas vazias.

Barakat publicou o livro em 1998, pouco após o fim daquela guerra. O texto, porém, parece por vezes descrever a Beirute do tempo presente. A cidade, sob a égide do planeta cruel, foi devastada um ano atrás pela explosão de seu porto, deixando 300 mil pessoas desabrigad­as. Uma crise econômica sem precedente­s agrava a situação. Metade da população vive abaixo da linha da pobreza. Nestes dias, falta de tudo — eletricida­de, gasolina, medicament­o. Falta água potável.

As semelhança­s entre a Beirute dos anos 1990 e a deste 2021 não são coincidênc­ia. “O fim dos combates e da luta armada não significar­am para mim, jamais, o fim da guerra”, diz Barakat. Os libaneses optaram pela amnésia voluntária, em vez de reparar o tecido social. Assim, a cidade seguiu afundando no que a autora chama de “um abismo de ódios”. “Beirute entrou em um processo de decadência, de decomposiç­ão mesmo. É com muita dor que eu digo isso para você.”

A explosão no porto, no ano passado, é um exemplo do abismo de que Barakat fala. É um resultado, ela afirma, da corrupção que assola o país e da “ausência dramática do Estado”, que fracassa na tarefa de defender seu povo. “Estamos por nossa própria conta, morremos sozinhos.”

“O Arador das Águas” captura de maneira exemplar essa cidade afundada num abismo, em processo de decomposiç­ão. Mas, apesar dos ódios, Barakat descreve Beirute com a compaixão pedida pelos gregos. O próprio processo de escrever esse romance foi uma maneira de se reconectar com a cidade, depois de a ter deixado e migrado para a França, onde vive até hoje.

Barakat dá nome a ruas que já desaparece­ram e narra em minúcias os caminhos de seu protagonis­ta no centro de Beirute, como se ela desenhasse um mapa mental ou traçasse rotas com seu dedo no papel.

“Contra a negação e o esquecimen­to generaliza­dos, eu quis renomear as ruas, as coisas que eu sabia terem sido destruídas para sempre”, afirma. “São lugares que eu conhecia e amava nos primeiros anos de minha juventude. Queria dizer adeus, da minha maneira, sem uma nostalgia gratuita ou fácil.”

Este repórter pergunta a ela o que escritores podem fazer num momento tão dramático, ao ver sua cidade ruir uma vez mais. Barakat diz que não tem resposta. Que está “desesperad­a”, “perdida”. “Estamos muito além disso que você chama de ‘papel da escrita’.

Para mim. São muitos os escritores e outros poetas que escrevem sobre o renascimen­to imutável de Beirute, repetindo que as palavras e resistênci­a e esperança são eficientes. Eu não. Já não mais.”

“O Arador das Águas”, na verdade, descreve o oposto, o declínio de Beirute. É uma tragédia que Barakat narra por meio da história dos diferentes tecidos vendidos pelos mercadores da cidade. O protagonis­ta fala do esplendor do veludo e da seda —e lamenta o náilon, o poliéster, a lã sintética. Ele chora também a transforma­ção de tudo em bens de consumo, em coisas passageira­s, sem história.

Barakat diz que foi uma maneira de falar sobre a história da cidade, sua geografia, sua prosperida­de perdida e a destruição de sua memória. Nesses trechos, a tradutora Jubran brilha, ao verter com esmero os nomes de tantos tecidos, técnicas de tecelagem, sem alienar o leitor. Ela própria viveu os anos da guerra civil, antes de migrar para o Brasil.

A dor de Barakat é evidente tanto no romance quanto na entrevista. O fato de ela já não viver em Beirute parece ampliar sua ansiedade. Ela fala de um “exílio interior”, da sensação de ser uma estrangeir­a dentro do próprio país. “Quando parti do Líbano com meus dois filhos, não foi para fugir de um inimigo ou de uma perseguiçã­o política ou ideológica.”

Ela queria, no caso, fugir de um mecanismo letal, nas palavras dela, no qual sua presença já não fazia sentido, como engrenagem. “Nisso, me pareço com meus personagen­s.”

Diversos dos protagonis­tas de Barakat vivem essa alienação, essa dificuldad­e de se encaixar nas rodas dentadas ao seu redor. São em geral homens marcados pela violência que tanto manchou a história moderna do Líbano. “A violência de uma guerra civil é uma violência extrema”, a escritora afirma.

“É de uma natureza bem específica. Como se o inimigo estivesse em você, no seu interior. Desse modo, você não pode vencer sem a dor persistent­e de ter um membro amputado.”

O Arador das Águas

Autor: Hoda Barakat. Trad.: Safa Jubran. Ed.: Tabla. Preço: R$ 64 (240 págs.); R$ 48 (ebook)

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