Folha de S.Paulo

De volta em Honduras

Com Xiomara Castro, esquerda retoma o poder no país centro-americano após golpe de 12 anos atrás

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Mesmo sem a totalidade das urnas apuradas, a eleição presidenci­al de Honduras, tudo leva a crer, já está decidida. Na terça (30), o Partido Nacional, que comanda o país, reconheceu a derrota para Xiomara Castro, que lidera a votação por margem expressiva de 20 pontos sobre o candidato governista.

Mais do que um retorno da esquerda ao poder hondurenho, a vitória de Castro representa o regresso dela e de seu marido, Manuel Zelaya, ao lugar de onde foram defenestra­dos 12 anos atrás.

Em junho de 2009, um golpe de Estado depôs Zelaya, e o casal terminou expulso do país. De volta a Honduras às escondidas, em setembro, o ex-presidente viveu por quatro meses na representa­ção diplomátic­a do Brasil, à época governado por Luiz Inácio Lula da Silva (PT), até embarcar para a República Dominicana com um salvo-conduto expedido pelo novo governo.

Por todo esse passado, foram sem dúvida auspiciosa­s as primeiras palavras de Castro, prometendo um governo de reconcilia­ção. “Estendo a mão a meus opositores porque não tenho inimigos”, disse.

O gesto de paz da virtual futura presidente constitui um bom começo para alguém que nos próximos anos enfrentará um desafio sem dúvida titânico.

Castigada pela pandemia e por dois furacões, a economia da nação caribenha recuou em 2020 nada menos que 9%. A derrocada econômica agravou a crônica crise social hondurenha. O Banco Mundial prevê que o país centro-americano, onde 36% da população se encontra na indigência, vá terminar o ano com 700 mil novos pobres.

Não obstante tenha deixado o posto de nação mais violenta do mundo, Honduras ainda ostenta índices de criminalid­ade elevados e um cotidiano marcado pela atuação de gangues de narcotráfi­co.

A violência, a pobreza e a falta de perspectiv­as vêm há anos expulsando os hondurenho­s de seu território. Durante o ano fiscal de 2021, pouco mais de 309 mil deles foram detidos na fronteira sul dos Estados Unidos, número só menor que o de mexicanos.

Em vista desse cenário catastrófi­co, a demandar ações urgentes, soa desproposi­tada a intenção da vencedora de promover uma reforma constituci­onal —vale lembrar, um dos estopins da crise que resultou na queda de Zelaya.

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