Car­ta de um be­bê para a mãe

Folha de S.Paulo - Saopaulo - - Mamãe Neura -

Que­ri­da mamãe, qu­an­do eu es­ti­ver pen­san­do na vida, pe­ço, por ob­sé­quio, que você não in­ter­rom­pa meu flu­xo de idei­as para, mais uma vez, me exi­bir às vi­si­tas. Tá, já sei ba­ter pal­mi­nhas, fa­zer o que você cha­ma de “char­mi­nho da ver­go­nha” e imitar a tos­se se­ca dos ve­lhos do prédio.

Mas e daí? Um dia, se você me dei­xar ser um be­bê que fan­ta­sia sos­se­ga­do, sem ter que agra­dar a to­dos o tem­po in­tei­ro, po­de­rei che­gar bem mais lon­ge que is­so.

On­tem, por exem­plo, des­co­bri co­mo é ma­ra­vi­lho­so mor­der o de­di­nho do meu pé, e você, cren­te que es­sa ex­pe­ri­men­ta­ção pseu­do­gas­tronô­mi­ca lhe per­ten­ce, estragou tu­do me­ten­do flashes de ce­lu­lar na mi­nha ca­ra.

Nem sem­pre es­tou a fim de sor­rir, en­tão, lhe im­plo­ro, pa­re de fa­zer “a bo­ca louca ba­bo­na com som de pei­do” na re­gião de meu abdô­men a cada tro­ca de fral­da. Sa­be hoje de ma­nhã? Eu estava na mi­nha, en­ten­de? Estava ten­tan­do li­dar com o papel de pa­re­de cheio de de­se­nhos de bi­chi­nhos que com­bi- na com meu len­çol cheio de de­se­nhos de ou­tros bi­chi­nhos que, por sua vez, lem­bra de­mais os bi­chi­nhos de olhos es­ta­te­la­dos me en­ca­ran­do das pra­te­lei­ras, e tu­do is­so é uma coi­sa doi­da de­mais, por­tan­to é nor­mal que eu fi­que meio sé­rio, meio an­gus­ti­a­do, di­ge­rin­do es­se mun­do e seus mi­lha­res de for­mas e co­res e chei­ros.

Mas você não su­por­ta me ver ca­la­dão, com o olhar fi­xo para o na­da, ab­sor­to pe­lo es­pe­tá­cu­lo da vida. Daí pro­vo­ca com os lá­bi­os an­si­o­sos meus os­si­nhos da cos­te­la, e só me res­ta dar as tais gar­ga­lha­di­nhas es­pe­ra­das.

Que­ri­da mamãe, acei­te meus si­lên­ci­os, eles são im­por­tan­tes pra mim. Meus cho­ros tam­bém! Se co­lo­que no meu lu­gar. Até mês passado eu acha­va que o jar­dim do prédio era o mun­do. En­tão você me apre­sen­tou uma pra­ci­nha, de­pois um par­que enor­me e fi­nal­men­te um shop­ping. Es­tá­va­mos in­do tão bem!

En­fim, não adi­an­ta vir com a mú­si­ca da fa­zen­di­nha se o que meus olhos ve­em é a pro­mo­ção da ce­bo­la em­pa­na­da do Out­back. Um bei­jo e #ta­mo­jun­to.

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