Os ju­ros se tor­na­ram uma cul­tu­ra tão ar­rai­ga­da no país que são apli­ca­dos até nas ven­das à vis­ta

Folha De S.Paulo - - Mercado - COLUNISTAS DA SE­MA­NA se­gun­da: Mar­cia Des­sen; ter­ça: Benjamin Stein­bru­ch; quar­ta: Ale­xan­dre Schwartsman; quin­ta: Lau­ra Car­va­lho; sex­ta: Pedro Luiz Pas­sos; sá­ba­do: Ro­dri­go Zei­dan; do­min­go:

O ES­TRES­SE po­lí­ti­co das úl­ti­mas se­ma­nas pa­re­ce ter se trans­fe­ri­do pa­ra a eco­no­mia. Exe­cu­ti­vo e Le­gis­la­ti­vo fi­ca­ram apa­ren­te­men­te pa­ra­li­sa­dos en­quan­to se dis­cu­ti­am prin­cí­pi­os cons­ti­tu­ci­o­nais no Su­pre­mo e a mídia se vol­ta­va pa­ra a co­ber­tu­ra da pri­são do ex-pre­si­den­te Lu­la.

Mi­nis­tros dei­xa­ram seus car­gos pa­ra par­ti­ci­par das elei­ções. De­sa­pa­re­ceu o dis­cur­so re­for­mis­ta e pre­va­le­ceu, em to­das as áre­as, a pre­o­cu­pa­ção com o pro­ces­so elei­to­ral que vai co­me­çar.

Nes­se cli­ma, a pi­or no­tí­cia é que a re­cu­pe­ra­ção da eco­no­mia não es­tá se dan­do no rit­mo que to­dos es­pe­rá­va­mos. No fim de 2017, ana­lis­tas con­si­de­ra­vam que já “es­ta­ria con­tra­ta­do”, co­mo se cos­tu­ma di­zer em eco­no­mês, um cres­ci­men­to de até 4%.

A es­ta al­tu­ra, po­rém, as pre­vi­sões es­tão sen­do re­vi­sa­das. A re­to­ma­da per­deu for­ça, e es­ti­ma-se que o PIB de­va cres­cer no má­xi­mo 2,8%. Em fe­ve­rei­ro, pe­la pre­vi­são do BC, o cres­ci­men­to foi pró­xi­mo de ze­ro (0,09%). A in­dús­tria, que avan­çou qua­se 3% em de­zem­bro, te­ve que­da de pro­du­ção de 2,2% em ja­nei­ro e li­gei­ra ex­pan­são de 0,2% em fe­ve­rei­ro.

Um in­di­ca­dor de que a re­to­ma­da per­deu for­ça es­tá tam­bém no va­re­jo, cu­jas ven­das caí­ram 0,2% em fe­ve­rei­ro. Ou­tro es­tá no ín­di­ce de de­sem­pre­go, que fi­cou es­tá­vel em tor­no de 12,5% du­ran­te to­do o pri­mei­ro tri­mes­tre, con­si­de­ra­dos os da­dos des­sa­zo­na­li­za­dos. Em ter­mos no­mi­nais, do Ca­ged, o nú­me­ro de pes­so­as ocu­pa­das no fim do pri­mei­ro tri­mes­tre era 1,7 mi­lhão su­pe­ri­or ao de um ano an­tes. Mas es­se avan­ço se deu em ra­zão de va­gas não for­mais, com re­mu­ne­ra­ção mais bai­xa e me­nor ren­da pa­ra consumo. O nú­me­ro de em­pre­gos com car­tei­ra as­si­na­da foi re­du­zi­do em mais de 600 mil va­gas no pe­río­do.

Não há quem con­tes­te, a eco­no­mia es­fri­ou. Eco­no­mis­tas enu­me­ram ene ra­zões pa­ra ex­pli­car es­sa mu­dan­ça de ten­dên­cia, en­tre elas o es­tres­se po­lí­ti­co e o ce­ná­rio ex­ter­no ame­a­ça­do por Do­nald Trump. Mas há uma ex­pli­ca­ção que co­me­ça unir or­to­do­xia e he­te­ro­do­xia: os ju­ros, sem­pre eles.

Em pou­co mais de um ano, a ta­xa bá­si­ca (Se­lic) caiu de 14% pa­ra 6,5%, ní­vel ain­da ex­tre­ma­men­te ele­va­do, ten­do em vis­ta a in­fla­ção anu­al abai­xo de 3% —em mar­ço, o IPCA foi pra­ti­ca­men­te ze­ro. A re­du­ção, po­rém, não se trans­fe­riu no rit­mo es­pe­ra­do pa­ra o cré­di­to, nem pa­ra em­pre­sas nem pa­ra con­su­mi­do­res.

Da­dos ofi­ci­ais do Ban­co Central in­di­cam que os ju­ros su­bi­ram no pri­mei­ro bi­mes­tre, na con­tra­mão da re­du­ção da Se­lic. A al­ta se de­ve ao au­men­to do spre­ad ban­cá­rio, que é a di­fe­ren­ça en­tre o cus­to de cap­ta­ção e a ta­xa de ju­ros nos em­prés­ti­mos. Ou se­ja, au­men­tou a mar­gem de lu­cro das ins­ti­tui­ções fi­nan­cei­ras.

Es­se é um pro­ble­ma dra­má­ti­co da eco­no­mia bra­si­lei­ra. Sem ju­ros ci­vi­li­za­dos, pa­ra in­ves­ti­men­tos e pa­ra o consumo, não ha­ve­rá cres­ci­men­to sus­ten­ta­do.

Fe­liz­men­te, as pró­pri­as au­to­ri­da­des re­co­nhe­cem es­sa dra­ma­ti­ci­da­de. São lou­vá­veis es­for­ços re­cen­tes pa­ra en­fren­tar o pro­ble­ma. O BNDES, por exem­plo, vai ofe­re­cer ta­xa fi­xa de ju­ros pa­ra em­prés­ti­mos de ca­pi­tal de gi­ro, uma ini­ci­a­ti­va li­mi­ta­da, mas na di­re­ção cer­ta. Os ban­cos anun­ci­a­ram uma au­tor­re­gu­la­men­ta­ção pa­ra ten­tar cor­tar os ju­ros do che­que es­pe­ci­al, que es­tão em in­crí­veis 324% ao ano.

No cré­di­to de va­re­jo, as ta­xas ro­dam em tor­no de 7% ao mês. Em mui­tos ca­sos, os ju­ros es­tão es­con­di­dos, quan­do a lo­ja ven­de, por exem­plo, em cin­co par­ce­las e não ofe­re­ce des­con­to pa­ra pa­ga­men­to à vis­ta. Os ju­ros se tor­na­ram uma cul­tu­ra tão ar­rai­ga­da no país que são apli­ca­dos até nas ven­das à vis­ta. Vi­ve­mos em um re­gi­me de “ju­ro­cra­cia” e não nos es­can­da­li­za­mos com is­so. BENJAMIN STEIN­BRU­CH, bvic­to­ria@psi.com.br

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