Le­ga­li­za­dos, abor­tos têm que­da em Por­tu­gal

País des­cri­mi­na­li­zou in­ter­rup­ção em 2007, mas só até a 10ª se­ma­na de gra­vi­dez; 379 bra­si­lei­ras abor­ta­ram lá em 2016

Folha De S.Paulo - - Cotidiano - Giu­li­a­na Mi­ran­da

Uma dé­ca­da após ter apro­va­do a des­cri­mi­na­li­za­ção do abor­to, Por­tu­gal en­fren­ta ten­dên­cia de que­da no nú­me­ro de pro­ce­di­men­tos re­a­li­za­dos e con­se­guiu ze­rar a mor­ta­li­da­de ma­ter­na nes­ses ca­sos.

O abor­to che­gou a ser a ter­cei­ra prin­ci­pal cau­sa de mor­te en­tre as mu­lhe­res portuguesas na dé­ca­da de 1970. Já no sé­cu­lo atu­al, fo­ram 14 mor­tes en­tre 2002 e 2007 —ano em que foi apro­va­da a des­cri­mi­na­li­za­ção. Des­de 2011, não hou­ve mais ne­nhum óbi­to no país re­la­ci­o­na­do à in­ter­rup­ção vo­lun­tá­ria da gra­vi­dez.

O nú­me­ro de complicações cau­sa­das por abor­tos in­se­gu­ros e ir­re­gu­la­res, co­mo per­fu­ra­ção do úte­ro e he­mor­ra­gi­as gra­ves, pas­sou pa­ra ín­di­ces re­si­du­ais em Por­tu­gal.

Lo­go após a mu­dan­ça na le­gis­la­ção, hou­ve uma li­gei­ra al­ta na quan­ti­da­de de abor­tos en­tre 2008 e 2011. Des­de en­tão, po­rém, hou­ve cin­co anos con­se­cu­ti­vos de di­mi­nui­ção.

Os da­dos mais re­cen­tes in­di­cam que, em 2016, hou­ve 15.416 abor­tos a pe­di­do da mu­lher. O nú­me­ro é 14,4% in­fe­ri­or ao de 2008 —pri­mei­ro ano com es­ta­tís­ti­cas com­ple­tas.

Es­tran­gei­ras residentes, in­de­pen­den­te­men­te de es­ta­rem re­gu­la­ri­za­das, tam­bém po­dem abor­tar na re­de pú­bli­ca. Em 2016, 379 bra­si­lei­ras abor­ta­ram em Por­tu­gal.

Em seu úl­ti­mo re­la­tó­rio, a Di­re­ção-Ge­ral da Saú­de de Por­tu­gal dis­se que, an­tes da des­cri­mi­na­li­za­ção, a quan­ti­da­de de abor­tos na po­pu­la­ção por­tu­gue­sa che­ga­va a 20 mil.

“Ao lon­go dos anos, es­te nú­me­ro nun­ca foi ul­tra­pas­sa­do”, afir­ma. O ór­gão diz que des­de 2011 há re­gis­tro de di­mi­nui­ção de in­ter­rup­ções da gra­vi­dez tan­to em nú­me­ros ab­so­lu­tos co­mo por mil nas­ci­dos vi­vos e que a ta­xa tem fi­ca­do abai­xo da mé­dia eu­ro­peia.

Pe­los úl­ti­mos da­dos com­pa­rá­veis dis­po­ní­veis, de 2014, a Eu­ro­pa ti­nha 228 abor­tos pa­ra ca­da mil nas­ci­dos vi­vos, contra 204 em Por­tu­gal —que atu­al­men­te tem ta­xa de 183.

En­ti­da­des de saú­de pú­bli­ca e di­rei­to re­pro­du­ti­vo as­so­ci­am os re­sul­ta­dos à ori­en­ta­ção so­bre mé­to­dos con­tra­cep­ti­vos de lon­ga du­ra­ção fei­ta obri­ga­to­ri­a­men­te pe­las mu­lhe­res que in­ter­rom­pem a ges­ta­ção no país.

“Em Por­tu­gal, ao con­trá­rio do que acon­te­ce em ou­tros paí­ses da Eu­ro­pa, a in­ter­rup­ção vo­lun­tá­ria da gra­vi­dez é tam­bém uma opor­tu­ni­da­de de acon­se­lha­men­to con­tra­cep­ti­vo. A mai­o­ria das mu­lhe­res es­tá mo­ti­va­da, ve­ri­fi­can­do-se uma ten­dên­cia mui­to su­pe­ri­or à da po­pu­la­ção em ge­ral pa­ra uso de mé­to­dos de con­tra­cep­ção de lon­ga du­ra­ção”, afir­ma a So­ci­e­da­de Por­tu­gue­sa da Con­tra­cep­ção.

O go­ver­no por­tu­guês diz que, em 2016, 94,5% das mu­lhe­res que se sub­me­te­ram a abor­to por op­ção es­co­lhe­ram uma for­ma de con­tra­cep­ção após se sub­me­te­rem ao pro­ce­di­men­to. Des­sas, 39% es­co­lhe­ram um mé­to­do de lon­ga du­ra­ção (dis­po­si­ti­vo in­trau­te­ri­no, im­plan­te con­tra­cep­ti­vo ou la­que­a­du­ra de trom­pas).

Se qui­se­rem, as mu­lhe­res po­dem sair do hos­pi­tal, lo­go de­pois do abor­to, já com um DIU (Dis­po­si­ti­vo In­trau­te­ri­no) ou im­plan­te hor­mo­nal.

An­tes proi­bi­do e su­jei­to a sanções le­gais, o abor­to foi le­ga­li­za­do em Por­tu­gal em um re­fe­ren­do em fe­ve­rei­ro de 2007, quan­do o “sim” ven­ceu com 59% dos vo­tos.

A apro­va­ção, no en­tan­to, foi re­ple­ta de po­lê­mi­cas. Em 1998, ou­tro re­fe­ren­do ha­via re­jei­ta­do a le­ga­li­za­ção do abor­to no país, com 50,9% dos vo­tos.

Em 2007, o go­ver­no do so­ci­a­lis­ta José Só­cra­tes con­se­guiu con­vo­car uma no­va con­sul­ta po­pu­lar. Com cer­ca de 90% da po­pu­la­ção de­cla­ra­da­men­te ca­tó­li­ca, a ques­tão re­li­gi­o­sa per­me­ou par­te do de­ba­te.

Atu­al­men­te, o abor­to é re­a­li­za­do no sis­te­ma pú­bli­co de saú­de sem cus­tos. Por­tu­gal, no en­tan­to, tem uma das le­gis­la­ções mais res­tri­ti­vas da Eu­ro­pa em re­la­ção à ida­de ges­ta­ci­o­nal, per­mi­tin­do a in­ter­rup­ção da gra­vi­dez ape­nas até a 10ª se­ma­na. Na Ho­lan­da, por exem­plo, o abor­to é per­mi­ti­do até a 22ª se­ma­na. Na Sué­cia, até a 18ª se­ma­na.

Cer­ca de 70% das in­ter­rup­ções de gra­vi­dez são fei­tas com me­di­ca­men­tos, sem ne­ces­si­da­de de ci­rur­gia. Nes­ses ca­sos, as mu­lhe­res po­dem op­tar en­tre fa­zer o pro­ce­di­men­to no hos­pi­tal ou em ca­sa.

Me­no­res de 16 anos pre­ci­sam de au­to­ri­za­ção es­cri­ta de um dos res­pon­sá­veis pa­ra re­a­li­za­rem o pro­ce­di­men­to.

Fran­cis­co Le­ong/AFP

Ma­ni­fes­tan­tes con­trá­ri­os à le­ga­li­za­ção do abor­to, em Lisboa, Por­tu­gal, em ja­nei­ro de 2007

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