Mú­si­ca entre as pa­re­des nu­as

Folha de S.Paulo - - Opinião - Ruy Cas­tro

rio de janeiro Es­ta se­ma­na, so­nhei que estava de novo na Mo­dern Sound. Para quem não sa­be, foi a me­lhor lo­ja de dis­cos do Bra­sil e, para mim, do mun­do —não tão gran­de qu­an­to as também ex­tin­tas me­gas­to­res de Los An­ge­les, No­va York e Tó­quio, mas mai­or que as gran­des lo­jas con­ven­ci­o­nais. E com uma van­ta­gem so­bre to­das: não ha­via um ti­po de mú­si­ca que ela não ti­ves­se para ven­der. Se você pro­cu­ras­se um CD de mú­si­ca da Is­lân­dia, a Mo­dern Sound ti­nha. Se pre­fe­ris­se a da Gro­en­lân­dia, também ti­nha. Jazz, clás­si­cos e ópe­ra, tu­do. E, em ma­té­ria de mú­si­ca brasileira, não ha­via um can­tor que não es­ti­ves­se re­pre­sen­ta­do por pe­lo me­nos um dis­co.

Du­rou 44 anos, de 1966 a 2010, sem­pre no mes­mo endereço: rua Ba­ra­ta Ribeiro, 502, em Co­pa­ca­ba­na. Fre­quen­tei-a pe­lo me­nos uma vez por se­ma­na, qua­se que desde a inau­gu­ra­ção, e ra­ra­men­te saí de mãos aba­nan­do. Se somar o que me custaram to­dos os LPs, CDs, la­ser discs e DVDs, na­ci­o­nais e im­por­ta­dos, que com­prei lá, de­vo ter dei­xa­do na Mo­dern Sound o equi­va­len­te a um ou dois apar­ta­men­tos. Ti­ve es­se pri­vi­lé­gio.

Era um pon­to de en­con­tro entre pes­so­as que gos­ta­vam de mú­si­ca. Fa­la­va-se de can­to­res, or­ques­tras, com­po­si­to­res, ma­es­tros, ar­ran­ja­do­res. Tro­ca­vam-se idei­as, in­for­ma­ções. Des­fru­ta­va-se o pra­zer da con­ver­sa entre pes­so­as de iguais sen­si­bi­li­da­des. Em 2000, Pedro Pas­sos, o pro­pri­e­tá­rio, acres­cen­tou-lhe um bis­trô com mú­si­ca ao vi­vo. Se eu des­fi­ar os can­to­res e mú­si­cos que se apre­sen­ta­ram em seu pal­qui­nho, você não acre­di­ta­rá. Po­di­am ser es­cu­ta­dos pe­lo pre­ço de uma Co­ca-Co­la.

No sonho, eu vol­ta­va à Mo­dern Sound, mas ela se re­du­zi­ra às pa­re­des do seu sa­lão, com o gigantesco pé direito e os al­tos e bai­xos de seu pi­so. To­dos os bal­cões de dis­cos ha­vi­am si­do re­ti­ra­dos. Eu ca­mi­nha­va por ela, mas era ago­ra uma lo­ja nua —co­mo tal­vez no seu úl­ti­mo dia, o dia em que ela dei­xa­ra de exis­tir.

E, no en­tan­to, no sonho, ou­vi­a­se mú­si­ca.

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