As en­tre­vis­tas es­tão cha­tas?

For­ma de ques­ti­o­na­men­to e es­co­lha de temas me­re­cem ser revistas

Folha de S.Paulo - - Eleições 2018 - Pau­la Ce­sa­ri­no Cos­ta

Desde o iní­cio ofi­ci­al da cam­pa­nha elei­to­ral, foram ra­ros os dias em que não ha­via al­gum can­di­da­to sen­do sa­ba­ti­na­do ou en­tre­vis­ta­do por al­gum jor­nal, rá­dio, TV ou si­te. Só a Fo­lha pro­mo­veu uma sé­rie de en­tre­vis­tas, duas ro­da­das de sa­ba­ti­nas —uma na pré-cam­pa­nha— e pre­pa­ra um de­ba­te, jun­to com UOL e SBT.

Se é ine­gá­vel que a su­pe­rex­po­si­ção dos can­di­da­tos fa­cul­ta ao leitor um mai­or co­nhe­ci­men­to de co­mo cada um de­les age e pen­sa, fica evi­den­te que há cer­ta re­pe­ti­ção de abor­da­gem e con­teú­do, nas res­pos­tas e nas perguntas.

A no­vi­da­de sau­dá­vel da atu­al ro­ti­na de de­ba­tes e sa­ba­ti­nas é, sem dú­vi­da, a che­ca­gem qua­se ime­di­a­ta da ve­ra­ci­da­de e da pre­ci­são das afir­ma­ções dos can­di­da­tos. Mas is­so não bas­ta.

Al­guns elei­to­res en­vi­a­ram men­sa­gens cri­ti­can­do a condução de en­tre­vis­tas tan­to de can­di­da­tos a presidente co­mo a go­ver­na­dor. Re­cla­ma­ram de que, após mui­ta fa­la­ção, não con­se­gui­ram con­cluir o que can­di­da­to se pro­pu­nha a fa­zer ca­so elei­to. Um leitor foi direto ao pon­to: “Es­sas sa­ba­ti­nas e en­tre­vis­tas es­tão muito cha­tas. To­dos pa­re­cem iguais. Can­di­da­tos e jor­na­lis­tas”.

O leitor re­cla­mou de lon­gos dis­cur­sos de jor­na­lis­tas em seus ques­ti­o­na­men­tos. En­vi­ou as re­gras da co­mis­são de de­ba­te in­de­pen­den­te dos EUA, que or­ga­ni­za os en­con­tros dos pre­si­den­ciá­veis norte-ame­ri­ca­nos. Elas su­ge­rem que as perguntas te­nham no má­xi­mo 20 se­gun­dos por­que o elei­tor es­tá in­te­res­sa­do na ar­gu­men­ta­ção e propostas dos can­di­da­tos, não na dos jor­na­lis­tas.

É um te­ma de­li­ca­do. Se o en­tre­vis­ta­dor se pro­põe a fa­lar mais do que o en­tre­vis­ta­do, ten­de a dificultar o mais im­por­tan­te: a exposição de idei­as da pes­soa que al­me­ja a Pre­si­dên­cia da Re­pú­bli­ca.

A ar­te de ques­ti­o­nar pres­su­põe perguntas di­re­tas e di­dá­ti­cas, mas também obri­ga ao impedimento de de­va­nei­os e pro­cras­ti­na­ções por par­te dos en­tre­vis­ta­dos. A ca­li­bra­gem de uma coi­sa e ou­tra re­ve­la o ta­len­to, mai­or ou me­nor, de quem en­tre­vis­ta.

Em to­dos os en­con­tros, dis­cu­tiu-se me­nos propostas e pro­je­tos do que alianças eleitorais, o mo­do de fa­zer po­lí­ti­ca e as acu­sa­ções de corrupção. Qu­an­do ha­via mais de um can­di­da­to, su­per­va­lo­ri­zou-se o ba­te-bo­ca e as pro­vo­ca­ções que do­mi­na­ram o ambiente.

A condução er­rá­ti­ca do de­ba­te elei­to­ral é, em gran­de me­di­da, res­pon­sa­bi­li­da­de da im­pren­sa. Exis­te ain­da, é fa­to, a in­fluên­cia das re­gras obri­ga­to­ri­a­men­te acor­da­das com os can­di­da­tos. Mas o que me pre­o­cu­pa é o qu­an­to os temas e as perguntas es­co­lhi­dos pe­la im­pren­sa es­tão em sintonia res­tri­ta com as pre­o­cu­pa­ções e ex­pec­ta­ti­vas de sua ex­ce­lên­cia, o elei­tor.

Pes­qui­sa Da­ta­fo­lha mos­tra que, ape­sar de corrupção e saú­de en­ca­be­ça­rem o ran­king de pro­ble­mas do país, na con­sul­ta so­bre qual de­ve ser a pri­o­ri­da­de do pró­xi­mo presidente, a área da saú­de se so­bres­sai, apontada por 41%. Os se­to­res vis­tos co­mo pri­o­ri­tá­ri­os em se­gui­da são educação (20%), desemprego (8%), violência (7%), economia (5%) e, fi­nal­men­te, corrupção (2%).

Pode pa­re­cer uma pla­ti­tu­de di­zer que saú­de e educação são os temas de fa­to re­le­van­tes para os bra­si­lei­ros. Se to­ma­das co­mo ex­pres­sões ge­né­ri­cas, con­cor­do. Mas saú­de e educação me­xem di­re­ta­men­te com a vida das fa­mí­li­as e das pes­so­as, têm re­fle­xos enor­mes na qua­li­fi­ca­ção dos em­pre­ga­dos e, por con­se­guin­te, no de­sem­pe­nho da economia, têm im­pac­to gi­gan­te nas po­lí­ti­cas e nos gastos pú­bli­cos.

Há uma enor­mi­da­de de ma­nei­ras in­te­li­gen­tes, atra­en­tes e ne­ces­sá­ri­as de a im­pren­sa tra­tar des­ses temas. Nem can­di­da­tos nem jor­na­lis­tas pa­re­cem pre­o­cu­pa­dos, in­te­res­sa­dos e pre­pa­ra­dos para dis­cu­ti-los.

Jor­nais, revistas, rá­di­os e TVs re­por­tam à exaus­tão a dra­má­ti­ca si­tu­a­ção de saú­de no dia a dia do no­ti­ciá­rio fo­ra do pe­río­do elei­to­ral, mas, nes­te mo­men­to de de­ba­te de propostas, esquecem de en­con­trar for­mas de abor­da­gem que obri­guem os can­di­da­tos a se po­si­ci­o­nar.

A Fo­lha tem pu­bli­ca­do uma sé­rie (“E ago­ra, Bra­sil?”) que se pro­põe a apre­sen­tar di­ag­nós­ti­cos e dis­cu­tir propostas que pos­sam con­tri­buir para o de­ba­te elei­to­ral, além do en­ca­mi­nha­men­to de po­lí­ti­cas ba­se­a­das em evi­dên­ci­as em­pí­ri­cas.

No fi­nal de agosto, o ca­der­no especial fo­ca­va a ques­tão da Saú­de e apon­ta­va dez gar­ga­los do setor. A lista se­ria um óti­mo pon­to de par­ti­da para o jor­nal fa­zer um can­di­da­to a presidente abor­dar temas es­pe­cí­fi­cos de vi­va voz e sem li­mi­te de tem­po.

Es­se pro­du­to de ex­ce­lên­cia po­de­ria ser me­lhor uti­li­za­do pe­lo jor­nal para qua­li­fi­car o de­ba­te elei­to­ral.

O país vi­ve a oi­ta­va elei­ção pre­si­den­ci­al após a re­de­mo­cra­ti­za­ção. As novas for­mas de comunicação e tec­no­lo­gi­as abrem inú­me­ras possibilidades, que es­tão sen­do pou­co apro­vei­ta­das. É pas­sa­da a ho­ra de a im­pren­sa as­su­mir papel mais ati­vo nas abor­da­gens e ques­ti­o­na­men­tos de con­teú­do pro­gra­má­ti­co, com cri­a­ti­vi­da­de, re­le­vân­cia e am­pli­tu­de.

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