Após queda, Dil­ma tra­ta disputa entre PT e PSDB em MG co­mo ‘lu­ta de­ci­si­va’

Folha de S.Paulo - - Eleições 2018 - Ca­ro­li­na Li­nha­res

No sa­lão de um clu­be em Be­lo Ho­ri­zon­te, na noi­te de se­gun­da (10), a ex-presidente Dil­ma Rous­seff (PT) so­be ao pal­co para dis­cur­sar a cen­te­nas de mu­lhe­res num even­to or­ga­ni­za­do pe­la sua cam­pa­nha ao Se­na­do de Mi­nas Ge­rais.

In­co­mo­da­da por ter ao seu lado ape­nas as prin­ci­pais de­pu­ta­das, ela or­de­na ao ce­ri­mo­ni­al que to­das as candidatas mu­lhe­res, do PT e do PC do B, se­jam cha­ma­das ao pa­lan­que. A ordem ge­ra bur­bu­ri­nho so­bre co­mo fa­zer to­do mun­do ca­ber ali.

“Eu que­ro to­das. Fim de pa­po”, in­sis­te Dil­ma em seu es­ti­lo “duro”. “A mí­dia di­zia que eu era uma mulher du­ra; se fos­se um ho­mem, se­ria fir­me”, afir­mou ao pú­bli­co em uma fa­la so­bre o ma­chis­mo no im­pe­a­ch­ment.

“E, co­mo eles não têm o me­nor com­pro­mis­so com a ló­gi­ca, eu era também uma mulher frá­gil”, com­ple­tou, ar­ran­can­do ri­sa­das em uma das ti­ra­das que re­pe­te em even­tos de cam­pa­nha.

Na­que­la noi­te, a ex-presidente lan­çou mão de ou­tras mar­cas re­gis­tra­das, co­mo di­gres­sões em dis­cur­sos de mais de meia ho­ra e ga­fes —er­rou três ve­zes o no­me da ex-BBB Mara Tel­les (PC do B), candidata a de­pu­ta­da.

Dil­ma li­de­ra a cor­ri­da para o Se­na­do com 26%, se­gun­do pes­qui­sa Da­ta­fo­lha di­vul­ga­da no úl­ti­mo dia 6. Uma das duas vagas em disputa na Casa é a do senador Aé­cio Ne­ves (PSDB), ex-go­ver­na­dor do es­ta­do que perdeu para a pe­tis­ta em Mi­nas na elei­ção pre­si­den­ci­al de 2014 e, des­gas­ta­do por de­nún­ci­as de corrupção, de­sis­tiu da re­e­lei­ção nes­te ano para ten­tar a Câ­ma­ra.

Aé­cio e seu su­ces­sor, An­to­nio Anas­ta­sia (PSDB), que es­tá em pri­mei­ro na cor­ri­da para o go­ver­no de Mi­nas se­gun­do o Da­ta­fo­lha, são sem­pre men­ci­o­na­dos por Dil­ma co­mo par­te do im­pe­a­ch­ment.

A es­tra­té­gia de na­ci­o­na­li­zar a cam­pa­nha num es­ta­do pri­o­ri­tá­rio do pon­to de vis­ta elei­to­ral também ser­ve a Fer­nan­do Pi­men­tel (PT), que ten­ta a re­e­lei­ção ao go­ver­no.

“Nós va­mos, aqui em Mi­nas, com­ba­ter es­se gol­pe que tem dois dos prin­ci­pais pro­ta­go­nis­tas. Um que perdeu a elei­ção, ou­tro que destruiu o orçamento e en­tre­gou ao Pi­men­tel um go­ver­no fa­li­do. Aqui vai se tra­var a lu­ta de­ci­si­va. Por­que, se nós não ga­nhar­mos aqui, nós per­de­re­mos o Bra­sil”, dis­se a ex-presidente em agosto.

Em­bo­ra aju­de a tra­zer vo­tos, Dil­ma é um en­tra­ve po­lí­ti­co para o PT mi­nei­ro pe­lo perfil au­to­ri­tá­rio. A Pi­men­tel, ami­go de mi­li­tân­cia es­tu­dan­til con­tra a di­ta­du­ra em BH, man­dou que es­co­lhes­se entre ela ou MDB em sua co­li­ga­ção. Quis, de to­do jei­to, ti­rar Miguel Corrêa (PT), can­di­da­to ao Se­na­do, de sua cha­pa de­pois do en­vol­vi­men­to na com­pra de in­flu­en­ci­a­do­res di­gi­tais.

A re­cla­ma­ção che­gou a Fer­nan­do Had­dad (PT), ago­ra can­di­da­to a presidente.

A subs­ti­tui­ção do ex-presidente Lu­la nas ur­nas foi um re­vés para Dil­ma, que não tem afi­ni­da­de com Had­dad e já foi criticada por ele. Mas os dois es­ti­ve­ram jun­tos em ato em BH e o pe­tis­ta co­me­çou a ser men­ci­o­na­do nas pro­pa­gan­das da ex-presidente —há um jin­gle que os une.

A Jus­ti­ça Elei­to­ral ain­da não apro­vou a can­di­da­tu­ra da pe­tis­ta, que foi con­tes­ta­da Dil­ma Rous­seff em re­fe­rên­cia aos tu­ca­nos Aé­cio e Anas­ta­sia por dez pes­so­as di­fe­ren­tes, in­cluin­do a fi­lha de Edu­ar­do Cunha (MDB). Eles ar­gu­men­tam que o im­pe­a­ch­ment dei­xou Dil­ma ine­le­gí­vel, mas a votação se­pa­ra­da na época man­te­ve seus di­rei­tos po­lí­ti­cos. O ca­so pode che­gar aos tri­bu­nais su­pe­ri­o­res.

A ex-presidente não pla­ne­ja­va vol­tar a pe­dir vo­tos, mas aten­deu a um plei­to de Lu­la, um dia an­tes de sua pri­são, em abril, para que se can­di­da­tas­se em seu es­ta­do na­tal.

“O Lu­la me cha­ma, eu estava ven­do com ele co­mo a gen­te fa­zia para ir ao sindicato dos me­ta­lúr­gi­cos, e diz: ‘Dil­mi­nha, vá pra Mi­nas’. [...] Nes­sa si­tu­a­ção, nin­guém tem direito de vol­tar pra casa e cuidar da vida, por mais ve­lho que você se­ja.”

Em­bo­ra a pre­o­cu­pa­ção se­ja per­ma­nen­te, hou­ve ape­nas um epi­só­dio de hostilidade até ago­ra. Numa ma­nhã de do­min­go, Dil­ma foi xin­ga­da na la­goa da Pam­pu­lha, novo ce­ná­rio de seus pas­sei­os de bi­ci­cle­ta, fei­tos an­tes em Brasília e em Porto Ale­gre.

Ten­ta co­lar a ima­gem de mi­nei­ra, ex­pli­can­do que saiu do es­ta­do por per­se­gui­ção da di­ta­du­ra. Já dis­se que Mi­nas “é um es­ta­do que não é co­xi­nha em sua alma”, mas a frase de efei­to que ar­ran­ca aplausos é: “Um gol­pe me ti­rou, o ou­tro me trou­xe de volta”.

Dil­ma pas­sou a mo­rar com a mãe de 95 anos em sua casa nos ar­re­do­res da Pam­pu­lha no fim de ju­nho, qu­an­do as­su­miu a can­di­da­tu­ra. Na oca­sião, afir­mou que não iria “dar mo­le para a im­pren­sa” —ao che­gar e sair de even­tos, ela evita jor­na­lis­tas.

Do Fi­at Fre­e­mont ao pa­lan­que e no ca­mi­nho de volta, é cer­ca­da pe­los qu­a­tro se­gu­ran­ças do Pla­nal­to a que tem direito e, mui­tas ve­zes, tem re­for­ço de ou­tros con­tra­ta­dos ou de vo­lun­tá­ri­os do MST. Os mi­li­tan­tes também a ro­dei­am na batalha por uma foto. No fim do dia de ce­le­bri­da­de, reclama de do­res e he­ma­to­mas pe­los pu­xões e aper­tos que recebe.

“O gol­pe tem dois dos prin­ci­pais pro­ta­go­nis­tas em Mi­nas: um perdeu a elei­ção, ou­tro destruiu o orçamento

Ro­ber­to Stuc­kert Fi­lho

A ex-presidente Dil­ma Rous­seff, em cam­pa­nha ao se­na­do pe­lo PT-MG

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