Mi­li­ta­res na po­lí­ti­ca pro­du­zem anar­quia

Qu­an­do não se sa­be o no­me do mi­nis­tro da Educação, mas co­nhe­ce-se o de ge­ne­rais, coi­sa ruim pode acon­te­cer

Folha de S.Paulo - - Eleições 2018 - Elio Gaspari Jornalista, au­tor de cin­co vo­lu­mes so­bre a his­tó­ria do re­gi­me mi­li­tar, entre eles “A Di­ta­du­ra En­cur­ra­la­da”

Hou­ve um tem­po em que se sa­bia o no­me dos mi­nis­tros da Educação e da Saú­de. De­pois, as pes­so­as ti­ve­ram que apren­der a com­po­si­ção do Su­pre­mo Tri­bu­nal Fe­de­ral e co­nhe­ce­ram também a pés­si­ma opinião que al­guns de­les têm de seus co­le­gas. Ago­ra co­me­ça-se a apren­der no­me de ge­ne­rais. Há o Villas Bôas, o Mou­rão e o Au­gus­to He­le­no e o presidente do Su­pre­mo Tri­bu­nal le­vou um qu­a­tro-es­tre­las da re­ser­va para sua as­ses­so­ria.

Mau si­nal. Faz tem­po, qu­an­do o presidente Er­nes­to Gei­sel de­ci­diu pro­mo­ver Jor­ge de Sá Pi­nho a ge­ne­ral de Exército, um cu­ri­o­so per­gun­tou-lhe quem era ele.

— É um gran­de ofi­ci­al e a pro­va dis­so é que você não sa­be quem é.

(Em 1984 Sá Pi­nho foi um dos ge­ne­rais do Al­to Co­man­do que im­pe­di­ram aven­tu­ras con­tra Tan­cre­do Ne­ves, mas pouca gen­te se deu conta.)

Qu­an­do se sa­be o no­me de ge­ne­rais, al­go estranho es­tá acon­te­cen­do. Fe­liz­men­te dois dos no­tá­veis de hoje es­tão na re­ser­va. Na­da a ver com o tem­po em que co­man­dan­tes de guar­ni­ções me­ti­am-se em po­lí­ti­ca. Em 2014 o ge­ne­ral Hamilton Mou­rão co­man­da­va a po­de­ro­sa tropa do Sul e me­teu a co­lher on­de não de­via e perdeu o co­man­do. Pou­co se fa­lou do epi­só­dio que em ou­tros tem­pos abri­ria uma crise. Ele mes­mo re­co­nhe­ce que “an­dei ex­tra­po­lan­do o ta­ma­nho da mi­nha ca­dei­ra e a au­to­ri­da­de do co­man­dan­te não pode dei­xar de ser exer­ci­da”.

Qu­an­do a con­fu­são é enor­me, ten­de-se acre­di­tar que a entrada dos mi­li­ta­res na ce­na po­lí­ti­ca é um re­mé­dio de úl­ti­ma ins­tân­cia. Não é. Qu­an­do os mi­li­ta­res ocu­pam a ce­na, aca­ba uma con­fu­são e co­me­ça ou­tra, a da anar­quia mi­li­tar.

Um gol­pe der­ru­bou D. Pedro 2º em 1889 e, dois anos de­pois, o vi­ce-presidente, ma­re­chal Flo­ri­a­no Pei­xo­to, so­prou o presidente-ma­re­chal De­o­do­ro da Fonseca para fo­ra do pa­lá­cio. Flo­ri­a­no go­ver­nou até 1894, es­ma­gou duas re­be­liões mi­li­ta­res e fu­zi­lou um ma­re­chal.

Du­ran­te o tu­mul­tu­a­do re­gi­me cons­ti­tu­ci­o­nal que foi de 1946 a 1964 ocor­re­ram qu­a­tro re­vol­tas de ge­ne­rais. O con­su­la­do mi­li­tar ou­tor­gou-se o primado da ordem e, mes­mo com censura e AI-5, as re­vol­tas também foram qu­a­tro: 1965, 1968, 1969 e 1977. No­ves fo­ra o Ri­o­cen­tro, de 1981.

Por mai­or que se­ja a con­fu­são exis­ten­te, qu­an­do se cha­mam os mi­li­ta­res para bo­tar ordem no cir­co, cria-se ou­tra con­fu­são, que nem eles são ca­pa­zes de pre­ver. O pro­je­to de ordem de 1964, com o ge­ne­ral Hum­ber­to Cas­tel­lo Bran­co à fren­te do pro­ces­so, du­rou exa­ta­men­te 12 horas. que o le­van­te estava vi­to­ri­o­so.

Cas­tel­lo, um ge­ne­ral de tin­tas fran­ce­sas, prestígio mi­li­tar e tra­di­ção le­ga­lis­ta, co­man­da­va o Es­ta­do-Mai­or do Exército e pa­re­cia ser o chefe da no­va ordem.

Na ju­ven­tu­de, Cas­tel­lo e Kru­el ha­vi­am si­do ami­gos, mas de­sen­ten­de­ram-se du­ran­te os com­ba­tes de Mon­te Castelo, na Itá­lia. Faltou pou­co para que o “Ale­mão” en­ces­tas­se “Ta­man­co”. Nun­ca vol­ta­ram às bo­as.

Kru­el ti­nha um inimigo no quar­tel-ge­ne­ral, mas ti­nha também um ami­go, o ge­ne­ral Arthur da Cos­ta e Silva, inex­pres­si­vo e mal fa­la­do po­rém au­da­ci­o­so. Nas horas em que tu­do con­fluía para a sa­gra­ção de Cas­tel­lo, os dois en­ten­de­ram-se.

Por volta das seis da tarde, Cos­ta e Silva estava na sa­la de Cas­tel­lo com o ge­ne­ral Er­nes­to Gei­sel e saiu para dar um telefonema nou­tro lu­gar. O te­nen­te-co­ro­nel Leô­ni­das Pi­res Gonçalves, que saia de um ba­nhei­ro, as­sis­tiu ao se­guin­te diá­lo­go entre Gei­sel e Cos­ta e Silva:

— Por que o se­nhor não vai as­su­mir o 1º Exército (atu­al Co­man­do Mi­li­tar do Les­te)?

— Eu vou as­su­mir es­sa coi­sa to­da, res­pon­deu Cos­ta e Silva. (O “coi­sa” vai por conta do ca­va­lhei­ris­mo de Leô­ni­das.)

À 1h da ma­dru­ga­da do dia 2, doze horas de­pois do telefonema co­me­mo­ra­ti­vo da vi­tó­ria, Gei­sel re­di­giu uma no­ta in­for­man­do que “o Ex­ce­len­tís­si­mo Se­nhor Ge­ne­ral Arthur da Cos­ta e Silva” as­su­mi­ra o co­man­do do Exército.

Pas­sa­dos dois anos e uma revolta mi­li­tar, ele em­pa­re­dou Cas­tel­lo e tor­nou-se presidente. Em 1968, em­pa­re­dou­se nou­tra revolta e bai­xou o Ato Ins­ti­tu­ci­o­nal nº 5.

Em mar­ço de 1964 mui­ta gen­te acha­va que era pre­ci­so ti­rar os mi­li­ta­res dos quar­téis, mas nin­guém pen­sa­va que a Re­pú­bli­ca aca­ba­ria na mão de Cos­ta e Silva, nem ele.

Eremildo, o idiota Eremildo es­tá mos­tran­do Pin­do­ra­ma a um cre­ti­no su­e­co que par­ti­ci­pa de um pro­gra­ma de in­ter­câm­bio in­ter­na­ci­o­nal de idi­o­tas. Até ago­ra não con­se­guiu res­pon­der a uma per­gun­ta do co­le­ga:

“Por que no Bra­sil há fi­las de pa­ci­en­tes no sis­te­ma pú­bli­co de saú­de e há fi­las de mé­di­cos ofe­re­cen­do-se para cuidar de ce­le­bri­da­des?”

Au­la de con­du­ta

Di­an­te da fre­né­ti­ca cor­ri­da dos mé­di­cos à ca­be­cei­ra de Jair Bol­so­na­ro (foram cin­co), va­le a lem­bran­ça de um epi­só­dio ocor­ri­do em 2014.

O ci­rur­gião ame­ri­ca­no Way­ne Isom estava de fé­ri­as qu­an­do re­ce­beu um telefonema. Era um co­le­ga cha­man­do-o para uma ope­ra­ção e deu-se o se­guin­te diá­lo­go:

— Es­tou de fé­ri­as.

— Mas é uma pes­soa muito im­por­tan­te.

— To­dos os pa­ci­en­tes são im­por­tan­tes, mas eu te­nho que jo­gar gol­fe às 9h.

— Mas eles que­rem você. (Isom era o mais re­no­ma­do ci­rur­gião car­di­o­vas­cu­lar do país.) — Quem é?

— Não pos­so te di­zer, é uma pes­soa im­por­tan­te.

— Se você não pode me di­zer, vou jo­gar meu gol­fe.

Isom in­di­cou um no­me e foi em fren­te. O ex-presidente Bill Clin­ton foi ope­ra­do com su­ces­so.

Ra­quel Dod­ge sal­vou Te­mer Dei­xan­do Brasília, Mi­chel Te­mer de­ve­ria cons­truir um pe­que­no ora­tó­rio para agra­de­cer uma gra­ça recebida da pro­cu­ra­do­ra-ge­ral Ra­quel Dod­ge.

Os ça­bi­os do Pla­nal­to de­ci­di­ram pror­ro­gar por 30 anos cin­co con­ces­sões de 13.000 km de fer­ro­vi­as. Ver­da­dei­ra gi­ra­fa, pois os con­tra­tos só ven­ce­ri­am em 2026 e a prorrogação iria até 2056.

O Mi­nis­té­rio Pú­bli­co Fe­de­ral sen­tiu chei­ro de quei­ma­do e em agosto Ra­quel Dod­ge entrou com uma Ação Direta de In­cons­ti­tu­ci­o­na­li­da­de jun­to ao Su­pre­mo Tri­bu­nal Fe­de­ral. Além dis­so, a pe­di­do do mi­nis­té­rio dos Trans­por­tes, o Tri­bu­nal de Con­tas da União pe­gou o ca­so.

A iniciativa da pro­cu­ra­do­ra em­pa­lhou a gi­ra­fa. Se o bi­cho an­das­se, Te­mer te­ria ou­tro far­do para car­re­gar. Para quem não lem­bra, sua en­cren­ca no porto de San­tos nas­ceu de um prorrogação de uma con­ces­são até 2035.

A gi­ra­fa da prorrogação das con­ces­sões mo­ve-se no es­cu­ri­nho de Brasília. Es­tá lon­ge do de­ba­te elei­to­ral.

Ju­li­a­na Freire

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