Pe­ti­ção de pa­dre por saí­da de car­de­al na Fran­ça atrai 100 mil

Phi­lip­pe Bar­ba­rin res­pon­de à Jus­ti­ça por ocul­tar abusos de me­no­res na Igre­ja

Folha de S.Paulo - - Mundo - Lu­cas Ne­ves

Um abai­xo-as­si­na­do pe­din­do a renúncia de um car­de­al francês acu­sa­do de aco­ber­tar ca­sos de pedofilia envolvendo sa­cer­do­tes co­le­tou, em me­nos de um mês, mais de 104 mil as­si­na­tu­ras. Mas, para além da ade­são ma­ci­ça, cha­ma aten­ção que um dos ide­a­li­za­do­res da pe­ti­ção on­li­ne se­ja um pa­dre, o também francês Pierre Vig­non, 64.

Na car­ta que em­ba­sa o abai­xo-as­si­na­do, ele se di­ri­ge a Phi­lip­pe Bar­ba­rin, arcebispo de Lyon, em tom in­qui­si­ti­vo. Es­cre­ve que não quer ser visto co­mo cúm­pli­ce de­le e pe­de, por is­so, que o su­pe­ri­or en­tre­gue seus dois tí­tu­los o mais rá­pi­do pos­sí­vel.

“Es­ta­mos em um da­que­les mo­men­tos cru­ci­ais em que gran­des ges­tos se im­põem”, ale­ga Vig­non, para mais adi­an­te pon­de­rar: “En­tre­gar sua de­mis­são [das fun­ções] de car­de­al e arcebispo cons­ti­tui­ria, sem dú­vi­da, uma mor­te so­ci­al. Por ou­tro lado, qual não se­ria sua ele­va­ção de espírito.”

O pa­dre pe­de em se­gui­da que seus co­le­gas de cle­ro ra­ti­fi­quem o do­cu­men­to, as­sim co­mo “to­dos os membros da Igre­ja cons­ci­en­tes da im­por­tân­cia do mal fei­to às vítimas de abusos de to­da ordem”.

O car­de­al é acu­sa­do de encobrir abusos se­xu­ais per­pe­tra­dos pe­lo pa­dre Ber­nard Prey­nat, do fim dos anos 1970 ao co­me­ço dos 1990, con­tra ao me­nos 70 me­no­res de uma ci­da­de da Gran­de Lyon. Ele te­ria ain­da ocul­ta­do crimes de ou­tros qu­a­tro sa­cer­do­tes.

Bar­ba­rin de­ve ser jul­ga­do em janeiro de 2019. À im­pren­sa fran­ce­sa, seus as­ses­so­res dizem que o arcebispo ofe­re­ceu sua renúncia em 2016 ao papa Fran­cis­co, que a re­cu­sou.

Se ele for ino­cen­ta­do, não pa­re­ce­rá in­jus­ta a “du­ra” pú­bli­ca da­da por Vig­non no fim de agosto? “Res­pei­to a Jus­ti­ça, mas um cristão pre­ci­sa re­al­men­te da sen­ten­ça de um tri­bu­nal co­mum para sa­ber qual o seu de­ver?”, re­tru­ca o pa­dre, em en­tre­vis­ta por te­le­fo­ne.

Para ele, o pro­ble­ma é o arcebispo nun­ca ter ace­na­do para as vítimas. Aos olhos de Vig­non, desde que eclo­di­ram as de­nún­ci­as, Bar­ba­rin pre­fe­riu ado­tar “a atitude de­fen­si­va de um chefe de em­pre­sa, em vez da de um pas­tor que ten­ta pro­te­ger seu re­ba­nho”.

“Os crimes po­dem estar pres­cri­tos, mas não a dor das vítimas”, diz o pa­dre, lo­ta­do há 38 anos na di­o­ce­se de Va­len­ce (a 100 km de Lyon) e mo­ra­dor de Saint-Mar­tin-en-Ver­cors.

Ali, o te­le­fo­ne de casa co­me­çou a to­car uma ho­ra de­pois de a pe­ti­ção ser pu­bli­ca­da on­li­ne. Lo­go a pra­ça cen­tral se en­cheu de jor­na­lis­tas atrás do au­tor da re­pri­men­da.

“Não sou um re­vo­lu­ci­o­ná­rio, não que­ro der­ru­bar a Igre­ja, mes­mo la­men­tan­do al­guns de seus de­fei­tos, co­mo o cle­ri­ca­lis­mo”, afir­ma. “Mas a experiência mos­tra que os bis­pos só agem qu­an­do as his­tó­ri­as che­gam à mí­dia. Se­não, são só pa­la­vras bo­ni­tas.”

E exa­ge­ra: “É qua­se co­mo se os jor­na­lis­tas fos­sem en­car­re­ga­dos por Deus de aju­dar a Igre­ja a fa­zer a lim­pe­za que ela não faz sozinha”.

O pa­dre se apro­xi­mou das vítimas de abusos co­me­ti­dos por re­li­gi­o­sos ao lon­go dos anos de tra­ba­lho no tri­bu­nal ecle­siás­ti­co in­ter­di­o­ce­sa­no, on­de atua co­mo con­se­lhei­ro.

Dois lí­de­res de as­so­ci­a­ções que re­pre­sen­tam es­sas pes­so­as aju­da­ram a di­fun­dir a car­ta aberta a Bar­ba­rin.

Vig­non se diz otimista so­bre a trans­for­ma­ção que a “li­ber­ta­ção da palavra” (o acú­mu­lo, ao lon­go das úl­ti­mas dé­ca­das, de cen­te­nas de tes­te­mu­nhos so­bre abusos per­pe­tra­dos por membros do cle­ro) pode en­se­jar nas fi­lei­ras ecle­siás­ti­cas.

“Es­sa crise vai per­mi­tir que a igre­ja se des­vie do ru­mo que tra­di­ci­o­na­lis­tas ten­ta­ram lhe dar nos úl­ti­mos dez anos do pa­pa­do de João Paulo 2º e sob Bento 16”, avalia ele.

“Eles es­tão per­den­do a batalha. Os su­ces­so­res dos 12 após­to­los de Cris­to pre­ci­sam acei­tar en­trar no mun­do novo e dei­xar de se com­por­tar co­mo prín­ci­pes do ‘an­ci­en ré­gi­me’.”

Je­an-Pierre Cla­tot-22.ago.18/AFP

O pa­dre Pierre Vig­non, em sua igre­ja no sul da Fran­ça, ale­ga que Igre­ja ain­da re­sis­te a re­co­nhe­cer do­lo

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