OBRAS SO­LO

Ape­sar das per­das ao lon­go da vida, McCart­ney se­guiu sua car­rei­ra de for­ma re­si­li­en­te. Com al­tos e bai­xos, seu período pós-Be­a­tles é re­che­a­do de su­ces­sos

GRANDES ÍDOLOS DA MÚSICA ESPECIAL PAUL MACCARTNEY - 2 - - ÍNDICE - Tex­to Ra­fa­el Gui­ma­rães/ Co­la­bo­ra­dor De­sign Ana Pau­la Mal­do­na­do

A car­rei­ra pes­so­al de Paul é re­che­a­da de gran­des mo­men­tos e já atra­ves­sa cin­co dé­ca­das com seus distintos pe­río­dos

Em 20 de setembro de 1969, John Len­non anun­ci­ou em uma reu­nião com os de­mais mem­bros dos Be­a­tles sua in­ten­ção em dei­xar os com­pa­nhei­ros. A pe­di­do dos de­mais, ele man­te­ve a de­ci­são em se­gre­do por al­gum tem­po, uma vez que a ban­da aca­ba­ra de as­si­nar uma re­ne­go­ci­a­ção com a gra­va­do­ra.

O grupo ain­da lan­ça­ria o álbum Let It Be e gra­va­ria um fil­me ba­se­a­do no mes­mo. Pou­co de­pois da reu­nião, en­tre­tan­to, a im­pren­sa pres­si­o­nou Paul so­bre uma de­cla­ra­ção so­bre a si­tu­a­ção da ban­da, ao que ele de­cla­rou: “A coi­sa to­da dos Be­a­tles aca­bou”.

Em de­zem­bro de 1969, afastado emo­ci­o­nal­men­te dos co­le­gas, Paul co­me­çou a gra­var em sua ca­sa al­gu­mas fai­xas que ha­via com­pos­to pa­ra o grupo e a com­por pro­du­ções pró­pri­as. Ele en­trou em acor­do com a gra­va­do­ra Ap­ple pa­ra lan­çar o seu pri­mei­ro álbum so­lo, McCart­ney, em abril de 1970. En­tre­tan­to, de­vi­do às da­tas de lan­ça­men­to de Let It Be e do álbum so­lo do ba­te­ris­ta Rin­go Starr, a em­pre­sa de­ci­diu al­te­rar a da­ta do álbum do bai­xis­ta, o que foi in­for­ma­do a ele por Rin­go. Paul re­a­giu mal à no­tí­cia, ex­pul­san­do o co­le­ga de sua ca­sa.

Com a re­a­ção ruim de Paul, Rin­go pre­fe­riu con­ver­sar só com de­mais Be­a­tles e a gra­va­do­ra pa­ra que a da­ta ori­gi­nal do álbum de McCart­ney fos­se res­pei­ta­da. Ape­sar dis­so, a rus­ga do bai­xis­ta com o res­to do grupo con­ti­nu­ou, che­gan­do ao seu ápi­ce na co­le­ti­va de im­pren­sa do seu álbum so­lo, quan­do McCart­ney anun­ci­ou sua saí­da do grupo, di­zen­do ser im­pro­vá­vel que ele vol­tas­se a com­por com John Len­non. Em­bo­ra Paul te­nha en­fa­ti­za­do que a de­ci­são era pes­so­al e ape­sar do de­se­jo de John de se­guir car­rei­ra so­lo ain­da ser des­co­nhe­ci­da pe­la mí­dia, os jor­nais in­ter­pre­ta­ram seu anún­cio co­mo o fim dos Be­a­tles.

So­zi­nho a dois

A car­rei­ra so­lo de Paul, en­tre­tan­to, ti­nha um fa­tor bem in­te­res­san­te. Sua es­po­sa, Lin­da, era mui­to ati­va em su­as com­po­si­ções e aju­da­va a fa­zer as le­tras, o que im­pul­si­o­nou McCart­ney a fa­zer do álbum se­guin­te, Ram (1971), uma obra as­si­na­da pe­los dois.

En­tre­tan­to, a mí­dia es­pe­ci­a­li­za­da em mú­si­ca ain­da cul­pa­va o bai­xis­ta pe­lo fim da sua ban­da, prin­ci­pal­men­te fren­te ao fato de ele ter si­do o pri­mei­ro a de­cla­rar sua saí­da. A crí­ti­ca, en­tão, pe­gou pe­sa­do com os comentários so­bre o disco. Nos di­as de ho­je, Ram é con­si­de­ra­do uma obra de ar­te.

A du­pla com Lin­da con­ti­nu­ou com a for­ma­ção da ban­da Wings ain­da em 1971. O grupo du­rou até 1981, mas te­ve seu úl­ti­mo disco lan­ça­do em 1979, de­pois do qu­al Paul re­tor­nou pa­ra a pro­du­ção so­lo.

Gu­er­ra e paz

O lan­ça­men­to do ter­cei­ro álbum so­lo de Paul, cha­ma­do de McCart­ney II, foi re­a­li­za­do em 1980, en­quan­to a exis­tên­cia da ban­da Wings ain­da era ofi­ci­al. O ca­rá­ter ex­pe­ri­men­tal ao ex­tre­mo do disco, que fu­gia com­ple­ta­men­te do que o músico ha­via fei­to até en­tão, fez com que os críticos de­cla­ras­sem a obra “ex­cên­tri­ca” e des­sem opi­niões ne­ga­ti­vas.

Pou­co após o lan­ça­men­to do álbum, Paul e o mun­do se cho­ca­ram com a violência e a sur­pre­sa do as­sas­si­na­to de John Len­non. A sú­bi­ta per­da do ami­go fez com que McCart­ney se re­cu­sas­se a con­ti­nu­ar a tur­nê dos Wings que es­ta­va pla­ne­ja­da pa­ra os Es­ta­dos Uni­dos, cau­san­do o fim do grupo.

O ar­tis­ta, en­tão, se de­di­cou à com­po­si­ção de um no­vo álbum so­lo, Tug of War, que foi lan­ça­do em 1981. Com uma men­sa­gem pa­ci­fis­ta e in­ti­mis­ta, com um le­ve tom nos­tál­gi­co so­bre a ami­za­de re­cém-per­di­da, o disco foi acla­ma­do co­mo a me­lhor pro­du­ção de Paul após o fim dos Be­a­tles.

A obra se­guin­te do con­sa­gra­do bai­xis­ta ( já re­co­nhe­ci­do co­mo um mul­ti-ins­tru­men­tis­ta) foi um álbum cu­ja te­má­ti­ca e no­me foi fei­ta pa­ra ca­sar com a do an­te­ri­or. Pi­pes of Pe­a­ce foi lan­ça­da em 1982 e qu­a­se igua­lou o sucesso co­mer­ci­al e crí­ti­co do an­te­ri­or. En­quan­to o disco de 1981 ti­nha um du­e­to com Ste­vie Won­der, Ebony and Ivory, co­mo car­ro-che­fe, ago­ra era a vez de uma par­ce­ria com Mi­cha­el Jack­son, Say Say Say, pu­xar as ven­das.

Em 1984, Paul lan­çou Gi­ve my Re­gards to Bro­ad Stre­et, no­me da­do a um fil­me fic­ci­o­na­li­zan­do um dia na vida do ex-Be­a­tles que te­ve a tri­lha so­no­ra lan­ça­da co­mo o pró­xi­mo álbum de sucesso do músico. O disco é re­che­a­do de re­gra­va­ções de com­po­si­ções fei­tas com Len­non e com par­ti­ci­pa­ções es­pe­ci­ais de no­mes co­mo Da­vid Gil­mour, do Pink Floyd. Ape­sar de to­da a di­vul­ga­ção, o fil­me foi um fra­cas­so de bi­lhe­te­ri­as, mas o LP ven­deu mui­to bem.

Pro­cu­ran­do a pró­pria voz

Com as crí­ti­cas ata­can­do Paul por es­tar pre­so ao seu pas­sa­do de­vi­do às es­co­lhas de fai­xas re­a­li­za­das pa­ra o disco an­te­ri­or, o álbum Press to Play, lan­ça­do em 1986, foi uma ten­ta­ti­va de se mo­der­ni­zar por par­te de McCart­ney. Foi re­ce­bi­do co­mo a obra mais rock’n’roll do músico, mas tam­bém co­mo um dos mo­men­tos mais in­cons­tan­tes de sua car­rei­ra.

O disco Снова в СССР (rus­so pa­ra Back to USSR, ape­sar de a mú­si­ca dos Be­a­tles de mes­mo no­me não es­tar pre­sen­te no álbum), lan­ça­do em 1988, con­sis­tiu ex­clu­si­va­men­te gra­va­ções de com­po­si­ções de ou­tros artistas, em ge­ral de mú­si­cas do período do rock pré-Be­a­tles, com fai­xas que ha­vi­am fei­to sucesso, de Lit­tle Ri­chards e El­vis Pres­ley. Por não con­ter can­ções ori­gi­nais, o álbum foi pra­ti­ca­men­te ig­no­ra­do pe­la crí­ti­ca, mas re­ce­beu al­gu­mas re­se­nhas po­si­ti­vas em ge­ral.

Foi ape­nas em Flowers in the Dirty, lan­ça­da em 1989, que a crí­ti­ca mu­si­cal e o ex-Be­a­tles fi­ze­ram as pa­zes em de­fi­ni­ti­vo. Paul de­cla­rou du­ran­te a di­vul­ga­ção do álbum que en­ten­dia o sen­ti­men­to ge­ral de que ele não ha­via le­va­do a sé­rio su­as gra­va­ções nos úl­ti­mos anos, se re­fe­rin­do aos dis­cos em 1984 e 1988.

O ve­te­ra­no

Paul en­trou nos anos 1990 ob­ser­van­do a pro­fun­da mudança que o ce­ná­rio mu­si­cal ha­via pas­sa­do des­de que ele e seus co­le­gas de Be­a­tles ha­vi­am atin­gi­do o sucesso. Des­sa for­ma, o músico se re­ser­vou en­tre 1989 e 1993, in­ter­va­lo em que não lan­çou nenhum disco ori­gi­nal de rock. Du­ran­te o período, ele se en­vol­veu com mú­si­ca clás­si­ca e aca­bou por pro­du­zir Li­ver­po­ol Ora­to­rio, um álbum ao vi­vo com com­po­si­ções su­as exe­cu­ta­das pe­la Or­ques­tra Fi­larmô­ni­ca Re­al de Li­ver­po­ol.

Foi ape­nas em 1993 que ele vol­tou à sua pro­du­ção pop, ano em que lan­çou Off the Ground, um álbum que foi vis­to, en­tão, co­mo o mai­or fra­cas­so de sua car­rei­ra. O disco se­ria es­que­ci­do pe­lo pú­bli­co, não fos­se por con­ter a mú­si­ca Ho­pe of De­li­ve­ran­ce, que foi um sucesso nas rá­di­os.

Tam­bém em 1993, McCart­ney se jun­tou ao pro­du­tor Youth pa­ra cri­ar um pro­je­to de mú­si­ca ele­trô­ni­ca, que re­ce­beu o no­me de The Fi­re­men. Os dois lan­ça­ram Straw­ber­ri­es Oce­an Ships Fo­rest, um disco de dan­ce mu­sic. Mui­tos mú­si­cos de rock dos anos an­te­ri­o­res es­ta­vam se aven­tu­ran­do nes­se es­ti­lo e a ex­pe­ri­men­ta­ção de Paul foi am­pla­men­te acla­ma­da co­mo a me­lhor con­ver­são de um ar­tis­ta en­tre os gê­ne­ros até en­tão.

Em 1997, Paul lan­çou Fla­ming Pie, ime­di­a­ta­men­te con­si­de­ra­do sua me­lhor obra des­de Tug of War. O disco saiu lo­go de­pois de An­to­lo­gia dos Be­a­tles, que con­sis­tiu em uma edi­ção de lu­xo com as me­lho­res mú­si­cas do grupo e um do­cu­men­tá­rio pa­ra te­le­vi­são. A obra de McCart­ney nos anos se­guin­tes a es­ses pro­je­tos foi al­ta­men­te in­flu­en­ci­a­da por sua pro­du­ção en­quan­to

mem­bro da ban­da e com um sen­ti­men­to de nos­tal­gia so­bre os anos 1960.

Em 1998 acon­te­ceu o se­gun­do lan­ça­men­to da du­pla The Fi­re­men, Rushes. A pro­du­ção de McCart­ney, po­rém, so­freu uma bre­ve pau­sa de­vi­do ao fa­le­ci­men­to de sua es­po­sa Lin­da. Ela, en­tre­tan­to, ha­via ex­pres­sa­do em vida sua von­ta­de de que ele con­ti­nu­as­se a car­rei­ra mu­si­cal e os pro­je­tos que ha­via co­me­ça­do an­tes da des­co­ber­ta do cân­cer de ma­ma que a le­vou a óbi­to. O fato de ter per­di­do a mãe pa­ra a mes­ma do­en­ça fez Paul se tor­nar um fi­lan­tro­po des­ta cau­sa, con­tri­buin­do fi­nan­cei­ra­men­te com pes­qui­sas pa­ra er­ra­di­car a do­en­ça.

In­ci­an­do sua re­cu­pe­ra­ção do lu­to, o ex-Be­a­tle con­ti­nu­ou um pro­je­to mais sim­ples: o álbum de co­vers Run De­vil Run, to­tal­men­te re­a­li­za­do em par­ce­ria com Da­vid Gil­mour.

Ter­cei­ro Mi­lê­nio

Os anos 2000 fo­ram pro­du­ti­vos pa­ra McCart­ney, com mais lan­ça­men­tos de mú­si­ca clás­si­ca e al­guns dis­cos de sucesso na mú­si­ca pop, co­mo Dri­ving Rain (2001), Me­mory Al­most Full (2007) e a úl­ti­ma pro­du­ção da du­pla The Fi­re­men em 2008, Ele­tric Ar­gu­ments.

En­tre­tan­to, o álbum con­si­de­ra­do a gran­de obra de Paul no período é Cha­os and Cre­a­ti­on in the Backyard, lan­ça­do em 2005. Con­si­de­ra­do, ao la­do de Tug of War e Fla­ming Pie, co­mo uma das mai­o­res obras de sua car­rei­ra so­lo, o disco foi acla­ma­do pe­lo tom ín­ti­mo e re­fle­xi­vo.

Ape­sar de bem re­ce­bi­do pe­los críticos por ter se man­ti­do in­ven­ti­vo e con­ti­nu­ar sain­do da zo­na de con­for­to na épo­ca, o ter­cei­ro mi­lê­nio viu o ex-Be­a­tles so­frer um de­clí­nio nas ven­das. Ele fa­lhou em ten­tar al­can­çar um Disco de Pla­ti­na nos Es­ta­dos Uni­dos e no Rei­no Uni­do du­ran­te to­do o período.

As três úl­ti­mas pro­du­ções de Paul, Me­mory Al­most Full, Kis­ses on the Bot­tom (2012) e New (2013), fo­ram lan­ça­das por uma no­va gra­va­do­ra, a He­ar Mu­sic, pro­pri­e­da­de da re­de de ca­fe­te­ri­as Star­bucks. Ape­sar de con­ti­nu­ar acom­pa­nhan­do as mu­dan­ças do ce­ná­rio da mú­si­ca, nenhum des­ses ál­buns con­se­guiu o sucesso co­mer­ci­al an­te­ri­or do ar­tis­ta. Ain­da as­sim, aos 75 anos de ida­de, ele ain­da pro­me­te con­ti­nu­ar lan­çan­do no­vas can­ções e man­ter vi­vo seu le­ga­do nos pal­cos.

In­ci­an­do sua re­cu­pe­ra­ção do lu­to, o ex-Be­a­tles con­ti­nu­ou um pro­je­to mais sim­ples: o álbum de co­vers Run De­vil Run, to­tal­men­te re­a­li­za­do em par­ce­ria com Da­vid Gil­mour

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