A LENDA VI­VA

Além de ser um rolling sto­ne, Mick Jag­ger cons­truiu uma ima­gem icô­ni­ca tam­bém lon­ge do cir­co do rock’n’roll

GRANDES ÍDOLOS DA MÚSICA ESPECIAL ROLLING STONES - 1 - - ÍNDICE -

Co­mo Mick Jag­ger se trans­for­mou em íco­ne da cul­tu­ra pop

Ele es­cre­veu a mai­or par­te das le­tras de al­guns dos mai­o­res clás­si­cos do rock, ao la­do de seu par­cei­ro Keith Ri­chards, que se en­car­re­ga­va de mu­si­cá-los. Su­as per­for­man­ces in­cen­diá­ri­as e sen­su­ais fo­ram ins­pi­ra­ção pa­ra ga­ro­tos e ga­ro­tas li­ga­dos a to­das as ver­ten­tes do rock. Com os Rolling Sto­nes, lan­çou pe­lo me­nos seis dos ál­buns mais acla­ma­dos de to­da his­tó­ria do rock: Af­ter­math, Beg­gars Ban­quet, Let It Ble­ed, Sticky Fin­gers, Exi­le On Main St. e So­me Girls.

Mas sir Mi­cha­el Phi­lip Jag­ger, tí­tu­lo que re­ce­beu em 2003, ja­mais po­de ser con­ti­do pe­los li­mi­tes de um es­ti­lo mu­si­cal ou de qual­quer ró­tu­lo. Tor­nou-se um íco­ne pop uni­ver­sal. Su­as per­for­man­ces, car­re­ga­das de uma ener­gia ines­go­tá­vel, ins­pi­ra­das no “pai do soul” Ja­mes Brown, tor­na­ram-se re­fe­rên­cia pa­ra ar­tis­tas do mun­do in­tei­ro e de to­das as ge­ra­ções pos­te­ri­o­res ao seu sur­gi­men­to na ce­na mu­si­cal lon­dri­na.

Vo­os so­los

Na dé­ca­da de 1980, os Rolling Sto­nes vi­ve­ram uma fa­se de cri­ses su­ces­si­vas no re­la­ci­o­na­men­to en­tre seus in­te­gran­tes. Pa­ra Jag­ger, foi uma opor­tu­ni­da­de de sair um pou­co da cai­xa e se aven­tu­rar em uma car­rei­ra so­lo. No fun­do, que­ria se des­ven­ci­lhar dos Rolling Sto­nes, em­bo­ra ain­da não sou­bes­se que is­so se­ria im­pos­sí­vel.

Em 1985, lan­çou seu pri­mei­ro ál­bum, She’s The Boss, que po­de ser des­cri­to co­mo um dis­co dos Sto­nes mais su­a­ve. Com al­guns con­vi­da­dos ilus­tres co­mo Jeff Beck e Pe­te Townshend – afi­nal, es­ta­va acos­tu­ma­do a can­tar com os me­lho­res gui­tar­ris­tas do pla­ne­ta – pro­du­ziu um bom dis­co, com des­ta­que pa­ra o hit Just Another Night.

Mas a gran­de sa­ca­da de Mick foi es­ta­be­le­cer par­ce­ri­as com os me­lho­res. Ain­da em 85, lan­çou o sin­gle Dan­cing In The Stre­ets com David Bowie, um gran­de su­ces­so mun­di­al. No ano an­te­ri­or já ha­via fei­to Sta­te Of Shock, com o The Jack­sons, cu­jo in­te­gran­te mais fa­mo­so, Mi­cha­el, do­mi­na­va as pa­ra­das.

Em 1987, che­ga­va às lo­jas Pri­mi­ti­ve Co­ol, o se­gun­do dis­co so­lo de Mick, no qual bus­cou uma so­no­ri­da­de mais con­tem­po­râ­nea e afas­ta­da do “es­ti­lo Sto­nes”. Pa­ra is­so, cha­mou Da­ve Stewart, do Euryth­mics, pa­ra a pro­du­ção. Sem ne­nhum hit, o pro­je­to não em­pla­cou.

De­pois de um bre­ve re­tor­no aos Rolling Sto­nes,

Jag­ger vol­tou à car­ga com Wan­de­ring Spi­rit, em 1993. Mais ro­quei­ro, sem dú­vi­da, seu me­lhor tra­ba­lho so­lo. O pro­ble­ma é que não te­ve co­mo fu­gir às com­pa­ra­ções e, em tem­pos de grun­ge, as ven­das não co­la­bo­ra­ram. Em 2001, fez uma no­va ten­ta­ti­va, com God­dess in the Do­orway, ou­tro gran­de tra­ba­lho, mais di­ver­si­fi­ca­do que os an­te­ri­o­res. Mas nem os elo­gi­os da crí­ti­ca pu­de­ram sal­var as ven­das.

Em 2011, o vo­ca­lis­ta par­ti­ci­pou do Su­perHe­avy, um su­per­gru­po que ain­da ti­nha Joss Sto­ne, Da­ve Stewart, Sa­mi­an Mar­ley e o in­di­a­no A.R. Rah­man. Um ti­me de es­tre­las que pro­du­ziu um dos me­lho­res ál­buns de 2011. A pro­pos­ta ori­gi­nal do Su­perHe­avy era mis­tu­rar os po­ten­tes sound sys­tems ja­mai­ca­nos com as me­lo­di­as de uma or­ques­tra de cor­das in­di­a­na. Fi­nal­men­te, Jag­ger con­se­guiu uma so­no­ri­da­de com­ple­ta­men­te di­fe­ren­te dos Sto­nes. Mas era um pro­je­to tem­po­rá­rio, tal­vez, uma ma­nei­ra que Jag­ger, en­tão per­to dos 70 anos, en­con­trou pa­ra mos­trar que ain­da tem mui­ta le­nha pa­ra quei­mar.

Ci­ne­ma

Além da mú­si­ca, Mick Jag­ger sem­pre foi fas­ci­na­do pe­la “sé­ti­ma ar­te” e mos­trou seu po­ten­ci­al co­mo ator em al­gu­mas opor­tu­ni­da­des. Sua pri­mei­ra aven­tu­ra ci­ne­ma­to­grá­fi­ca foi o mis­to de do­cu­men­tá­rio e fic­ção Sym­pathy For The De­vil, di­ri­gi­do pe­lo cul­tu­a­do Je­an-Luc Go­dard. O fil­me re­gis­tra o pro­ces­so de cri­a­ção da can­ção, in­ter­ca­la­do com ce­nas so­bre os Pan­te­ras Ne­gras e o mo­vi­men­to black power no iní­cio dos anos 70. Por­tan­to, não exi­giu na­da de Mick, a não ser “re­pre­sen­tar” a si mes­mo. Ho­je, é um re­gis­tro e tan­to de uma das fa­ses mais cri­a­ti­vas do gru­po e do ta­len­to de Jag­ger no es­tú­dio e di­an­te das câ­me­ras.

Mas sua pri­mei­ra atu­a­ção “pra va­ler”, foi em Per­for­man­ce, com di­re­ção de Do­nald Cam­mell e Ni­co­las Ro­eg. Jag­ger in­ter­pre­ta um pops­tar ex­cên­tri­co que re­ce­be um cri­mi­no­so em sua man­são. O fil­me, re­a­li­za­do em 1968, com ce­nas for­te pa­ra a épo­ca – se­xo, vi­o­lên­cia e con­su­mo de drogas – aca­bou fi­can­do en­ga­ve­ta­do por mais de dois anos até ser lan­ça­do. Não foi bem na bi­lhe­te­ria, mes­mo com elo­gi­os da crí­ti­ca.

Em 1970, Jag­ger acei­tou atu­ou em Ned Kelly, lan­ça­do no Bra­sil com o tí­tu­lo A For­ca Se­rá Tua Re­com­pen­sa, di­ri­gi­do por Tony Ri­chard­son. Des­ta vez, re­pre­sen­ta­va um ban­di­do aus­tra­li­a­no do sé­cu­lo 19. O fil­me, um “bang bang”, aca­bou sen­do fra­cas­so de bi­lhe­te­ria, ape­sar de Mick ga­nhar elo­gi­os por sua atu­a­ção.

Ou­tra ex­pe­ri­ên­cia cu­ri­o­sa de Jag­ger no ci­ne­ma foi a co­mé­dia Run­ning Out of Luck. Ro­da­do no Bra­sil, mas ja­mais lan­ça­do por aqui, o fil­me é ins­pi­ra­do nas mú­si­cas do ál­bum She’s The Boss, e tem par­ti­ci­pa­ções de Nor­ma Ben­gell e Tony Tor­na­do. Des­sa vez, nem os crí­ti­cos apro­va­ram, as­sim co­mo acon­te­ce­ria com Fre­e­jack: Os Imor­tais, de 1992, que ti­nha ain­da no­mes co­mo Anthony Hop­kins, Re­ne Rus­so e Emi­lio Es­te­vez no elen­co.

Um dos me­lho­res fil­mes em que Jag­ger te­ve opor­tu­ni­da­de de atu­ar foi Bent, um dra­ma am­bi­en­ta­do na Se­gun­da Gu­er­ra so­bre a per­se­gui­ção na­zis­ta aos ho­mos­se­xu­ais. Mick faz o pa­pel de Gre­ta, uma drag-que­en. No en­tan­to, des­de 2001, o ro­quei­ro não dá as ca­ras nas te­lo­nas. Seu úl­ti­mo pa­pel foi de um ca­fe­tão em Con­fis­sões de um Se­du­tor.

Além de atu­ar, Jag­ger mos­trou sua pai­xão pe­lo ci­ne­ma co­mo pro­du­tor. No fi­nal da dé­ca­da de 1990 fun­dou a Jag­ged Films, que lan­çou o elo­gi­a­do Enig­ma, com Ka­te Wins­let no elen­co. E, co­mo pro­va de seu amor pe­la mú­si­ca de ma­triz afro-ame­ri­ca­na, em 2014, pro­du­ziu Get on Up: A His­tó­ria de Ja­mes Brown, e Mr. Dy­na­mi­te: The Ri­se of Ja­mes Brown, em mais uma re­ve­rên­cia ao “pai do soul”. Ou­tra pro­du­ção elo­gi­a­da da Jag­ged Films é a sé­rie pa­ra te­vê Vinyl, que mos­tra os bas­ti­do­res da in­dús­tria mu­si­cal na dé­ca­da de 1970, com o re­a­lis­mo de quem es­te­ve lá, cla­ro.

En­fim, Mick Jag­ger, se­ja à fren­te dos Rolling Sto­nes ou em car­rei­ra so­lo, es­tá cons­truin­do uma obra des­ti­na­da a ser eter­na. Não é pos­sí­vel cra­var se já a ter­mi­nou ou se ain­da tem car­tas na man­ga. A jul­gar por Blue & Lo­ne­so­me, o dis­co de 2017 dos Sto­nes, o fim ain­da es­tá lon­ge.

Mas não foi ape­nas por ser um gran­de com­po­si­tor que aden­trou no pan­teão dos deu­ses da mú­si­ca (o rock é mui­to pou­co pa­ra ele). O que abriu to­dos os ca­mi­nhos fo­ram su­as per­for­man­ces. É um mes­tre de ce­rimô­ni­as na­to, ca­paz de co­man­dar mul­ti­dões co­mo fez no Rio de Ja­nei­ro, em 2006, qu­an­do os Rolling Sto­nes to­ca­ram pa­ra um pú­bli­co de mais de um mi­lhão de pes­so­as.

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