PA­RIS EM CHA­MAS

A pro­pos­ta fran­ce­sa de um novo im­pos­to ver­de de­fla­gra um mo­vi­men­to de in­dig­na­dos com as di­fi­cul­da­des fi­nan­cei­ras do dia a dia

ISTO É Dinheiro - - ECONOMIA -

Nu­ma ten­ta­ti­va frus­tra­da de des­truir Pa­ris no fi­nal da 2ª Guer­ra Mun­di­al, quan­do as For­ças Ali­a­das se apro­xi­ma­vam, Adolf Hi­tler te­ria per­gun­ta­do ao co­man­do na­zis­ta que ocu­pa­va a ci­da­de se ela já es­ta­va “em cha­mas.” Ho­je, a res­pos­ta se­ria “sim, es­tá”. O mo­ti­vo, po­rém, não é um ini­mi­go ex­ter­no e sim os pró­pri­os fran­ce­ses. Ou me­lhor, o cus­to de vi­da na Fran­ça. O mo­vi­men­to dos Co­le­tes Ama­re­los to­mou as ru­as da ci­da­de luz para pro­tes­tar con­tra o aumento dos com­bus­tí­veis anun­ci­a­do pelo go­ver­no do pre­si­den­te Em­ma­nu­el Ma­cron. A al­ta vi­ria em ja­nei­ro, den­tro de um pa­co­te de me­di­das am­bi­en­tais com po­ten­ci­al de ar­re­ca­da­ção de

2 bi­lhões (R$ 8,7 bi­lhões). Os mai­o­res afe­ta­dos nem são os pa­ri­si­en­ses, mas a po­pu­la­ção ru­ral e de bai­xa renda do in­te­ri­or. Eles fo­ram à ca­pi­tal pro­tes­tar — e as ma­ni­fes­ta­ções já du­ram mais de três se­ma­nas.

O mo­vi­men­to co­me­çou de for­ma pa­cí­fi­ca e com uma pau­ta es­pe­cí­fi­ca. Se trans­for- mou em uma con­vul­são so­ci­al ge­ne­ra­li­za­da e vi­o­len­ta. Os ma­ni­fes­tan­tes ago­ra pe­dem aumento de sa­lá­ri­os e di­mi­nui­ção de ta­ri­fas pú­bli­cas, co­mo a con­ta de luz. O sal­do já é de ao me­nos três mor­tos, 378 pre­sos e 4 mi­lhões de eu­ros de da­nos ao pa­trimô­nio pú­bli­co. O mo­vi­men­to não tem li­de­ran­ça de­fi­ni­da, de for­ma si­mi­lar às ma­ni­fes­ta­ções bra­si­lei­ras de 2013. Por aqui, o al­vo era o aumento de R$ 0,20 na ta­ri­fa de ôni­bus, em uma mo­bi­li­za­ção que con­tri­buiu, mais tar­de, para o for­ta­le­ci­men­to da ex­tre­ma- di­rei­ta e o im­pe­a­ch­ment da pre­si­den­te Dil­ma Rous­seff, em 2016.

No úl­ti­mo fim de se­ma­na, os pro­tes­tos fo­ram fei­tos em ou­tras ci­da­des fran­ce­sas. Com pi­que­tes nas es­tra­das, o fa­tu­ra­men­to dos se­to­res de tu­ris­mo, ser­vi­ços e va­re­jo caiu de 25% des­de o iní­cio do mo­vi­men­to.

PIB EM QUE­DA “Para o PIB de 2018, a que­da po­de che­gar a 0,1% do cres­ci­men­to”, diz Da­ni­e­la Or­do­nez, eco­no­mis­ta da con­sul­to­ria Ox­ford Eco­no­mics. “Pa­re­ce pou­co, mas com a apro­xi­ma­ção do Na­tal, o es­tra­go po­de cres­cer.” O se­tor ali­men­tí­cio, por exem­plo, já pre­vê per­das de 13 bi­lhões de eu­ros (R$ 56 bi­lhões), num mo­vi­men­to em ca­deia se­me­lhan­te ao do Bra­sil, du­ran­te a gre­ve dos ca­mi­nho­nei­ros con­tra o aumento do di­e­sel.

Ma­cron as­su­miu o car­go em 2016 e pro­põe re­for­mas para tor­nar a economia fran­ce­sa mais com­pe­ti­ti­va, in­cluin­do me­di­das co­mo o re­la­xa­men­to de leis tra­ba­lhis­tas e a di­mi­nui­ção de im­pos­tos so­bre gran­des for­tu­nas. A co­bran­ça ex­tra foi sus­pen­sa por seis me­ses. “Não to­le­ra­re­mos vi­o­lên­cia”, dis­se o man­da­tá­rio que vol­tou com urgência da cú­pu­la do G-20. O re­ca­do não sur­tiu efei­to. “Fa­re­mos mais pro­tes­tos. Con­ti­nu­a­re-mos mo­bi­li­za­dos”, dis­se Li­o­nel Cuc­chi, um dos ra­ros por­ta-vo­zes do gru­po, à TV fran­ce­sa. Pelo vis­to, a Fran­ça, e es­pe­ci­al­men­te Pa­ris, po­de ain­da quei­mar mui­to mais.

ARCO DO TRIUNFO: VANDADALIZADO, O MONUMENTO FOI PICHADO COM A FRA­SE “JÁ CORTAMOS CABEÇAS POR ME­NOS”

BRA­SIL, 2013: co­mo ago­ra em Pa­ris, os pro­tes­tos ocor­re­ram sem li­de­ran­ças cla­ras

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