OS MI­LI­TA­RES NO GO­VER­NO

ISTO É - - ARTIGOS - por Mar­co An­to­nio Vil­la

Não há na his­tó­ria re­pu­bli­ca­na um go­ver­no com tan­tos mi­nis­tros mi­li­ta­res em pas­tas con­si­de­ra­das ci­vis co­mo o do pre­si­den­te Jair Bol­so­na­ro. Em com­pa­ra­ção com os cin­co go­ver­nos do re­gi­me mi­li­tar (19641985), mes­mo as­sim a pre­sen­ça mi­li­tar nun­ca foi tão gran­de. Se­rá um tes­te pa­ra os mi­li­ta­res ter de con­vi­ver com crí­ti­cas que são ro­ti­nei­ras em uma so­ci­e­da­de de­mo­crá­ti­ca. Afi­nal, são ori­gi­ná­ri­os de um meio que pres­cin­de da dis­cus­são igua­li­tá­ria pa­ra a so­lu­ção de um pro­ble­ma, pa­ra agir. A hi­e­rar­quia e a obe­di­ên­cia são com­po­nen­tes es­sen­ci­ais e im­pres­cin­dí­veis da ordem mi­li­tar. Con­tu­do, o exer­cí­cio de fun­ções políticas exi­gi­rão um com­por­ta­men­to de to­le­rân­cia e de acei­ta­ção de co­bran­ças que não es­tão ha­bi­tu­a­dos. De­ve­rão ser ine­vi­tá­veis cho­ques com a im­pren­sa, es­pe­ci­al­men­te nos mo­men­tos de ten­são política. E mais ain­da no iní­cio do go­ver­no, quan­do ha­ve­rá um pro­ces­so de adap­ta­ção ao no­vo mo­men­to pelo qual passa o País.

Se­rá uma ce­na co­mum as­sis­tir­mos mi­nis­tros mi­li­ta­res in­do ao Con­gres­so Na­ci­o­nal pa­ra jus­ti­fi­car, ex­pli­car, de­ba­ter me­di­das go­ver­na­men­tais afei­tas às su­as pas­tas. En­con­tra­rão em al­gu­mas co­mis­sões, com ab­so­lu­ta cer­te­za (e sem fa­zer pro­fe­cia de bo­te­quim), pe­tis­tas (e seus ali­a­dos) que vão des­qua­li­fi­car a ação do mi­nis­tro, vão acu­sá-lo de má ges­tão e até de su­pos­tos des­vi­os de re­cur­sos. Co­mo agi­rão? Co­mo vão en­fren­tar o de­ba­te?

É ine­gá­vel que nas Forças Ar­ma­das exis­tem ex­ce­len­tes qua­dros que po­dem ser uti­li­za­dos nas diversas es­fe­ras go­ver­na­men­tais. Nin­guém che­ga ao al­to ofi­ci­a­la­to sem ter pas­sa­do por es­co­las de al­ta es­pe­ci­a­li­za­ção e por es­tá­gi­os e mis­sões no ex­te­ri­or. Es­se co­ti­di­a­no de for­ma­ção téc­ni­ca é des­co­nhe­ci­do do gran­de pú­bli­co. Ain­da há a vi­são de que a pro­fis­são de mi­li­tar não passa de uma car­rei­ra pú­bli­ca mo­dor­ren­ta, à es­pe­ra de uma gu­er­ra que não vai ocor­rer, on­de a pro­mo­ção é

O de­sa­fio pa­ra as Forças Ar­ma­das é evi­tar a po­li­ti­za­ção dos seus qua­dros. Elas ser­vem ao Bra­sil e não a um go­ver­no em par­ti­cu­lar

aguar­da­da sim­ples­men­te pe­la an­ti­gui­da­de. São ig­no­ra­das as ações im­ple­men­ta­das em diversas mis­sões de paz em to­do mun­do. E no Bra­sil inú­me­ras ati­vi­da­des im­por­tan­tes são de­sen­vol­vi­das prin­ci­pal­men­te nas áre­as mais po­bres e nas re­giões fron­tei­ri­ças.

O de­sa­fio pa­ra as Forças Ar­ma­das é evi­tar a po­li­ti­za­ção dos seus qua­dros. Elas ser­vem ao Bra­sil e não a um go­ver­no em par­ti­cu­lar: são ins­ti­tui­ções per­ma­nen­tes de Es­ta­do. De­vem evi­tar a se­du­ção do sol­da­do-ci­da­dão, tão pre­sen­te no iní­cio da Re­pú­bli­ca. Irão de­sem­pe­nhar um no­vo pa­pel, trin­ta anos de­pois. Quem di­ria...

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