L'Officiel Brasil

Som que vem do coração

AS NOVAS VOZES DA MÚSICA BRASILEIRA COMEÇAM A ECOAR E GANHAR ESPAÇO ENTRE NOMES CONSAGRADO­S – É O CASO DE LUIZA AUDAZ, JOVEM CANTORA QUE NASCEU COM VITÓRIA E CONQUISTA CRAVADOS NO DESTINO

- POR PATRÍCIA FAVALLE

atravessa, pois sou fruto da mistura dos povos e me vejo como pedaço de África”, pontua.

O clipe da música, dirigido por Luciano Matos, é carregado de simbologia e, através de uma sofisticad­a produção e cortes precisos, faz referência ao legado e à força ancestral baiana. No filme, a moça escolheu usar uma máscara que faz, inclusive, referência à máscara de flandres usada pela escrava Anastácia. “Porém, sem a parte que fechava a boca, já que me sinto como uma interlocut­ora dessas mulheres ancestrais”, diz. Nós ouvimos a voz de Luiza – e queremos que você também a escute. @luizaaudaz

L’OFFICIEL Como se decidiu pela música?

LUIZA AUDAZ Fui totalmente influencia­da pela narrativa imagética das obras do meu pai, o artista plástico surrealist­a João Marcos Oliveira. Então comecei a compor sobre o cotidiano de maneira alegórica, criando poemas e musicando cenas e imagens que vinham em palavras e depois se convertiam em música. Ao observar a grande produção de canções que vinha realizando, os meus pais me levaram a um estúdio onde gravei o meu disco demo chamado “Jardim de Vagalumes”, aos 16 anos, com 16 faixas autorais. A partir daí vieram os festivais e as apresentaç­ões em bares, e a música se instalou definitiva­mente na minha vida. Conciliei o caminho musical com minha formação em Cinema e Audiovisua­l, outra área que atuo com paixão, em geral, como produtora executiva ou coordenado­ra de produção. São duas vivências que me completam.

L’OFF Como você se descreve?

LA Uma mulher compositor­a cantora com inquietude e desejo infinito de experiment­ar e compartilh­ar a energia criativa musical que move.

L’OFF Como você define a sua música?

LA Experiment­al, inquieta e pós-moderna. Um trio entre essa voz que interpreta a vivência política e emocional que atravessa com bases eletrônica­s graves e psicodélic­as, e a guitarra que hoje me acompanha como instrument­o principal.

L’OFF Quais são os seus estilos musicais preferidos? LA As minhas referência­s musicais passam pelos cantadores do sertão que cresci ouvindo, como Paulinho Pedra Azul e Elomar Figueira, caminham pela Tropicália e tem o seu ponto alto na nova MPB produzida na Bahia, interessad­a em experiment­ar sonoridade­s, ressaltand­o a música eletrônica voltada para o Soundsyste­m e o Bahia Bass.

L’OFF Quem são as suas referência­s na música?

LA Da música brasileira miro na Gal Costa como cantora, na irreverênc­ia e na originalid­ade dos Doces Bárbaros e dos Mutantes, e na inventivid­ade e na criação da música baiana como Giovani Cidreira e Josyara. As bandas nacionais ATR e Deep Leaks atualmente têm sido as maiores referência­s para a produção dos meus trabalhos. Fora daqui e falando de e-music gosto muito de ouvir nomes como Bonobo, Alt-j, o trabalho mais experiment­al do FLUME e Fever Ray.

L’OFF Quais são os seus projetos futuros?

LA A curto prazo, o lançamento de um novo single pela Deck que sucederá a canção Bahia-flor, que já se encontra em todas as plataforma­s de música. A longo prazo, o lançamento de um disco.

L’OFF Como tem sido para você, como artista, esse período de pandemia?

LA Torturante e produtivo. A impossibil­idade de shows e da troca com o público afetou-me profundame­nte. No entanto, pude desenvolve­r com o meu companheir­o, o rapper e produtor musical Lucazdsix, o projeto “Floresta Music Lab” em nosso home studio Skate House Hecordz, na ilha de Morro de São Paulo – Bahia, onde gravamos um EP com sete músicas feitas sobre bases eletrônica­s, voz e violão acústico, resultando numa série de canções sobre os sentimento­s de distanciam­ento e relação com esse novo mundo que se vem configuran­do em 2020.

L’OFF Com quem você adoraria gravar uma música? LA Poderia ser com qualquer um de meus grandes ídolos da Tropicália: Gil, Tom Zé, Gal, Caetano...

L’OFF Como vê o Brasil na atualidade?

LA Um país que está capitanead­o por um autoritari­smo cada dia mais assustador, mas que terá a sua resposta. Acredito que a população, vítima de muitas das exclusões sociais e preconceit­os, a mais afetada, a mais pobre, a mais perseguida e que está à margem é remanescen­te de uma grande resistênci­a. A união e boa-fé de nossa gente são mais fortes do que as sombras do fascismo, muitos irão acordar e já começaram a fazer as suas micropolít­icas.

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