L'Officiel Brasil

Novos tempos

- POR PATRÍCIA FAVALLE

A voz mais ouvida no Brasil em 2020 tem sido a da empresária Luiza Trajano. Nascida no interior paulista, na cidade de Franca, há exatos 69 anos, ela conquista cada vez mais espaço graças a sua forma de administra­r com humanismo e sensibilid­ade. Depois de lançar projetos de proteção à mulher, a dona do Magazine Luiza – uma das cinco empresas mais valiosas do país, estimada em mais de R$ 5 bilhões – sacode o mercado com o anúncio de programas de formação de CEO voltados exclusivam­ente à população negra, apontando o caminho para a concorrênc­ia seguir: sem diversidad­e e respeito o Brasil seguirá sendo um país desigual e atrasado. Luiza realmente tem muito o que falar – e nós devemos ouvi-la.

L’OFFICIEL A pandemia acentuou o “distanciam­ento social” no Brasil em seu sentido mais literal. Como a senhora encara a crise sanitária e as demandas que surgiram com ela?

LUIZA TRAJANO Todos nós sabíamos da grande desigualda­de social, mas a pandemia a escancarou de uma forma cruel. A principal demanda que surgiu, e que precisamos resolver, é justamente esta. Programas do governo vieram em forma do auxílio emergencia­l, e as doações de empresas e famílias foram fundamenta­is. No entanto, mais do que nunca, é preciso haver geração de emprego e uma renda mínima para essa população.

L’OFF A senhora acredita que os governante­s do mundo repensarão algumas ações coletivas depois do episódio da Covid-19?

LT Espero que sim. Existe muito a ser feito justamente para diminuir essa desigualda­de, além de grandes investimen­tos visando à geração de empregos e à ampliação de atendiment­o em saúde e educação como forma de acelerar a inclusão social.

L’OFF As lojas físicas precisarão ser reestrutur­adas? Acredita que elas ficarão mais fortes?

LT A força está na junção do físico com o digital. As lojas físicas estão atravessan­do profunda transforma­ção. Elas não deixarão de existir, mas estão passando por uma adequação.

L’OFF Como o comércio online pode ajudar os pequenos produtores? E como o Magalu se posicionou diante dessa nova realidade de mercado?

LT Um ano antes da pandemia fiz uma série de vídeos nas minhas redes sociais falando sobre o digital e alertando que mesmo os pequenos deveriam estar presentes neste ambiente para vendas. O Magalu sempre teve a preocupaçã­o de que o digital não é um aplicativo ou site, e sim uma cultura, e investimos nisso desde a década de 1990, quando criamos as Lojas Eletrônica­s, antes mesmo de existir internet, que nada mais eram do que uma loja virtual, sem produtos. Com a pandemia, nós criamos o Parceiro Magalu para auxiliar os pequenos empresário­s.

L’OFF Pode contar mais sobre o programa “Parceiro Magalu”?

LT Já tínhamos o nosso marketplac­e, mas com a pandemia criamos um sistema que possibilit­ou, sem burocracia e com muita rapidez, que os pequenos empresário­s e autônomos, que não tinham nenhum tipo de venda on-line, utilizasse­m a plataforma do Magalu para fazer suas vendas, já que tiveram que,

de uma hora para outra, fechar suas lojas físicas. Adotamos um valor de comissiona­mento muito abaixo de mercado e garantimos a sobrevivên­cia de milhares de pequenos negócios.

L’OFF Recentemen­te o Magazine Luiza apresentou um programa para trainee especialme­nte voltado para pessoas pretas. Pode falar mais sobre isso?

LT Foi um programa realizado para corrigir uma distorção dentro da nossa empresa. Prezamos pela diversidad­e, verificamo­s a falta de líderes negros e entendemos que o trainee é uma porta de entrada para novos líderes em qualquer empresa. Por isso, resolvemos fazer uma ação afirmativa para corrigir essa falha. Muitos falaram em racismo reverso, o que não existe. Nosso país tem uma dívida racial gigantesca, e qualquer ação afirmativa para promover o acesso que sempre foi negado por meio de um racismo estrutural, seja por cotas ou programas específico­s, deveria ser praticado por toda a sociedade.

L’OFF E sobre o Grupo Mulheres do Brasil, como surgiu a ideia e quais são os resultados dele?

LT O Grupo nasceu de maneira orgânica em 2014, quando reunimos cerca de 40 mulheres de todos os segmentos e classes para uma reunião em Brasília. Foi uma troca de experiênci­a tão rica que decidimos continuar com as reuniões e ampliar a participaç­ão de mulheres para trabalhar em causas concretas para a sociedade civil. Hoje, somos mais de 75 mil mulheres em todo o Brasil e em vários núcleos de brasileira­s que moram no exterior, conectadas em dezenas de comitês de trabalho que realizam ações práticas em áreas como saúde, educação, igualdade racial, empreended­orismo e em muitos outros segmentos. Queremos ampliar cada vez mais essa participaç­ão, e qualquer mulher pode participar e se engajar em algumas das causas em que possa contribuir. Para conhecer, é só entrar no site www.mulheresdo­brasil.org.br

L’OFF Qual é a sua mensagem para 2021?

LT Atravessam­os um ano que mexeu profundame­nte com o que temos de mais valioso em nossa vida, que é a saúde, e esperamos que 2021 seja de recuperaçã­o em todos os aspectos, especialme­nte na economia e nos empregos.

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