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O turbilhão da vida

Com produção 100% preta e seriado estrelado por Margareth Menezes, o novo serviço brasileiro de streaming quer contar histórias que a televisão não mostra.

- Por Eduardo Viveiros

Onde está a verdadeira cara do Brasil na TV? Foi a partir desse questionam­ento que Licínio Januário, ator, diretor e ativista, colocou no ar a Wolo TV, uma plataforma de streaming inédita, com conteúdo focado em produções feitas por e para o público preto.

“A Wolo é um desejo antigo da comunidade, que vem de outras gerações”, reflete o angolano radicado no Rio de Janeiro sobre o novo canal, que já nasce histórico. “Precisamos acelerar o processo de inserção das narrativas negras dentro do circuito comercial de entretenim­ento. A massa quer se ver, mas é mal retratada.”

Funcionand­o em sistema de pay-per-view, o serviço entrou no ar com uma série dirigida por Licínio,

Casa da Vó, cocriada com Allex Miranda e estrelada por Margareth Menezes. A rainha máxima do axé, que começou a carreira no teatro e já teve participaç­ões na televisão, encarna sua primeira protagonis­ta: uma avó estilosa, que é dona de um salão de beleza no Jabaquara, faz lives fitness ao som de pagode dos anos 1990 e tem de lidar com quatro netos de personalid­ades diferentes sob o mesmo teto. Já com a primeira temporada completa no ar, a sitcom foi gravada em esquema de guerra durante a quarentena e tem inspiração direta em clássicos da cultura preta dos anos 1990 – como

Um Maluco no Pedaço –, mas com o tempero inegável da convivênci­a íntima brasileira.

“Trazer essa questão familiar é uma estratégia de aproximaçã­o.

Somos tradiciona­lmente um povo muito família, mas isso não é retratado no audiovisua­l”, explica Licínio. A figurinist­a da série, Fernanda Garcia, complement­a: “A produção do mainstream, historicam­ente, mostra apenas realidades brancas da Zona

Sul. A periferia é sempre uma caricatura, quase um deboche”.

O cuidado na caracteriz­ação do elenco mescla as fortes mensagens políticas do texto com a urgência da representa­tividade visual, olhando muito para dentro de casa. “Esses personagen­s são memórias afetivas de nossa família, de nossos primos. Quem é essa avó preta? Quem é o primo que está tentando a carreira de artista? Ou a executiva da grande empresa, o que ela veste para mostrar que é empoderada e tem um conhecimen­to nato?”, conta Fernanda sobre o figurino, que mantém dois pés na realidade. “Partimos muito de dentro, olhando fotos de família, das mães, da tia que tem um salão. A ideia era trazer para a tela uma imagem na qual as pessoas se reconheçam.”

Essa necessidad­e de identifica­ção é algo que guia o projeto da Wolo, que tem ambições de revolucion­ar o entretenim­ento de massa – e de olho na exportação. “Em dez dias no ar, já atingimos dez países”, conta Licínio. “Se os negros americanos estão exportando, assim como os sul-africanos, nós temos o mesmo potencial, as narrativas são as mesmas. Queremos levar a cara do Brasil para o mundo. E nosso público não é o de festival de cinema. É o público de novela, que agora está assistindo a seriados. É isso que queremos atingir.”

Os planos são ambiciosos e com foco, como nessa primeira produção, em manter equipes majoritari­amente de profission­ais pretos. Funcionand­o em esquema de startup, o canal já vem mapeando produtoras e profission­ais do país inteiro para ajudar a contar novas histórias, principalm­ente fora do eixo Rio-são Paulo. Para 2021, além da segunda temporada de Casa da Vó, pelo menos mais uma série e um longa-metragem estão no prelo. “No máximo em quatro anos queremos estar em um nível de produção para uma cadeia muito grande, expandindo nossa mensagem e fomentando a carreira de profission­ais negros nos cargos de comando.”

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MARGARETH MENEZES É TERESA, A AVÓ APOSENTADA DE QUATRO NETOS COM PERSONALID­ADES DISTINTAS, INCLUINDO OS PERSONAGEN­S DE JESSICA CORES E JOHNNY KLEIN

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