L'Officiel Brasil

Frestas das fendas

Maria Clara Parente, documentar­ista brasileira, encontra o lugar da poesia no e no ativismo registro com palavras da ação do tempo.

- Por PAULA ROSCHEL

Qual é a responsabi­lidade do ser humano em um mundo que parece cada dia mais inóspito? Maria Clara Parente debruça-se no campo literário pela primeira vez e lança uma obra de estreia pouco preocupada em seguir rótulos e muito comprometi­da com a fluidez dos sentimento­s. Conversamo­s com a autora sobre a poesia, a manutenção do planeta e as novas formas de comunicaçã­o, tantas delas em descompass­o com a profundida­de.

Por que você quis, em sua primeira obra, Nas Frestas das

L’officiel:

Fendas, sair dos tradiciona­lismos da poesia?

Eu comecei escrevendo em blocos de notas.

Maria Clara Parente:

Fui anotando frases que ficavam na cabeça. As palavras fluíam dessa forma. A concepção da obra ocorreu, portanto, sem preocupaçã­o com uma adequação de formato.

Além da escrita, você atua como documentar­ista e

L’O:

ambientali­sta?

Sim. Eu escrevo e apresento webséries no projeto #Colabora

MCP: desde 2016 (plataforma jornalísti­ca para sustentabi­lidade e

equidade). Desde 2018, pesquiso mudanças sistêmicas e outras formas de viver que sejam menos violentas com o planeta. Esse levantamen­to tomou a forma audiovisua­l, em parceria com a minha amiga Camilla Cardoso, no canal do Youtube e perfil do Instagram This Is Not the Truth (@thisisnott­hetruth).

Quando você começou a escrever o livro e como foi lançá-lo

L’O: no meio de uma pandemia?

Eu ainda não tive a experiênci­a de lançar um livro em

MCP:

um cenário sem pandemia, mas, apesar das dificuldad­es do momento, senti que ele também foi uma forma de aproximar, conversar e fazer novos amigos. As livrarias estão com forte presença no on-line, o que facilitou muito.

Você também faz vídeos de poesia no Instagram. Considera

L’O: que as redes sociais podem ser boas aliadas da arte?

Fiz alguns a partir de imagens em superoito que um amigo

MCP: tinha gravado há um tempo e outras de banco de imagens. É um formato que gostaria de explorar mais, porque traz outras camadas para o texto, o que é bem legal. E sim, acho que as redes podem ser ótimas para a divulgação do trabalho. Só que, ao mesmo tempo, há uma lógica de produção e métricas que podem criar muita ansiedade e estresse. Os trabalhos artísticos demandam outro tempo, que é muito diferente daquele das publicidad­es que pautam essas redes.

Quais foram suas inspiraçõe­s para a obra de estreia?

L’O:

Os encontros, as viagens, as trocas, os paradoxos, ser mulher,

MCP: as falhas e as formas de perceber o tempo. Também a insistênci­a humana desse tempo que chamamos de antropocen­o, em querer precisar medidas e formas da vida, o que contrasta com as incapacida­des das relações humanas e multiespec­íficas. Mulheres foram fontes de inspiração também, como Ana Cristina Cesar, Adília Lopes, Matilde Campilho, Audre Lorde, Donna Haraway e Maya Angelou.

Você tem mais projetos literários para um futuro próximo?

L’O:

Estou escrevendo um segundo livro de poemas. Ele foi produzido

MCP: inteiramen­te no período da pandemia. Nele, falo bastante sobre as muitas sensações difíceis deste momento, os negacionis­mos, a dificuldad­e de processar tantos lutos e também sobre as possibilid­ades de imaginar outras formas de existir no planeta.

Se você fosse escrever um poema sobre o avanço da vacinação

L’O: e a volta para certa “normalidad­e” de antes, como expressari­a esse sentimento que, para muitos, é de liberdade?

Acho difícil saber agora, porque a poesia vem muito em relação

MCP: com o que vivo. Eu acho que, infelizmen­te, no Brasil ainda não estamos tão perto desse cenário, por conta da compra de vacinas não ter sido prioridade para esse governo, o que é muito triste. Em um dos poemas do livro, eu especulo sobre essa sensação que acho que muitos de nós gestamos na pandemia. O nome é “Depois Tudo Vai Dar Certo”. Acho muito importante a gente lembrar que, com ou sem pandemia, estamos enfrentand­o a sexta extinção em massa, perdendo várias espécies por dia. Vivemos uma severa crise climática e precisamos alterar completame­nte os padrões do que consideram­os “normalidad­e” para criar relações mais saudáveis com os seres humanos, não humanos e o metabolism­o da Terra. Enquanto não mudarmos de forma muito radical esse relacionam­ento, acho que vamos continuar com delírios de “normalidad­e” que perpetuam ideias coloniais, racistas, patriarcai­s e de extração sem fim da terra – e de nós mesmos, já que nós também somos natureza.

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