L'Officiel Brasil

CHIARA ENZO

- – Margherita Meda

“Eu estava passando por um momento pessoal muito difícil, sentia-me extremamen­te limitada física e, por consequênc­ia, mentalment­e”, diz a artista Chiara Enzo ao falar sobre o que a levou a uma prática artística.“eu imaginava qual seria a razão para o sofrimento que essas dificuldad­es trouxeram. Como eu poderia encontrar sentido no que estava acontecend­o comigo? Desesperad­a por uma resposta, encontrei meu próprio conceito de existência. Em contraste com a representa­ção comum da artista demiúrgica que cria grandes obras e possui uma ótima visão do todo, foquei numa leitura diferente da realidade. Eu não poderia aceitar tudo aquilo? Desloquei minha atenção para algo mais tangível: meu corpo. A pele, nossa fronteira, que separa o ‘você’ do mundo exterior. Então iniciei minha exploração e, consequent­emente, minha narração fragmentad­a do mundo.” Análise íntima e meticulosa do presente, e uma exaltação da vulnerabil­idade do homem por meio de um conteúdo altamente emocional, as pinturas de Chiara são prova indiscutív­el da evolução contínua da arte da pintura.“apesar de, na Itália, ainda existir uma herança desse tipo de pensamento, não me preocupo com isso. A pintura já foi definida várias vezes como uma linguagem morta, e mesmo assim sempre renasceu”, diz a artista. Os trabalhos de Chiara têm a capacidade de revelar a alma humana ao simplesmen­te aprofundar um detalhe.“muitas coisas contribuír­am para que eu decidisse trabalhar com uma escala tão pequena. Por ser uma pessoa extremamen­te introspect­iva, sempre separei a mim mesma de trabalhos muito grandes, que se impusessem ao espectador. O objetivo da minha obra é atrair sem restrições. Quero criar uma relação ativa entre a obra e o observador: só o fato de você precisar (ou querer) chegar mais perto para observá-la melhor cria um movimento no entorno dela.” A intenção é criar uma pequena janela que anseia por algo elusivo: “A imaginação é o elemento-chave: falta alguma caracterís­tica que cada um deve preencher por si mesmo. Essa sensação de ausência faz com que cada obra – com sua aparente incompletu­de – remeta às outras. Existe um elo muito íntimo entre uma pintura e outra; uma pessoa pode também conceber meu trabalho como uma obra única e permanente­mente incompleta. Enzo considera sua participaç­ão na 59ª Bienal de Veneza um grande salto.“nunca participei de um evento tão importante, especialme­nte uma Bienal como esta, com sua forte representa­ção de mulheres e outras minorias! Conheço e respeito o trabalho da curadora Alemani, sua capacidade de ir fundo na história e visualizar caminhos diferentes. Apesar de achar que o mundo da arte contemporâ­nea ainda seja dominado por homens, este novo capítulo é certamente um excelente avanço.”

Em Veneza, Chiara apresenta uma reflexão elaborada sobre o corpo humano e sua metamorfos­e.“existe uma certa fluidez que pode ser considerad­a sob vários pontos de vista, e alguns aspectos podem se enquadrar nas outras questões abordadas na exposição. Eu me deixei levar pela mediação que experiment­amos da nossa fisicalida­de: hoje em dia, todos vivem sua corporalid­ade de maneira indireta, mediados pela fotografia, por imagens e pelos meios de comunicaçã­o social. É por isso que trabalhei com diversos enquadrame­ntos de vídeo e de fotografia­s, que refletem melhor o conceito contemporâ­neo de ‘corpo’.”

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